terça-feira, 28 de novembro de 2023

JAVIER MILEI EMITE SINAIS POSITIVOS DE MODERAÇÃO ANTES DA POSSE

Editorial O Globo

Presidente eleito argentino adota tom pragmático no campo econômico e faz gesto de reaproximação com Brasil

Os primeiros passos do presidente eleito argentino Javier Milei têm sido, até o momento, positivos. Passada apenas uma semana do segundo turno em que derrotou o peronista Sergio Massa por vantagem expressiva com um discurso ultraliberal, o populista Milei surpreendeu ao descer rapidamente do palanque. Aparentemente preocupado com a tarefa árdua de formar governo e aparar arestas criadas na campanha, avançou na economia e nas relações exteriores.

No domingo, embarcou para os Estados Unidos com Luis Caputo, economista ligado ao ex-presidente Mauricio Macri cotado para assumir o Ministério da Economia. Caputo é crítico de ideias descabidas como a dolarização e a extinção do Banco Central. Os dois manterão encontros com autoridades econômicas dos Estados Unidos e representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI), credor da dívida de US$ 43 bilhões com a Argentina. A preocupação imediata é uma parcela que vence no início de 2024.

Também no domingo, o governo eleito deu sinais de moderação em relação ao Brasil. A futura chanceler, Diana Mondino, desembarcou em Brasília para encontrar o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Em mãos, trouxe uma carta em que Milei convida o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sua posse, em 10 de dezembro. “Sabemos que nossos dois países estão estreitamente ligados pela geografia e história e, a partir disso, desejamos seguir compartilhando áreas complementares, como integração física, comércio e presença internacional, que permitam que toda essa ação conjunta se traduza, para os dois lados, em crescimento e prosperidade”, diz o texto.

O fato de Mondino ter escolhido o Brasil como destino da primeira viagem internacional depois de indicada ao cargo e o teor da carta ajudaram a desarmar os ânimos. Na campanha, Milei se aproximou de Jair Bolsonaro, não perdeu a oportunidade de chamar Lula de “comunista” e de criticar o Mercosul. Lula deu sinais indiretos, mas claros, de apoio ao peronista Massa. Contados os votos, restou a dúvida se haveria um gesto de reconciliação com o governo brasileiro. Dado o primeiro passo, Lula e o Itamaraty não deveriam desperdiçar a oportunidade de marcar presença na posse em Buenos Aires.

A eventual ida de Bolsonaro não é motivo para Lula declinar o convite. O ex-presidente não tem mais nenhum poder para definir o relacionamento do Brasil com seu principal sócio no Mercosul. Essa prerrogativa foi concedida a Lula em 2022 pelas urnas. Espera-se que ele a exerça em sua plenitude. Na posse de Lula, o presidente uruguaio Luis Lacalle Pou, de centro-direita, foi a Brasília acompanhado dos ex-presidentes José “Pepe” Mujica, de esquerda, e Julio María Sanguinetti, de centro, demonstrando que relações entre países não devem assumir cores ideológicas. De Bolsonaro, que não passou a faixa a Lula e saiu do país dois dias antes da posse, não dá para esperar o mesmo comportamento republicano dos estadistas uruguaios. Se comparecer à posse, o incomodado deve ser apenas ele.

Bookmark and Share

Nenhum comentário:

Postar um comentário