Como um Ranger no Vietnã, sem estratégia, subestimando
adversário e adepto do comando sem controle, o presidente não liga para a
relação entre aceleração e derrapagem. No jogo das cartas ocultas se sente o
controlador que opera com inteligência falsa para ativar análises estapafúrdias
sobre ele: importante não é o que faço, é como os outros reagem ao que
faço.
O coronavírus desmilitarizou o patriotismo e fez da área da
saúde o lugar onde a Pátria observa seus heróis. O soldado, sem capacidade
crítica, levou para o lado pessoal e afogou o médico no rio do ciúme eleitoral.
Para chegar à outra margem sem processar a frustração de não mandar, xingou o
juiz, ameaçando seu reino por um cavalo de Troia na PF-RJ – onde condomínio,
porto, milhões e facções, mais hackers familiares, formam os nós da rede que o
atormenta.
Cada reação de um Poder contra o outro o ajuda a compor o
rosto Frankenstein da democracia como a concebe. Não é nada sofisticado, nem
exige força bruta aparente. O que observa é a água que ferve, não o fogo que a
estimula. E vê a umidade infiltrar-se na casa velha do presidencialismo como um
teste para calibrar o grau de imunidade à lei que precisa alcançar. Dança na
chuva: não é dilúvio, também não é garoa.
A tática que adota é crua e combina autoconfiança e afronta.
Já tossiu na frente de apoiadores, agride jornalistas com frequência, berrou
impropérios em frente ao Quartel-General, entrou no Supremo sem bater na porta,
passa na conversa terno, farda, paisano. Testou a frieza do coração sem luto propondo
disfarçar a morte em churrasco funerário. Cancelou, trocou por pedalinho. O
ritual perverso transcendia a necessidade de comer o outro.
Procura, obstinadamente, compartilhar o estopim: como é
inútil para o mau agir se não puder confiar nos bons.
O presidente é o mais ostensivo usuário dos defeitos do
presidencialismo no período democrático. Seu governo, um círculo de giz sobre a
cabeça da Nação, é uma equação ainda obscura para a maioria: só é possível
alguém agir assim em regime não sério assim. Ele finge querer mudar o padrão
que a cada governo acrescenta uma doença. Conhece a lógica da coisa: conduz
todos para a cozinha e os submete ao tempero do poder. Busca convencer os
comensais a não ler o cardápio constitucional.
Como todos estão vendo, ele está desatarraxando devagar o
parafuso da porca dos costumes como antidemocrata tarimbado, calculadamente. A
Justiça, que alimenta os seus com suas férias de três meses, nada sabe dos
males que a ferrugem dos privilégios na engrenagem dos tribunais provoca. Juiz
de televisão costuma ser raso em equidade e temperança, usa mal a chave de
fenda que aperta a porca do parafuso do arbítrio. Para se precaver a Câmara,
ajuizada, deixa o Supremo escrever o roteiro do enredo.
O estilo ultrarrealista que pratica tem uma fermentação que
apodrece o ambiente a que se dirige. Em especial quando acaba destampando o
código secreto por trás das coisas em que mete o nariz. Realmente, “amor à
primeira vista” parece ser um código. Porque não tem preço a sensação de
receber do STJ a aprazível sentença de que presidente da República é simples e
do povo e não deve satisfação sobre sua vida. Um Meu Pé de Laranja Lima
judicial é o melhor laissez-passer para quem quer mobilidade para agir sem ser
incomodado.
Aparentemente, não há padrão. Mas para analisar as reações
que provoca ele indica o alvo e personifica o ataque. Entender o porquê da
escolha desses alvos não é a linha da análise mais correta. Os alvos –
imprensa, Congresso, Forças Armadas, Supremo, empresários, governadores, oposição,
economia, coronavírus – dizem menos sobre ele do que sobre as coisas e as
reações que provoca quando ataca, elogia, insinua, recua, desconversa.
Ele quer ter o controle da resposta no mesmo lugar ou
situação onde acha que pode ser paralisado. O déficit de moralidade que procura
nas instituições é necessário ao seu controle. Ele sente que precisa de mais
acesso aos detentores de cargo público, um grupo específico que conhece bem e
tende à incoerência a cada eleição.
Está atrás de fragmentos naqueles lugares da capital que
fedem à dissidência política onde são costurados os pecados e que poderiam
compor o padrão dos usuários do Estado, essencial para montar seu
quebra-cabeças. Precisa agir rápido para que o oportunismo veja mais vantagens
em aderir a ele do que ser engolfado pelas vantagens que a distorções da
democracia presidencialista oferecem.
O presidencialismo é um prédio condenado, pichado, onde cada
um que entra nele se instala em seu andar lixando-se para a opinião pública. É
desse imóvel reformado, que vem desabando pouco a pouco, que o País é dirigido
há mais de 30 anos. Foi ali que o humano-inesperado esbarrou no muro do
coronavírus e encontrou como síndico do espigão um presidente ambicioso que
roda como biruta.
Um presidente ardendo em fogo morto, misturado nas cinzas do
arcaico presidencialismo brasileiro, como se fosse um coronel dos velhos
engenhos de cana queimando seu poder no bagaço das perfídias em extinção.
SOCIÓLOGO. E-MAIL: CONTATO@PAULODELGADO.COM.BR

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