O presidente Bolsonaro, ao assumir, manteve uma política de
confronto incessante com seus adversários, como se todo aquele que a ele se
opusesse fosse um inimigo a ser abatido. Progressivamente, à maneira de
Tânatos, o deus da morte na mitologia grega (editorial do Estado de 25/4), ou a pulsão
de morte segundo Freud, fez a destruição reger as relações políticas. Amigos e
inimigos passaram a caracterizar suas posições, ambos constituindo uma
definição volúvel segundo as circunstâncias.
De inimigos objetivos da campanha (Lula e o PT) passou o
mandatário para os políticos em geral, para o “sistema”, para os velhos amigos
tornados inimigos, como generais do mais alto prestígio, e, enfim, as próprias
instituições democráticas, como o Supremo Tribunal e o Legislativo. O resultado
foi o isolamento presidencial, recluso em sua própria família, recorrendo, em
manifestação recente, a um suposto apoio das Forças Armadas ao seu governo.
Ora, as Forças Armadas devem obediência exclusivamente à
Constituição e à defesa nacional. Constituem uma instituição de Estado, não
estão a serviço de nenhum governo. Note-se que desde a redemocratização do
País, também por elas liderada, juntamente com os adversários de então, como o
MDB, e aliados, como o novo PFL, foram o sustentáculo deste mais longo período
de democracia no Brasil.
Se observarmos mais atentamente a composição militar do
governo, constataremos que as Forças Armadas não constituem um bloco único, há
oriundos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sendo esta última a mais
afastada do governo, enquanto o primeiro é o mais próximo, com a segunda
ocupando posição intermediária. Mais particularmente, generais do Palácio do
Planalto são militares que fizeram parte de sua “turma”. Isso significa também
que a sua “turma” não é necessariamente a de outras turmas do Exército, muito
menos da Marinha e da Aeronáutica.
Note-se que, aos olhos da sociedade, os militares são
responsáveis pelo atual governo e seus fiadores, ela não faz a distinção entre
militares da ativa e da reserva, com destaque para o Exército. Isso significa,
politicamente, que sua responsabilidade é ainda maior. Seria tentado a dizer
que, para além dos fanáticos militantes das redes sociais, eles constituem sua
única base de sustentação. Se houvesse uma mudança de posição, o presidente
Bolsonaro não teria condições de permanecer no poder.
As redes sociais são influenciadas e tuteladas pelo dito
gabinete do ódio, extensão do clã familiar, em cujas mãos parece estar o
destino do País. São da estrita confiança presidencial, participam das
decisões. A anomalia é gritante! Estamos aqui totalmente afastados do exercício
republicano do poder.
Pior ainda, o clã presidencial tem dado mostras de que manda
no governo e no Palácio do Planalto. Não apenas indica ministros, como os
controla, decide até quando devem ou não ficar. Generais que o confrontaram
foram banidos do governo, após indignos ataques nas redes sociais. Estamos numa
situação que diria patológica: os filhos do presidente atacando ou, mesmo,
mandando em generais! Os descontentes que se retirem voluntariamente ou serão
obrigados a sair.
Atualmente, o País enfrenta uma crise epidêmica, uma crise econômica
e uma crise política. A primeira, potencializada pela conduta presidencial,
dando exemplo do que não deveria ser feito, em desprezo pelo bom senso e pela
ciência. Governadores atuam responsavelmente no sem-rumo da liderança
presidencial. A situação da economia já não era boa antes da epidemia, com as
reformas avançando muito lentamente, pela ausência de diálogo com o
Legislativo. E, agora, a crise política, conduzida “exemplarmente” pelo
presidente e seu clã! Em apenas duas semanas dois ministros foram
“renunciados”, Mandetta, por fazer um trabalho muito bom no combate ao
coronavírus, seguindo diretrizes científicas e da OMS; e Moro, por não
concordar com as ingerências presidenciais na Polícia Federal. Muita luz ofusca
o presidente.
Ainda mais isolado, o presidente redobra a aposta no ataque:
o Supremo torna-se o novo inimigo, após as contundentes acusações do
ex-ministro da Justiça, símbolo da Lava Jato e da luta contra a corrupção. Ele
recorre a alguns políticos do Centrão, os mesmos que ontem atacava como
representantes do “toma lá dá cá”, na tentativa de evitar o impeachment.
Destrói, assim, a sua própria narrativa!
A situação é crítica. Uma alternativa seria o presidente
“converter-se”, isto é, afastar o seu clã dos assuntos governamentais, destituir
ministros ideológicos, combater o coronavírus ao lado da ciência, usar o
diálogo e a moderação. Outra, os militares mais diretamente engajados retirarem
o seu apoio, com as Forças Armadas deixando claro que não pactuam com a
polarização atual. Exerceriam a responsabilidade que lhes cabe, dada a sua
participação. Ou o impeachment como solução última.
A pior saída seria nada acontecer: um governo incapaz de
seguir com o seu programa de reformas e o presidente, um “pato manco”, no meio
da algazarra de seus filhos.
*PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFGRS.

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