Na semana passada, os principais jornais brasileiros
publicaram importante artigo pedindo a reconstrução da política externa do
país. Assinaram o texto todos os ex-ministros de Relações Exteriores desde o
governo Sarney, um notável diplomata e um ex-secretário de Assuntos
Estratégicos da Presidência da República.
Com a cacife de quem conduziu a diplomacia nacional nos
últimos 28 anos, o grupo critica implacavelmente a destruição de nossa
autoridade além-fronteiras, levada a cabo pelo atual governo. E propõe que a
atuação do país volte a se pautar pelos princípios que desde muito cedo vertebraram
a conduta e a identidade nacional diante do mundo: autonomia frente às nações
poderosas, universalismo, multilateralismo e defesa da solução pacífica de
conflitos.
Assim como a Covid-19, mais dia, menos dia, este governo
passará —e com ele o chanceler que tão bem o espelha na mediocridade e na fúria
descerebrada contra as melhores tradições diplomáticas brasileiras. Mas as
circunstâncias sob as quais o país terá de reconquistar o respeito alheio posto
abaixo pelo obscurantismo serão provavelmente muito diversas daquelas que
favoreceram nossa ascensão internacional nas últimas décadas.
As projeções mais razoáveis sobre o estado do mundo
pós-pandemia apostam não em mudanças radicais, mas no acirramento de tendências
já presentes antes da chegada da peste. Elas parecem apontar para a erosão do
que os estudiosos denominaram a ordem internacional liberal –o conjunto de
normas, regras e organizações supranacionais de natureza econômica e política,
estabelecidas ao término da 2ª Guerra Mundial. As instituições de Bretton Woods
e as que surgiram e se multiplicaram no âmbito das Nações Unidas definem sua
arquitetura multilateral.
O definhamento do apoio dos Estados Unidos a tais
instituições, que Trump não iniciou, mas acentuou —bem como sua preferência por
ações unilaterais, além da encarniçada disputa com a China—, as enfraquecem e
deslegitimam. Basta ver a campanha xenófoba do presidente americano contra a
Organização Mundial da Saúde desde a eclosão da pandemia. Tais organismos
decerto não haverão de perecer, mas talvez ofereçam espaço menor para países
como o Brasil buscarem reconhecimento e protagonismo.
Nesse ambiente adverso, reconstruir a política externa
brasileira demandará mais do que voltar aos princípios consagrados: será
imperativo traduzi-los em novas formas de ação. Algo que nem passa pela cabeça
do patético chanceler, mas desafia todos quantos aspirem a que o país resgate o
respeito internacional perdido.
*Maria Hermínia Tavares, professora titular aposentada de ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap.

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