Se o acesso dos alunos ao ensino médio técnico profissional for triplicado, o PIB brasileiro poderia aumentar até 2,32%
Quando o IBGE divulgou, há um mês, o envelhecimento da população brasileira constatado pelo Censo de 2022, o foco principal das análises de especialistas e autoridades foi a preocupação com as implicações na saúde. Todos alertaram para a necessidade de expansão do atendimento especializado, dada a maior propensão a problemas circulatórios, neurológicos e oncológicos dos idosos. Mas o desafio tem muitas faces.
O resultado do Censo 2022 surpreendeu. Depois da pandemia da covid-19 se esperava a redução da população mais velha. Mas foi constatado o aumento do número de pessoas com mais de 65 anos, que passou de 7,4% da população total em 2010 para 10,9% dos 203,1 milhões de brasileiros de 2022, totalizando 8,1 milhões a mais. Em pouco mais de uma década, o crescimento dessa faixa etária foi de 57,4%. No outro extremo, o percentual de habitantes com zero a 14 anos caiu de 24,1% para 19,8%, o equivalente a uma diminuição de 5,8 milhões de pessoas, ou 12,6%. A maior parte da população está na faixa de 15 a 64 anos, com 69,3% do total em 2022 em comparação com os 68,5% de 2010.
Visto de outro ângulo, o índice de envelhecimento também fica evidente: o número de pessoas com 65 anos ou mais de idade, em relação a um grupo de 100 crianças de zero a 14 anos, ficou em 55,2 no ano passado, quase o dobro dos 30,7 do Censo de 2010, o maior da série histórica, iniciada em 1940. A aceleração entre 2010 e 2022 também foi a mais forte da série.
José Eustáquio Diniz, ex-professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, projeta que o Brasil vai envelhecer bem mais rapidamente do que a França, por exemplo, e levar um quarto do tempo do país europeu para chegar a 28% da população com mais de 65 anos. A França vai atingir essa marca em 2070, e o Brasil, em 2062, o que revela a velocidade da transição demográfica brasileira (Valor, 30/10).
Há nuances pelo país. As regiões Norte e Nordeste são as mais jovens, com 25% e 21% da população com até 14 anos, respectivamente. As regiões mais velhas são Sudeste e Sul, com porcentuais de idosos de 12%. A idade mediana também reflete esse quadro: ela é de apenas 26 anos em Roraima e chega a 38 no Rio Grande do Sul.
De toda forma, a constatação é que o bônus demográfico ficou para trás, de acordo com especialistas, o que exige providências. A sensação que fica é que o próprio governo se surpreendeu e agora corre atrás para cobrir as lacunas. Em artigo no Valor (24/11), o presidente da Fundação Itaú, que congrega o Itaú Social, Itaú Educação e Trabalho e Itaú Cultural, Eduardo Saron, jogou o olhar para a necessidade de se preparar a população mais jovem para a transição etária, uma vez que terá a tarefa cuidar dos mais velhos e de financiar seu atendimento de saúde e previdenciário.
O tamanho do desafio pode ser medido pelo expressivo grupo de jovens de 18 a 24 que não estudam nem trabalham, os chamados nem-nem. De 37 países analisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o segundo com maior proporção de nem-nem depois da África do Sul, com 36% dessa faixa etária.
A parcela dos jovens que irá sustentar a transição demográfica só estará pronta para a tarefa com investimento consistente em educação, salienta Saron. Vários estudos apontam para esse caminho. Um deles, feito pelo Insper a pedido do Itaú Educação e Trabalho, assegura que se o acesso dos alunos ao ensino médio técnico profissional for triplicado, o PIB brasileiro poderia aumentar até 2,32%, graças à maior empregabilidade e ganhos salariais dos profissionais. Estima-se que o salário de quem cursou o técnico é 12% superior ao de quem fez apenas o médio.
Esse é um dos motivos pelos quais a procura por esses cursos é alta. Mas a oferta é baixa. Na verdade, o Brasil está distante da meta do Plano Nacional de Educação, que é ter 4,8 milhões de vagas no ensino técnico até 2024. Em 2022, só 2 milhões eram matriculados no técnico (O Globo, 27/11). Para dobrar a oferta de ensino técnico seria preciso reforçar os investimentos públicos destinados ao ensino médio dos atuais 1,18% do PIB para 1,27% e chegar a 1,35% para triplicar as cadeiras, projeta o Insper. Em consequência, apenas 8% dos estudantes que concluem o ensino médio no Brasil se formaram pelo técnico, em comparação com 37% nos países da OCDE.
A ampliação da educação profissional e tecnológica é tida como prioridade pelo Ministério da Educação, mas não foi bem abordada na reformulação do ensino médio proposta pelo governo Lula. O projeto estabeleceu 2,1 mil horas para disciplinas básicas e 900 horas para as técnicas, ao longo de três anos. No ensino médio regular, a formação básica ficou com 2,4 mil horas. Cursos na área de tecnologia da informação e saúde, que estão entre as carreiras mais promissoras do futuro, inclusive pelo envelhecimento da população e pela exigência de maior produtividade, demandam pelo menos 1,2 mil horas.
O MEC, por sua vez, pede aos Estados que invistam em ensino integral para oferecer modalidades técnicas que demandam maior carga horária. Esse investimento é vital: o estudo do Insper mostra que traz retorno futuro para a economia e para a sociedade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário