Notícias falsas, injúrias, teorias da conspiração, quase
todas as semanas, sobem ao topo da pauta política no Brasil.
Nas redes, muito se falou do ataque a Felipe Neto, depois de
sua aparição no “New York Times” criticando o governo Bolsonaro. A velha
acusação aos comunistas, comem criancinhas, ganhou uma versão atualizada contra
Felipe.
No campo editorial, tive a oportunidade de ler “A máquina do
ódio”, um livro de Patrícia Campos Mello sobre fake news e violência digital no
mundo. Ela conta, entre outros casos, a carga injuriosa que sofreu quando
denunciou manipulação digital nas eleições de 2018.
Nem sempre foi assim no Brasil. Nesses tristes momentos de
tecnopopulismo, costumo dar uma olhada na bela coletânea intitulada “Duelos no
serpentário”, coligida por Alexei Bueno e George Ermakoff.
Trata-se de uma antologia de polêmicas intelectuais no
Brasil, de 1850 a 1950. Havia alguma ironia, insultos aqui e ali, mas eles
passavam dias, noites, escrevendo suas teses, sob a luz de lamparinas. O
problema era convencer com ideias.
A polêmica gramatical entre Rui Barbosa e Carneiro Ribeiro
sobre o texto do Código Civil, se impressa no conjunto, daria um livro de mil
páginas, capaz de entediar gerações inteiras de estudantes. Houve polêmicas
para definir se o cinema falado era melhor que o cinema mudo. Vinicius de
Moraes participou dela.
Em relação a esse período da história, talvez tenhamos
regredido às medievais canções de maldizer e escárnio. Ou, mais que isso,
entramos num campo que só o estudo da injúria pode abarcar.
Jorge Luis Borges escreveu a bela “História universal da
infâmia”. Nas suas obras completas é possível encontrar também algumas notas
sobre a injúria, uma categoria específica de agressão.
É um texto curto, intitulado “Arte da injúria”. Segundo
Borges, o agressor deverá saber, conforme advertem os policiais da Scotland
Yard, que qualquer palavra que diga pode ser voltada contra ele.
O sonho dele, portanto, é ser invulnerável. Isso foi escrito
na década dos 30, muito antes da internet, que trouxe o conforto do anonimato.
O roteiro da injúria em Borges passa pelas ruas de Buenos
Aires. O agressor sempre adivinha a profissão da mãe dos outros e quer que
mudem para um certo lugar que pode ter diferentes nomes. Em português, é possível
conciliar os dois tipos de injúria enviando a pessoa para um lugar que, em
linguagem amenizada, é a ponte que partiu.
Ao longo de sua análise, Borges descobre que, nas “Mil e uma
noites”, célebre texto árabe, há um xingamento que se tornou popular: cão.
E chega aos que parecem mais sofisticados e certeiros como
este: “Sua esposa, cavalheiro, sob o pretexto de trabalhar num prostíbulo,
vende artigos de contrabando”.
Borges destaca também a injúria mais esplêndida feita por
alguém que não tinha contato com a literatura. Ele descreve um homem chamado
Santos Chocano, dessa maneira: “Os deuses não consentiram que Santos Chocano
desonrasse o patíbulo, nele morrendo. Aí está vivo, depois de ter fatigado a
infâmia”. O personagem me lembra um pouco velhos políticos que ganham uma
espécie de pele de elefante depois de tantas pancadas pela vida afora. Cansam
até o xingamento.
Mas os insultos contra as pessoas que têm outra atividade
costumam ser devastadores para suas relações familiares, de amizade e a própria
autoestima. Sou solidário com elas e desejaria ver algo na lei que acabasse com
a invulnerabilidade do agressor.
Pessoalmente, não guardo ressentimentos, sobretudo agora
nessa idade. Não me ameaçam de morte, simplesmente afirmam que já morri e não
me dei conta. Decretaram minha morte em algum momento do passado e reclamam por
não ter levado a sentença a sério.
A idade também protege um pouco contra a repetição do mantra
“viado e maconheiro”. A maconha restou com alguma vitalidade. Sempre que
escrevo algo que lhes desagrada ou parece estapafúrdio, dizem que fumei maconha
estragada.
Ainda bem que sou de paz. Poderia acusá-los de apologia às
drogas. Se as ideias estapafúrdias e equivocadas são fruto de maconha
estragada, isso significa que a de boa qualidade traz limpidez e justiça ao
pensamento.
Não se discute mais como antigamente. E eles estão com um
enorme estoque de cloroquina para se preocupar com outra droga.
Artigo publicado no jornal O Globo em 03/08/2020

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