Não se sabe ainda o que revelarão as investigações acerca de
atos de Jair Bolsonaro, seus filhos e aliados, mas o presidente decerto as
teme. Sinal eloquente disso é a decisão temerária de entregar a sobrevivência
de seu governo a parlamentares do chamado centrão.
Se o apoio desse grupo político fisiológico custa caro para
qualquer governante, o preço se torna muito maior para Bolsonaro, que faz o
movimento em meio a uma crise de governabilidade e é refém de seu discurso
populista contra o que chama de “velha política”.
O primeiro e mais óbvio pedágio pela aliança será pago com
cargos no Executivo que controlem verbas. Experientes, deputados e senadores
que negociam votos no varejo legislativo não vendem fiado.
Com efeito, o centrão já recebeu do Palácio do Planalto
um órgão
pródigo em recursos e escândalos —o Departamento Nacional de Obras
Contra as Secas (Dnocs), que conta com R$ 1 bilhão no Orçamento deste 2020 e
foi apontado pelo Tribunal de Contas da União como uma das repartições federais
mais suscetíveis a desmandos.
A tarifa do segundo pedágio deve se mostrar ainda mais
inquietante para Bolsonaro e seus aliados. Está em jogo aqui a credibilidade do
presidente perante sua base eleitoral mais fiel, seduzida por um discurso que
associava barganhas partidárias e corrupção.
Trata-se de uma tese maniqueísta, com origens, diga-se, na
Lava Jato —cujo maior expoente, o ex-juiz Sergio Moro, acaba de deixar o
governo. Naturais em sistemas pluripartidários, coalizões são mais virtuosas
quando fundadas em entendimento programático, em vez de na mera cooptação.
Bolsonaro envereda justamente pelo pior modelo ao fazer
mesuras para figuras do centrão como os notórios Roberto Jefferson (PTB-RJ),
Valdemar Costa Neto (PL-SP) e Arthur Lira (Progressistas-AL).
Pesquisas de opinião têm mostrado que o presidente perde
sustentação entre os mais ricos e escolarizados. Ironicamente, esse desgaste
pode ser compensado pelo apoio de trabalhadores de baixa renda que começam a
receber o auxílio emergencial de R$ 600, uma iniciativa do Congresso Nacional.
A recente radicalização retórica de Bolsonaro, com ataques
mais frequentes e descabelados ao Legislativo, ao Supremo Tribunal Federal e à
imprensa, pode ser compreendida como tentativa de mobilizar o eleitor que já vê
motivos para decepcionar-se com o “mito”.
Por fim, o terceiro pedágio a pagar é o risco de
deslealdade. Se o centrão costuma ser um fornecedor confiável de votos em
ocasiões definidas, não está em sua índole salvar um governo por compromisso
político ou ideológico.
O mercado de votos pode ser volátil nas crises. Se o chefe de Estado perde sustentação nas ruas e crescem as perspectivas de recompensa com uma eventual mudança de governo, o fisiologismo muda rapidamente de lado. Assim se deu no impeachment de Dilma Rousseff (PT), apenas quatro anos atrás.

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