Basta um dia. Um dia é o suficiente para saber que o presidente
Jair Bolsonaro é incapaz de gerir a crise dramática que o país vive. De manhã,
ele vociferou contra os governadores, logo ao sair do Palácio. Depois, numa
teleconferência, aos brados, convocou os empresários a atacarem o governador de
São Paulo por manter o isolamento social. “É guerra”, ele diz. Acusou o
presidente da Câmara de querer “afundar a economia para ferrar o governo”. O
ministro da Economia, Paulo Guedes, reforçou o chefe e pediu que os
empresários, “financiadores de campanha dos políticos”, os pressionem. Por fim,
baixou uma estranha Medida Provisória que isenta de culpa os agentes públicos
nesta pandemia.
– Vai morrer? Lamento, lamento. Mas vai morrer muito, mas
muito mais se a economia continuar sendo destroçada por essas medidas (dos governadores)
– disse ele logo de manhã.
O lamento dele não tem lamento. Não fala a palavra como quem
a sente, o tom é aquele de sempre, voz alterada, como um capitão corrigindo
recrutas. Sinceramente é difícil entender – psicólogos devem ser capazes de
diagnosticar – uma fala assim sempre colérica. Não há um momento em que o
presidente Jair Bolsonaro tenha um tom natural. Ele sempre lança as palavras
como quem está atacando o interlocutor:
– O Brasil está quebrando. Vamos ser fadados a ser um país
de miseráveis, como tem países da África subsaariana, temos que ter coragem de
enfrentar o vírus – disse ainda na fala da manhã, em que avisou aos repórteres
que só falaria se houvesse perguntas pertinentes.
E enfrentar o vírus para ele é o quê? É decretar a abertura
de tudo, o funcionamento de tudo, mesmo que isso signifique o aumento
exponencial do número de mortos e infectados. Certa vez ele disse, num desses
brados matinais, que era preciso enfrentar o vírus como “um homem”:
– Um apelo que faço aos governadores, revejam essas
políticas, eu estou disposto a conversar. Vamos preservar vidas? Vamos, mas,
desta forma, o preço lá na frente será de centenas de mais vidas que vamos
perder com essas medidas absurdas.
Era falso que ele estivesse disposto a conversar. Logo depois
estava fazendo um violento ataque ao governador João Dória. Reunido em
teleconferência com 500 empresários, Bolsonaro disse que eles tinham que
pressionar governadores, como Dória. Segundo a sua delirante versão, os
governadores estão “tentando quebrar a economia, para atingir o governo”.
– Os senhores, com todo o respeito, têm que chamar o
governador e jogar pesado, jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra –
disse Bolsonaro aos empresários.
Voltou a criticar o Supremo por ter decidido que os estados
podem decidir as medidas de proteção que acham mais adequadas:
– O supremo decidiu que cada governador é dono do seu
estado.
O ministro da Economia mimou o chefe. Disse que invadiram
suas prerrogativas, mas ele aceitou. E depois fez aos empresários um pedido.
Dado que eles são financiadores de campanha, que pressionassem os parlamentares
para forçar o apoio ao governo.
– Os senhores têm acesso ao presidente da Câmara e ao
presidente do Senado. Trabalhem esse acesso para nos apoiar – disse Guedes.
Não houve propostas para o enfrentamento da crise, nem
disposição para ouvir todos aqueles empresários que representam setores
diferentes. Não houve na reunião nada que lembrasse, nem de longe, o
comportamento adequado de um presidente no meio de uma crise.
Ao contrário, ele buscou o conflito. Como sempre. Acusou o
presidente da Câmara, sem pronunciar o nome de Rodrigo Maia, por estar querendo
“afundar a economia para ferrar o governo”.
Horas depois, ele abraçou Rodrigo Maia, recusando o cotovelo
oferecido pelo deputado nos corredores do Palácio. O jogo de cena foi feito
para ser filmado e divulgado. Maia contracenou porque quis. Assim, Bolsonaro
pareceria um homem de diálogo, afinal, amanheceu falando que estava disposto a
receber governadores e terminou abraçando Rodrigo Maia. No meio do caminho
disparou artilharia em todos eles.
Na transmissão que faz às quintas-feiras, voltou com a mesma ideia fixa, de que tudo tem que voltar a funcionar. O presidente dedicou seu dia a confrontar governadores, o presidente da Câmara, e tentar fazer um conluio com os empresários para entrarem em sua guerra federativa. Nesse dia, morreram 844 brasileiros de Covid-19.

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