Uma tragédia de dimensões pandêmicas começa a afetar não
apenas a imagem internacional do Brasil como a própria economia, as
perspectivas de retomada e mesmo as chances de sobrevivência do parque
produtivo nacional — e isso tem a ver com a vida de todos nós que buscamos uma
saída em meio à rigorosa crise da Covid-19. O País exibiu, para assombro do
mundo, um recorde consecutivo e implacável na área ambiental que diz muito do
desprezo
com o qual o atual governo vem tratando o assunto. O desmatamento na região da
Amazônia cresce, inapelavelmente, há 14 meses seguidos, exibindo índices
devastadores, capazes de cobrir uma área equivalente a soma dos estados de
Alagoas e Paraíba de uma só sentada. Jamais se viu algo parecido. E o período
dos 14 meses de avanço da prática criminosa corresponde justamente ao hiato de
gestão do mandatário Bolsonaro, desde a sua posse até aqui. É insano e
improdutivo imaginar as razões que levam o chefe da Nação a permitir tamanha
afronta a fauna e flora em tempos de escassez global de florestas e de seus
biomas. Estaria Bolsonaro, na vocação natural à polêmica, buscando provocar o
planeta?
Obra do acaso não foi. Ao contrário. Debite muito mais na
conta do descaso esse pendor antiambientalista. Como resposta às estatísticas,
Messias recorreu à saída covarde de sempre: mandou demitir a coordenadora-geral
do INPE, Lubia Vinhas, na tática do “não gostou da mensagem, demita o
mensageiro”. Já havia feito o mesmo, logo no início de gestão, com outro
comandante do organismo, Ricardo Galvão, pelo mesmo motivo: não aceitou os
números divulgados e, claro, ao invés de ensejar esforços para reduzir o problema,
tirou da frente o técnico que fornecia as más novas. Típico de administrações
totalitárias. Bolsonaro está pouco se importando com as invasões de terras,
conflitos e ataques de mineradores em áreas de delimitação indígena, queimadas
ou desmatamentos ilegais. Não atentou um minuto sequer para o prejuízo dessa
escalada. Mas os empresários, sim e estão caindo em cima do vice-presidente
Hamilton Mourão, a quem coube conduzir a pendenga sem muitos instrumentos para
tal. Ceos de 38 das maiores corporações brasileiras e estrangeiras, de quatro
entidades setoriais do agronegócio, do mercado financeiro e da indústria
subscreveram um documento no qual pedem providências urgentes contra a
catástrofe. É a primeira vez no governo Bolsonaro que líderes empresariais reclamam
coletivamente da questão.
Doeu no bolso e a mobilização se fez inadiável. A mensagem
do grupo diz com todas as letras que a percepção do consumidor estrangeiro
sobre os produtos brasileiros é hoje a pior possível, devido, justamente, a
essas práticas que vão de encontro à pregação generalizada pela preservação. E,
de fato, não apenas compradores de todos os continentes como os próprios fundos
estrangeiros, que gerenciam perto de US$ 4,1 trilhões, resolveram dar um basta
às atrocidades ambientais verificadas atualmente na Amazônia. Os investidores
exigem resultado prático e
comprometimento explícito com o combate à devastação do pulmão planetário.
Deixaram clara a ameaça de que vão retaliar com a suspensão de recursos para o
Brasil caso não enxerguem mudanças nesse sentido. Na Europa, por exemplo,
campanhas pedindo o boicote a alimentos produzidos em áreas desmatadas por aqui
viraram uma constante.
Uma delas fala em não adquirir “carnes frescas de matadouros
do Brasil”. Para fazer frente a essa resistência e desmoralização
transnacional, o Ministério da Agricultura bolou uma série de vídeos para
abrandar a imagem do agronegócio e afastá-lo da chaga do desmatamento. Em
inglês, um deles, localizando no mapa a origem do suco de laranja, do açúcar,
da carne, da soja e do café brasileiros, diz: “Produzidos em harmonia com as
florestas” e conclui com o mantra do “alimentando o mundo, respeitando o
planeta”. Como peça de marketing pode fazer algum efeito, mas sem os resultados
práticos e concretos nos índices aguardados de redução da calamidade ambiental,
nada feito. O Planalto, por exemplo, parece girar numa outra rotação. O vice
Mourão eximiu o governo de responsabilidade no desmate. Foi além: pediu
financiamento dos críticos para conter o avanço. Quer US$ 4 bilhões em recursos
para ações ambientais no País, via instrumentos financeiros de captação a serem
criados. Mourão ainda fala em índio “mais integrado”, o que contraria por
completo a ideia de preservação também das povoações indígenas. Em nova
articulação, ex-ministros da Fazenda brasileiros e ex-presidentes do Banco
Central também partiram à reclamação.
Alertaram para os custos monumentais do descuido de “eventos climáticos”. Pediram critérios de redução de emissões e do estoque de gases de efeito estufa na atmosfera e uma revisão na gestão política da questão. Por enquanto, especialmente o presidente Bolsonaro tem ignorado a necessidade de alguma resposta. Mourão fala em estender ações na Amazônia até 2022. Tem muito de jogo de cena e pouco de medidas efetivas a caminho. E nessa toada, como bem lembrou o ex-presidente do Banco Central e do BNDES, Pérsio Arida, o Brasil já virou “pária do investimento internacional”. O preço a pagar pelo descaso será alto.
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