Estão bem longe da perfeição as instituições republicanas do
Brasil. Não são poucos os exemplos de abusos ou omissões do Supremo Tribunal Federal
ou de corrupção e irresponsabilidade do Congresso. Ainda assim, se o Brasil
pretende permanecer uma democracia, é preciso lutar para aperfeiçoar e
prestigiar esses pilares, e não sugerir, como fazem os bolsonaristas, que
estaríamos melhor sem eles.
Do mesmo modo, a saúde da democracia se mede pelo vigor da
oposição. Nenhum grupo no poder que se considere democrático pode tratar a
oposição como se fosse uma ameaça existencial. No Brasil sob a Presidência de
Jair Bolsonaro, contudo, todos os que não devotam total lealdade ao governo são
vistos não como opositores, mas como inimigos que almejam destruir o País.
O bolsonarismo, como todo movimento de corte autoritário,
vive de cevar fantasmas para atemorizar a sociedade. A todo momento, vozes
muitas vezes autorizadas por Bolsonaro – quando não o presidente em pessoa –
invocam das trevas imaginárias a assombração da volta do lulopetismo ao poder.
Segundo esse discurso, quem contraria Bolsonaro – na imprensa, no Congresso e
no Judiciário – faz parte de uma grande conspiração para ressuscitar a turma de
Lula da Silva, o Belzebu do bolsonarismo.
Nada nem ninguém escapa desse julgamento sumário – até o
ex-ministro Sérgio Moro, outrora herói bolsonarista, foi chamado de “Judas”
pelo presidente Bolsonaro porque ousou contestá-lo. Se o Supremo toma decisões
que atrapalham o projeto de poder bolsonarista, como tem acontecido com
frequência ultimamente, isso significa que os ministros togados estão a serviço
do diabo, que não é vermelho à toa. Se o Congresso não vota os projetos do
governo e não aceita sem discussão todas as medidas, inclusive as esdrúxulas e
as ilegais, emanadas do Palácio do Planalto, então está claro que os políticos
continuam a ser o grande empecilho para a redenção nacional prometida por
Bolsonaro.
O bolsonarismo empenha-se em fazer o País acreditar que
poucos brasileiros hoje se abalariam em defender o Supremo e o Congresso,
especialmente quando estes se negam a atender aos desejos de Bolsonaro. Afinal,
dizem, Bolsonaro é justamente a resposta natural e necessária a um sistema
podre, que só pode ser aniquilado de vez por alguém como ele, que
deliberadamente ignora os mais básicos princípios do exercício da Presidência.
Sendo assim, quando desrespeita as instituições republicanas, Bolsonaro, segundo
os ideólogos do movimento que leva seu nome, na verdade está enfrentando
corajosamente os responsáveis pela destruição do Brasil.
Nessa mistificação que faria inveja aos fabuladores petistas
em seus bons tempos, Bolsonaro surge como o campeão da guerra para livrar o
País da corrupção e do “marxismo cultural”, cuja máxima expressão é o Foro de
São Paulo, organização de partidos esquerdistas latino-americanos que só
petistas nostálgicos e bolsonaristas paranoicos ainda levam a sério.
Para o bolsonarismo, o Foro de São Paulo e o PT de Lula da
Silva são mais perigosos para o País do que o coronavírus, tratado pelo
presidente Bolsonaro como uma “gripezinha”. Pouco importa que Lula da Silva
seja hoje praticamente um zumbi político, que só aparece no noticiário quando
sofre suas rotineiras derrotas na Justiça nos diversos processos a que responde
por corrupção.
Lula, o PT e a esquerda latino-americana são as estrelas do
bestiário bolsonarista, que o presidente brande sempre que precisa justificar
os atos injustificáveis de sua funesta Presidência. Mais de uma vez, Bolsonaro
cobrou apoio incondicional a seu governo sob o argumento de que, sem isso, “o
PT volta” ou então “o Brasil vai se transformar numa Venezuela”.
No mais recente exemplo disso, durante a vergonhosa intrusão
no Supremo Tribunal Federal protagonizada por Bolsonaro e um punhado de
sindicalistas patronais, para pressionar aquela Corte a flexibilizar as medidas
de isolamento adotadas contra a pandemia de covid-19, o ministro da Economia,
Paulo Guedes, afirmou que “a economia está começando a colapsar e não queremos
o risco de virar uma Venezuela” ou “de virar sequer a Argentina”.
Cruz-credo!

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