Confesso que não fiquei tão perplexo com a ida de Bolsonaro
ao STF levando um grupo de empresários. Acredito que, tanto quanto eu, ele não
esperava nenhuma solução para o problema que levantava: a volta às atividades
econômicas.
O objetivo de Bolsonaro era mostrar que estava trabalhando
pela economia. Para isso, levou uma equipe de TV e transmitiu o encontro ao
vivo, para surpresa do próprio STF. Um golpe de propaganda, nada mais.
Interessante como Bolsonaro consegue perder os bondes nessa luta contra o
coronavírus.
Perdeu o primeiro, quando se isolou, negando a importância
da pandemia, criticando o trabalho de governadores e prefeitos. Uma nova
oportunidade de liderança e alinhamento se abriria para ele, no processo de
volta às atividades. Compete ao presidente unir governadores e prefeitos em
torno de um detalhado plano de retomada.
Dois dias antes de Bolsonaro ir ao Congresso, Angela Merkel
reuniu as lideranças regionais para definir e modular um plano de volta.
Esses planos são complexos. Não adianta pedir ao Tofolli,
porque ele não tem. Implicam a definição dos dados necessários, como número de
casos, disponibilidade de hospitais, capacidade de testar.
Implicam também um redesenho das escolas, das fábricas, dos
escritórios. Na Alemanha, técnicos foram às escolas para redefinir o espaço,
inclusive determinar o novo lugar dos professores na sala.
Em alguns países, houve escalonamento de turmas escolares;
em algumas regiões, normas para restaurantes ao ar livre.
Normas para o funcionamento de teatros e casas de espetáculo
também estão sendo trabalhadas nos detalhes. Os intervalos, por exemplo, serão
suprimidos para evitar aglomeração. O próprio futebol na Alemanha volta no dia
16, mas com portões fechados, sem plateia.
Bolsonaro até o momento apenas falou contra o isolamento.
Foi incapaz de apresentar um plano, mesmo um pobre esboço, como Trump.
Essa pressa acaba se estendendo a outros setores. O
governador de Brasília queria que a final do campeonato carioca fosse jogada no
Estádio Mané Garrincha mesmo com um hospital de campanha instalado ali.
Não sei a que atribuir esta loucura. Nós temos uma
singularidade cultural, que é a improvisação. É inegável que ela tem
qualidades, no compositor que escreve seus versos num botequim, nos
profissionais que driblam a falta de recursos para alcançar um certo resultado.
Na formulação de uma política nacional e solidária contra o
coronavírus, é preciso liderança e capacidade de planejamento. Bolsonaro
trabalha por espasmos, acorda pensando na briga nossa de cada dia, a quem vai
combater e orientar sua galera a chamar de lixo.
O ministro da Saúde tem dito que o Brasil é um país diverso.
Todos concordam. Mas é precisamente por ser diverso que necessita de um plano
com modulações.
Basta olhar no mapa para ver quantas cidades brasileiras não
tiveram casos de contaminação. Até elas precisam ser orientadas a rastrear com
rigor caso apareça alguém contaminado por lá.
Na verdade, é um projeto que se enquadra nessa expressão
muito usada de nova normalidade. Os Estados Unidos viveram algo parecido de
longe com isso, depois do atentado de 11 de setembro.
As circunstâncias agora são diferentes. O redesenho da
sociedade não se faz diante de inimigos humanos, mas ameaças biológicas que
podem nos dizimar. A etapa final do planejamento seria concluída com a
existência de uma vacina, acessível a toda a população.
Mas, no entanto, a existência de uma pandemia como essa
abriu os olhos de muita gente para a possibilidade de outras. Algumas delas
podem ser favorecidas pelo desmatamento.
Tive a oportunidade de sentir isso quando cobri a volta da
febre amarela. Aparentemente, a destruição de algumas áreas de mata acabou
expondo os trabalhadores agrícolas e algumas populações rurais.
Estamos trabalhando com algo muito sério para o futuro das
crianças. Se não houver uma transformação cultural que nos faça pensar
coletivamente e nos convença da necessidade de planos cientificamente
adequados, vamos ser uma presa fácil.
Nos anos de política, lamentava que o Brasil era um país
onde o principio de prevenção não pegou. Não esperava um governo que, além de
imprevidente, desprezasse a ciência. Tudo do que o coronavírus gosta.
Artigo publicado no jornal O Globo em 11/05/2020

Nenhum comentário:
Postar um comentário