À medida que os fatos políticos vão ocorrendo sem que as
barreiras institucionais sejam eficazes para conter o ímpeto corrosivo do
presidente Bolsonaro, preocupa que militares antes considerados capazes de
incutir bom-senso ao governo estejam avalizando uma visão paranóica da situação
política.
O General Vilas Boas, ex-comandante do Exército e figura
icônica entre seus pares, encontrou palavras para elogiar a entrevista à CNN da
ainda secretária de cultura Regina Duarte onde ela, em vez da “sensibilidade” que
o general vislumbrou, demonstrou uma absurda indiferença diante das mortes pela
Covid-19, das torturas e mortes na ditadura militar.
A mesma insensibilidade que o presidente Bolsonaro
explicitou ao ir de supetão ao Supremo Tribunal Federal (STF) pressionar pelo
fim da quarentena, num momento em que o país claramente entra na fase aguda da
pandemia e tem o número de mortes diário aumentando dramaticamente.
A presença de seus ministros de origem militar na comitiva
mórbida indica que eles pensam igual a Bolsonaro, ou se submeteram a seu
desprezo pelo sofrimento alheio, numa visão utilitarista da vida em sociedade.
Ainda ontem, quando novo salto levou os óbitos à casa dos
700 diários, caminhando para a trágica marca de 10 mil mortes devido à
Covid-19, Bolsonaro fez troça sobre uma churrascada que pretende realizar hoje
no Palácio da Alvorada.
O estilo provocador do presidente já é conhecido de todos.
Ele pretende constranger aqueles que lhe impõem limites, mesmo instituições
como o Supremo, que tem o papel de indicar ao presidente quando ele saiu do que
a Constituição determina.
Foi assim que assessores como o General Augusto Heleno, do
Gabinete de Segurança Institucional (GSI) ou o chefe do Gabinete Civil General
Braga Neto, ou o Chefe da Secretaria de Governo, General Luiz Eduardo Ramos,
transformaram-se em meros cumpridores de ordens, perdendo a qualidade de
formadores de políticas governamentais.
Os três estão arrolados como testemunhas no inquérito do
Supremo sobre a tentativa de interferência política de Bolsonaro na Polícia
Federal, e em conjunto sentiram-se afrontados pelos termos usados pelo ministro
Celso de Mello ao convoca-los.
O que é uma formalidade burocrática, afirmar que os que não
comparecerem na data marcada terão que fazê-lo “coercitivamente, ou debaixo de
vara”, foi considerado uma afronta aos militares, que se consideram acima de
qualquer suspeita.
O mesmo tratamento foi dado aos deputados que estão
convocados e demais servidores públicos, sem que os termos fossem contestados.
Esse sentimento de estar acima dos procedimentos normais em casos como esse
desbordou em uma nota oficial do Clube Militar, que acusa o ministro decano do
Supremo de ter ódio do governo federal, e considera “falta de habilidade,
educação, compostura e bom-senso” o tratamento recebido pelos militares.
Esse sentimento alimenta as convocações para manifestações
este fim de semana, contra o Supremo e o Congresso, e a favor da intervenção
militar. Essa é uma demonstração de que os militares não deveriam participar da
vida política do país, pois vestem ternos civis, mas se consideram uma casta
diferenciada.
O recente balão de ensaio, que não prosperou diante da
reação negativa, de colocar o General Luiz Eduardo Ramos no comando do Exército
em lugar do General Edson Leal Pujol, faz parte dessa paranóia de Bolsonaro de
só ter em seu entorno pessoas que digam amém sem contestar.
O General Pujol tem uma postura mais contida na relação com a política, e teria irritado o presidente ao dar o cotovelo para cumprimentá-lo em uma solenidade, deixando-o com a mão no ar. Uma demonstração de que segue as normas internacionais e nacionais de afastamento social, interpretada por Bolsonaro como uma atitude afrontosa. O que denota um governo deteriorado por uma visão autoritária do poder.

Nenhum comentário:
Postar um comentário