O Brasil já teve uma revolta da vacina: foi em 1904, contra
o presidente Rodrigues Alves (1902-1906) e o cientista Osvaldo Cruz, que
combatiam a varíola, cujo vírus se espalhara pelo Rio de Janeiro, Capital de
então. Um século depois, a humanidade foi à duas guerras mundiais, inventou a
penicilina, chegou à lua e a alguns planetas; fez a Internet e pariu as redes
sociais… E das redes surgiu Jair Bolsonaro que, num retorno ao princípio, faz
sua revolta (particular) da vacina.
O discurso é contraditório, fruto de ideologismos e cálculo
eleitoral. Não acredita na ciência, mas quer controlar a Anvisa com o argumento
da segurança científica; seu libertarismo é contra a obrigatoriedade da vacina,
mas a favor da criminalização do cultivo de maconha, por exemplo. É contra a
união de pessoas do mesmo sexo e, se pudesse, o país teria religião oficial. A
regressão é maior que um século.
Na cruzada a que se entrega, há evidente componente
eleitoral. Não quer reconhecer valor em desafetos, como a ciência, a China, o
governador João Doria. Não disfarça o receio de que a saída da pandemia venha
logo dos chineses e, sobretudo, por São Paulo. É a corrida de 2022, que ele
mesmo antecipou. Não tarda, a população perceberá o porquê de seu medo de
vacina: qualquer que seja sua origem, ela recolocará a humanidade no século
XXI.
Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Nenhum comentário:
Postar um comentário