Vitória de Donald Tusk põe fim a oito anos de comando do partido Lei e Justiça e traz esperança à Europa
A eleição polonesa no último domingo foi um sinal de alívio na maré antidemocrática que varre o planeta e, na Europa, obteve vitórias recentes na Turquia, na Hungria e em eleições regionais alemãs. Na Polônia, saiu vitoriosa a coalizão formada a partir da Plataforma Cívica, partido de Donald Tusk, um liberal de centro-direita que já foi presidente do Conselho Europeu e primeiro-ministro do país. Apesar de ter obtido menos votos que o governista Lei e Justiça (conhecido pela sigla em polonês PiS), a legenda de Tusk construiu uma rede de alianças que lhe garantirá 248 das 460 cadeiras na Sejm, a Câmara baixa, e 66 das cem cadeiras no Senado. Com isso, tirará do poder os nacional-populistas do PiS.
Não foi tarefa fácil desalojar o PiS. Em oito anos de governo, o partido seguiu à risca a cartilha das autocracias populistas. Aparelhou instituições como o Judiciário, promoveu controle da imprensa, transformou emissoras de radiodifusão em veículos de propaganda do governo, usou as estatais e cada posto na máquina pública como reservas de emprego para aliados. Na agenda política, limitou o direito ao aborto e impôs restrições à comunidade LGBTQIA+, além de se aliar a outros regimes de caráter autocrático, como a Hungria de Viktor Orbán, nas políticas anti-imigração na União Europeia. Na guerra, apesar de ter recebido refugiados ucranianos e apoiado o combate à Rússia, tomou medidas prejudiciais à Ucrânia, proibindo importação de grãos do vizinho.
A eleição de domingo era considerada a mais importante dos últimos 30 anos. As autoridades do PiS tentaram manipular o resultado ampliando postos de votação no interior conservador sem garantir proporcionalidade aos distritos eleitorais liberais das cidades. A manobra não deu certo. A mobilização da sociedade civil levou às urnas eleitores jovens urbanos, de alto nível educacional, e os habitantes da parcela ocidental do país, mais industrializada, que mantêm laços mais estreitos com a Europa. O comparecimento recorde deu vitória a Tusk.
Uma vez no governo, ele terá desafios consideráveis. Primeiro, o presidente, Andrzej Duda, cujo mandato só termina em 2025, é oriundo do PiS e tem o poder de vetar legislação aprovada no Parlamento (para anular vetos, seria preciso Tusk controlar três quintos da Sejm). Segundo, o PiS controla os 15 juízes do Tribunal Constitucional, que julga a constitucionalidade das leis. Finalmente, Tusk terá de lidar com uma coalizão partidária que abrange toda sorte de ideologia, da extrema esquerda comunista à direita liberal. Uma missão desafiadora.
Para o continente e para o planeta, o recado mais importante é outro. Foi dado com todas as letras pela historiadora americana Anne Applebaum em artigo na revista The Atlantic: “Mesmo que você não viva na Polônia, não se preocupe com ela, nem consiga encontrá-la no mapa, anote: a vitória da oposição polonesa prova que é possível derrotar o populismo autocrático, ainda que em eleições manipuladas. Nada há de inevitável na ascensão da autocracia e no declínio da democracia”.

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