BRASÍLIA – O “e daí?” que o presidente Jair Bolsonaro deu
como resposta, no início do mês, a uma pergunta sobre as mais de 5 mil mortes
causadas pelo novo coronavírus até então, teve um significado especialmente
amargo para a ex-ministra e ex-senadora Marina Silva (Rede) – ontem, foram
confirmadads 11.123 vítimas fatais da doença. Na adolescência, no Acre, ela viu
familiares e vizinhos perderem as vidas nas epidemias de sarampo e malária. Ela
descreve “um sentimento triplo de tristeza, vergonha a indignação por ter um
presidente que, em um momento como esse, é capaz de, em atitude de desrespeito
e de falta de humanidade, dizer que não tem a ver com isso porque não faz
milagre”, afirmou. Em entrevista concedida ao Estadão na semana passada, Marina
Silva afirma ver crime de responsabilidade nas atitudes do presidente. Segundo
ela, é preciso “sabedoria” para conduzir um eventual processo de afastamento do
presidente sem fragilizar a saúde pública nem o socorro a quem mais precisa.
Que lições a pandemia tem deixado para a atividade
política?
A primeira coisa que é óbvia é a proteção da vida das
pessoas. É o que temos de mais precioso, acima de projeto de poder, econômico,
de protagonismos individuais. Tudo o que possa comprometer essa frágil
estrutura de proteger as pessoas, de prevenir, atender, curar, amenizar
sofrimentos… Nada disso deve fazer parte da política. Infelizmente, a gente não
está vendo isso desse jeito. E o pior exemplo vem do próprio governo. Demite o
ministro no meio da crise, dá comando dizendo que a economia é mais importante
do que a vida, estimula o contágio, com ele próprio (Bolsonaro) saindo às ruas,
e criando crises com governadores e prefeitos. O pior exemplo vem daquele que
deveria estar agregando.
Como recebeu o “e daí?” do presidente ao ser questionado
sobre o recorde de mortes?
Um sentimento triplo de tristeza, vergonha e indignação por
ter um presidente que, em um momento como esse, é capaz de, em atitude de
desrespeito e de falta de humanidade, dizer que não tem a ver com isso porque
não faz milagre, ao som de risadas de seus apoiadores, achando aquilo uma
grande “lacração”.
Como avalia a saída de Sérgio Moro do governo?
Primeiro, acho que nem deveria ter entrado. Quando foi
cogitado o nome dele para Ministério da Justiça do governo Bolsonaro, olhando
para trajetória política, para campanha do Bolsonaro, já achei coisa muita
estranha. Mas a decisão foi dele. A saída foi só a confirmação do que eu
achava, que nunca deveria ter entrado.
Com base nas declarações de Moro, a senhora acha que
estamos diante de um caso que exige a saída do presidente?
Temos duas possibilidades diante dos crimes de
responsabilidade: seja o impeachment, pelo Congresso, seja o afastamento, pelo
Supremo Tribunal Federal. Existe crime de responsabilidade que não pode ficar
impune. Isso é claro. Temos que ter sabedoria de como conduzir o processo sem
arriscar vidas das pessoas, sem prejudicar o atendimento de saúde, sem
fragilizar o socorro para aqueles que já estão passando fome e necessidade.
A sra. vê ambiente para que um pedido de impeachment
prospere?
O que está sendo feito é uma ação em várias frentes. Tem
ação do STF, do Ministério Público, do Congresso. Para lhe botar noções de
limites: qual dessas frentes pode prosperar para interditar as ações que ele
vem tomando na contramão da defesa da vida, da defesa do patrimônio público e
da democracia? Não sabemos. Mas temos que reconhecer que tem várias frentes,
inclusive com CPI em andamento. Somos o único País do mundo que tem o governo
que em vez de agregar está esfacelando toda e qualquer forma de ação conjunta.
E faz isso de propósito, porque aposta no caos, porque sonha com o estado de
sítio, sonha com situação de descontrole social para justificar seus arroubos
autoritários.
Mas correr para apresentar um pedido de impeachment neste
momento não é exatamente incentivar uma disputa por poder?
Não. Como eu disse, são várias frentes. O Ministério Público
está disputando poder? Não. Está querendo proteger a Constituição, dizer que
existem limites institucionais para esse tipo de atitude. Tem que atuar num
tripé: defesa da vida, dos direitos à dignidade das pessoas e da democracia. Os
mecanismos da AGU foram acionados. Os do Parlamento também. E não só pela Rede,
inclusive por partidos que não são tradicionais do campo da oposição, como o
PSDB, a ex-líder do PSL (Joice Hasselmann).
A senhora está entre as pessoas que avaliam que o Brasil
vai sair melhor da crise sanitária ou no grupo dos que acham que estaremos
piores?
A pandemia mostra uma coisa importante, que é a radicalidade do fosso da desigualdade no mundo e no Brasil. Se queremos fazer uma transição para uma economia sustentável, justa, com geração de renda para as pessoas, é um investimento que precisamos fazer a partir de agora.

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