“Fim ‘do’ Lava Jato! Fim ‘do’ Lava Jato!”. Com uma pandemia
que já matou mais de 95 mil brasileiros ainda no auge, empregos minguando e
economia à deriva, foi esse o coro com que Jair Bolsonaro, eleito, entre outros
fatores, de carona no lavajatismo, foi recebido no interior do Piauí, escoltado
justamente por um réu na Lava Jato, o senador e presidente do PP, Ciro
Nogueira.
A nova onda de críticas, reações e ofensivas contra a mais
notória força-tarefa de combate à corrupção já montada no Brasil une o
presidente, o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Antonio Dias
Toffoli, e o procurador-geral da República, Augusto Aras.
Bolsonaro iniciou seu divórcio do lavajatismo com a saída de
Sérgio Moro do governo. O deputado que nunca deu a mínima para combater a
corrupção, enfiou a família toda na política, enriqueceu graças a ela, praticou
toda sorte de petecagem miúda e já esteve em todos os partidos fisiológicos do
abecedário, de repente virou o “capitão” que ia banir os malfeitores. Um enredo
pobre e falso como uma nota de R$ 200 com a estampa da ema do Alvorada, mas
muita gente embarcou na fantasia.
Com Moro fora do barco, o lavajatismo virou criptonita capaz
de enfraquecer o “Mito” e criar um adversário poderoso. De quebra, a saída de
Moro coincidiu com a chegada dos novos amigos de infância do Capitão, aquelas
figuras mais carimbadas do antes demonizado Centrão, o seguro anti-impeachment
tão sonhado. Réus, condenados, ex-presos, cabe todo mundo no barco.
O coro que recepcionou Bolsonaro não tinha nada de
espontâneo. Para ajudar o governo, réus como Nogueira deixam claro que aguardam
um acordão “com o Supremo, com tudo” para que as ações que lá tramitam
dormitem, se possível para sempre.
Um Bolsonaro sem os arroubos de outrora contra o STF ajuda.
Basta ver que o presidente não deu um “pio” de solidariedade aos fanáticos
banidos das redes sociais por ordem de Alexandre de Moraes. Os novos amigos do
Centrão ocupam aos poucos o lugar vago do olavismo tresloucado à mesa do
bolsonarismo. Até Carluxo anda quietinho, quietinho.
Aí temos o plantão de Toffoli no recesso do STF. Num ímpeto
produtivo, o presidente respondeu sozinho pelo plantão, contrariando a prática
de dividi-lo com o vice (o lavajatista Luiz Fux). E que produtividade! Em
quatro semanas, ele mandou a Lava Jato compartilhar informações com Augusto
Aras, suspendeu buscas e duas investigações contra o senador tucano José Serra,
arquivou três inquéritos contra ministros do STJ e do TCU abertos a partir da
delação de Sérgio Cabral, suspendeu depoimento de Aécio Neves e dissolveu a
comissão do impeachment de Wilson Witzel no Rio. Ufa!
Outro bastante ativo no recesso, e pra lá de destemperado,
foi Aras, que se lançou na cruzada contra a Lava Jato e ainda assumiu ares de
ditador no Ministério Público Federal, investindo com grosserias contra colegas
na reunião do Conselho Superior do MPF.
É certo que o combate à corrupção tem de se dar dentro de
balizas e marcos de legalidade e institucionalidade, e que operações como a
Lava Jato muitas vezes se arvoraram poderes acima desses limites, e têm de ser
controladas e fiscalizadas.
Outra coisa bem diferente, porém, é um ataque orquestrado
para fazer letra morta de tudo que se avançou na revelação de crimes e para
mitigar o poder de órgãos independentes como o Ministério Público.
Esse tipo de iniciativa combinada mostra que o figurino do
arauto do combate à roubalheira foi só uma das muitas lorotas que Bolsonaro
enfiou goela abaixo dos eleitores. Assim como mostra dia a dia não ser um
liberal, não ter compromisso com a democracia nem a menor condição de governar o
Brasil, também essa fantasia do capitão decente foi rasgada, saiu de moda.

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