Quase um ano após a turbulenta renúncia de Evo Morales, sob
suspeitas de ter manipulado as eleições de 2019, o povo boliviano elegeu no
primeiro turno o candidato de seu partido, Movimento ao Socialismo (MAS), Luis
Arce. Considerando as tensões desencadeadas pelos desmandos do regime de
Morales e do governo que lhe sucedeu, a relativa tranquilidade da transição foi
surpreendente, em se tratando da tumultuada democracia boliviana.
Morales – com Arce no comando da economia durante quase
todos os 14 anos em que esteve no poder – aproveitou habilmente o boom das
commodities: o país aumentou seu PIB de US$ 9,5 bilhões para US$ 40,8 bilhões e
reduziu a pobreza de 60% para 37%.
Mas os ganhos não vieram sem custos para as instituições
democráticas. Solapando, com a anuência de seus sabujos no Tribunal
Constitucional, um referendo que lhe negou o direito a um quarto mandato,
Morales concorreu em 2019. Ante suspeitas de fraude endossadas pela Organização
dos Estados Americanos, uma série de protestos violentos eclodiu nas ruas, e
Morales, pressionado pelas Forças Armadas, renunciou, refugiando-se no México e
depois na Argentina.
A senadora direitista Jeanine Áñez assumiu a presidência
interina garantindo que seu único objetivo era preparar eleições limpas, mas se
aproveitou do poder para acossar seus rivais e viabilizar sua própria
candidatura, que acabou abortada com a gestão desastrada da crise pandêmica.
A corrida eleitoral foi marcada pela polarização entre o MAS
e seus opositores de direita dispersos entre oito candidaturas. O principal
adversário de Arce foi o ex-presidente de centro-direita Carlos Mesa, que
inclusive parecia levar vantagem num eventual segundo turno. Boatos e acusações
correram soltos, levando a temer o pior.
Mas tão logo as urnas foram abertas, apontando a vitória de
Arce, as autoridades serenaram rapidamente os ânimos. Áñez reconheceu a vitória
na própria noite da eleição e, com uma ou outra exceção, como a do candidato
reacionário Luis Camacho, os adversários também referendaram o pleito.
Tudo indica que o MAS, por sua vez, renunciou a uma atitude
revanchista, prometendo uma gestão conciliadora. O próprio Arce representa a
ala mais pragmática do partido. O porta-voz do MAS, Sebastián Michel, declarou
que o estilo do novo governo será outro, mais aberto ao diálogo com a oposição.
Ele, assim como a presidente do Senado, Eva Copa, afirmam que o partido
pretende retificar os erros do passado e que não é hora de falar em um retorno
de Morales.
Há esperanças bem fundadas de renovação. O fato de que os
radicais de direita foram desmoralizados nas urnas é alvissareiro e há
elementos para uma agenda comum entre o governo e a centro-direita, como o
combate ao narcotráfico ou o emprego das reservas de lítio. Arce não deve ter o
mesmo domínio sobre o Congresso que tinha Morales. Se isso pode levar a um
impasse, também é uma oportunidade para robustecer as negociações políticas.
A habilidade do governo e da oposição de construir consensos
será indispensável para afastar o espectro do caudilhismo. Morales está
enfraquecido, entre outras coisas por acusações de estupro e financiamento de
terrorismo, mas ainda conta com o apoio da ala radical do MAS e de setores da
população favorecidos por seu populismo. Essas forças podem ser inflamadas caso
a recuperação econômica não seja bem arquitetada. O déficit fiscal foi agravado
com a pandemia e, diferentemente de quando ascendeu ao poder em meados dos anos
2000, o partido não contará com o boom das commodities e
precisará forçosamente cortar gastos.
O novo presidente tem o perfil e as condições técnicas para
conduzir esta retomada, mas precisará concertar as condições políticas. Ao
elegê-lo, o povo boliviano fez uma opção pelo pragmatismo do regime de Morales
– ao mesmo tempo que os votos à direita consolidam uma aversão ao seu
bolivarianismo. Caberá a Arce moderar o radicalismo de seus partidários e
atrair o apoio dos moderados na oposição. De todo modo, a democracia boliviana
parece ter saído revigorada das eleições.

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