Salvar a própria família e blindar aliados foi só um
capítulo da história. Depois de interferir em órgãos de investigação para
evitar problemas para seu grupo, o governo Jair Bolsonaro avançou sobre a
estrutura oficial de inteligência do país em busca de benefícios políticos.
Com desembaraço, o presidente e seus auxiliares parecem
dispostos a explorar esse aparato de informações para servir aos interesses
específicos do Palácio do Planalto. Nas últimas semanas, o governo usou essas
ferramentas para monitorar adversários e ampliar os poderes de vigilância
desses órgãos.
O dossiê sigiloso sobre integrantes de organizações críticas
a Bolsonaro, elaborado dentro do Ministério da Justiça, é uma amostra grátis
desse trabalho. Em junho, o governo decidiu listar servidores da área de
segurança que eram identificados como participantes de um “movimento antifascista”
e enviou seus nomes para órgãos de investigação, como revelou o repórter Rubens
Valente.
Ninguém quis explicar por que a estrutura estatal foi
utilizada para produzir algo que pode ser classificado como um catálogo de
perseguição. O ministro André Mendonça tentou se esquivar da responsabilidade.
Se ele não sabia da confecção do documento, perdeu as condições de permanecer
no posto. Se sabia, deve responder fora do cargo.
Bolsonaro demonstra apetite por um aparelho de informações
que funcione a seu favor. Na semana passada, ele editou um decreto que mudou a
estrutura da Abin e criou um Centro de Inteligência Nacional para executar
ações “voltadas ao enfrentamento de ameaças à segurança e à estabilidade do
Estado e da sociedade”. A descrição é vaga o suficiente para dar superpoderes
ao órgão.
Na famosa reunião ministerial de 22 de abril, Bolsonaro
reclamou do aparato de informações do governo depois de citar “pessoas aqui de
Brasília” que se reuniam “de madrugada, pra lá, pra cá”. Ele disse contar com
um sistema próprio: “O meu particular funciona”. Aos poucos, a estrutura
oficial pode se tornar particular.

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