Há um movimento em Brasília de desqualificação do depoimento
de Sergio Moro à Polícia Federal.
Críticas vêm de advogados de enrolados com a Lava Jato, de
parlamentares que integram um Congresso pouco simpático ao ex-juiz e de
magistrados de tribunais superiores que nunca morreram de amores por ele.
Os ataques do Planalto à oitiva não contam, afinal Jair
Bolsonaro é o alvo dela. O entorno de Augusto Aras, escolhido por Bolsonaro
para chefiar a Procuradoria-Geral da República, tem diminuído nos bastidores a
importância do relato à polícia.
É fato que Moro frustrou quem esperava algo bombástico. Não
foi assim. Não houve um petardo desconcertante em Bolsonaro. Se o presidente
cometeu crime, é um problema da PGR e do STF identificá-lo. À mesa agora está
uma série de elementos políticos bem graves.
Fernando Collor sofreu impeachment em 1992 e foi absolvido
pelo Supremo. Dilma Rousseff foi retirada do Palácio do Planalto em 2016 com
base nas pedaladas fiscais, mas pouco sofreu na esfera penal.
O jogo é político, e Moro enumerou pistas. Citou o vídeo da
reunião ministerial de 22 de abril – cuja existência foi revelada pelo próprio
Bolsonaro – como suposta prova da pressão sobre a PF. E jogou três ministros
militares na fogueira: Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno.
O trio de generais vai depor à PF nesta terça-feira (12).
Suponha-se que eles falarão a verdade.
No último dia 23, horas depois de a Folha revelar o pedido
de demissão de Moro a Bolsonaro, Braga Netto disse em entrevista coletiva no
Planalto que a assessoria do então ministro “desmentiu” sua saída.
Não era verdade. Não só jamais houve desmentido oficial como
o próprio Braga Netto havia tratado do assunto com Moro pouco antes. O ministro
da Casa Civil sabia que ele pedira demissão ao presidente.
Já Ramos não pode negar os conflitos entre Moro e Bolsonaro. Na manhã do dia 24, tentou inclusive falar com ex-ministro por meio de Luiz Pontel, então secretário-executivo do Ministério da Justiça, para impedir o anúncio da demissão às 11h daquela sexta-feira. Não conseguiu.

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