quinta-feira, 19 de outubro de 2023

CENÁRIO EXTERNO PODE MUDAR RITMO DE QUEDA DOS JUROS

Editorial Valor Econômico

Se nada de pior acontecer, o dólar pode se acomodar na casa dos R$ 5 e inflação e juros seguirão em queda

A instabilidade no cenário externo - primeiro com as altas sucessivas dos títulos de longo prazo nos Estados Unidos e, depois, com a guerra após os atentados terroristas do Hamas contra Israel, que impulsiona a alta das cotações do petróleo - mexeu com as taxas de juros domésticas, que exibem tendência de alta. Esse ambiente criou dúvida sobre a conveniência de o Banco Central manter o ritmo de cortes da Selic em 0,5 ponto percentual. O cenário doméstico, no entanto, é favorável a mais cortes da mesma magnitude no curto prazo, à medida que a perspectiva para a inflação melhora. A ponto de que o que era praticamente descartado - o IPCA dentro do intervalo de variação da meta, cujo teto é de 4,75% - ser agora a estimativa do boletim Focus para a variação final dos preços no ano.

Uma variável chave para os preços internos, e os globais também, é o comportamento dos preços do petróleo, que subiram no último mês. Ainda que a Petrobras tenha mudado o tempo do repasse das cotações externas nas bombas, o IPCA tem sido movido ao sabor dos preços dos combustíveis. No ano até setembro, a inflação subiu 3,5%, enquanto o sub item transportes, que pesa 20% na composição do índice, aumentou 5,97%. Sob outro prisma, os preços monitorados, que incluem combustíveis, aumentaram 10,21% nos primeiros nove meses do ano, enquanto alimentos e artigos para residências apresentam deflação.

A inflação mais resistente, a dos serviços, está cedendo. No ano, evoluiu 5,54%, e a média móvel dos serviços subjacentes, mais afetados pelo ciclo econômico, caiu de 4,1% para 3,5% nos 12 meses encerrados em setembro. Já a média dos cinco núcleos de inflação considerados pelo BC recuou no mês passado de 5,22% para 5,01%, segundo cálculos da MCM Consultoria. A inflação está também menos espalhada - o índice de difusão, que mede a proporção de preços em alta em relação ao total dos itens, foi de 42,7%, o menor em seis anos.

Os juros muito altos não derrubaram rapidamente a inflação em direção à meta porque a economia, apoiada em estímulos fiscais, na renda e no aumento do emprego, cresceu muito acima da expectativa dos analistas mais otimistas. Após vários trimestres frustrando vaticínios de uma desaceleração que, na verdade, era aceleração do crescimento, a economia pode de fato estar agora reduzindo seu ritmo.

Dados pontuais como os de setembro não formam uma tendência, mas a perda de fôlego do setor de serviços em setembro foi bem maior do que a esperada pela média dos economistas consultados pelo Valor. Ele recuou 0,9% em setembro e está 1,9% abaixo do nível de dezembro de 2022. Os serviços compõem dois terços do PIB e, como último ramo da economia a se livrar do peso da pandemia, apresentavam até há pouco grande dinamismo. O recuo dos preços é outro sinal simultâneo de arrefecimento das atividades.

Os serviços prestados às famílias, que dependem diretamente da evolução da renda, foram um dos que mais recuaram no mês (-3,7%), mas não os únicos - transportes em todas as modalidades, incluindo cargas, e armazenamento e serviços auxiliares de transportes e correio (- 5,5%) seguiram o mesmo caminho. A média móvel trimestral encerrada em agosto mostra estagnação (-0,1%).

Um outro subsetor de serviços nas contas nacionais, o comércio (participação de 16%) teve variação negativa tanto na classificação restrita (-0,2%) quanto na ampla, que contempla veículos, motos e material de construção (-1,3%). A média móvel trimestral foi de 0,2% para o primeiro e de -0,1% para o segundo, ambas indicando baixo dinamismo. O quadro da possível desaceleração se completa com os altos e baixos da indústria (0,4% em agosto) ao longo do ano, no qual apresenta desempenho negativo de 0,3%. Assim, pelo lado da oferta, só a agricultura poderia evitar um comportamento retraído da economia, mas seu desempenho usual no PIB dos terceiro e quarto trimestres do ano tende a ser muito comedido.

A moderação das atividades favorece a queda da inflação e dos juros, mas o cenário externo apresentou nuvens carregadas no segundo semestre, ao contrário do primeiro, quando o real se valorizou um pouco. A alta dos juros nos EUA está perto do fim e a elevação dos rendimentos dos títulos de longo prazo pode, pelo aperto das condições financeiras, dissuadir o Federal Reserve de fazer mais uma correção, a última, de 0,25 ponto percentual. Não há motivos para que os juros dos papéis do Tesouro americano se elevem muito mais do que já o fizeram, embora devam permanecer em níveis próximos dos atuais por mais tempo. Se o canal dos juros afeta o Brasil via ingresso de recursos, o preço do petróleo pode ser um complicador de primeira ordem. A commodity pode subir muito, se o conflito entre Israel e Hamas se internacionalizar.

Nada pode ser descartado em um ambiente tão explosivo, mas na última década nenhum país árabe se dispôs a enfrentar o poderio bélico israelense para defender a causa palestina. Se nada de pior acontecer, o dólar pode se acomodar na casa dos R$ 5, como prevê o Focus, e inflação e juros seguirão em queda. Essa boa perspectiva depende agora mais do cenário global do que do doméstico, relativamente bem encaminhado, com exceção da questão fiscal.

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