O cenário externo mais benigno abre espaço para maior ingresso de capitais, captações externas mais baratas e aumento de investimentos à medida que os juros possam cair adequadamente
Até há pouco, o presidente do Federal Reserve, o banco central americano, Jerome Powell, dizia que preferia errar por exagero do que por falta de firmeza na política monetária. Ontem ele mudou o discurso e afirmou que os membros do banco “estão muito focados em não cometer” o erro de exagerar na dose. “Sabemos que existe o risco de segurar os juros muito altos por muito tempo”. A inflação está distante, embora bem menos, da meta de 2%, mas a maioria do Fed apostou em corte de 0,75 ponto percentual em 2024. O cenário mudou e a direção dos juros no futuro será para baixo. O Banco Central Europeu também manteve sua taxa de juros parada em 4%, diante de promissoras quedas da inflação. A inflação dos últimos meses também foi favorável para que o BC brasileiro se sentisse seguro para se comprometer com mais dois cortes de 0,5 ponto percentual, após baixar a Selic para 11,75%. Parcela não desprezível dos analistas acha que é possível acelerar o ritmo de cortes.
Os mercados financeiros preveem o início da redução dos juros nos Estados Unidos já em março, e um pouco mais adiante na zona do euro. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos caiu abaixo de 4% pela primeira vez desde agosto, após a decisão do Fed. As ações brasileiras subiram e os juros futuros domésticos declinaram com os indícios mais firmes de que o ciclo de aperto monetário nos países desenvolvidos está perto do fim.
Entre os dirigentes de BCs, Powell é o que tem mais razões para cautela. A economia americana cresceu 5,2% no terceiro trimestre, e começou a desacelerar posteriormente, devendo encerrar o ano, pelas projeções do Fed, em 2,6%, ainda acima do seu potencial de longo prazo, de 1,8%. O mercado de trabalho continua apertado, mas já apareceram indícios de arrefecimento de contratações e de aumento nos pedidos de seguro-desemprego. Em novembro, a inflação ao consumidor (CPI) subiu 0,1%, ou 3,1% em doze meses. Pela medida preferida do Fed, os gastos pessoais de consumo, a inflação encerrará o ano em 2,8% (abaixo dos 3,3% previstos em setembro), enquanto que o núcleo desse indicador atingirá 3,2%. Outra medida, como a taxa de inflação de seis meses anualizada da inflação subjacente, já coloca a evolução anual do nível de preços nos 2% da meta do Fed (cálculo da TS Lombard, Valor Online, ontem).
Ao pesar os riscos, que ainda existem, Powell afirmou que parte dos efeitos da alta acumulada dos juros ainda não se fez sentir e que, no julgamento do banco, não é provável que as taxas tenham de subir mais. Dessa forma, mesmo com a carga de juros de 5,5% (a mais alta em 22 anos), a economia ainda assim crescerá 1,4% e o desemprego não passará de 4,1% - um pouso suave de bem baixo custo, se as previsões do banco estiveram certas.
Christine Lagarde, presidente do BCE, usou os mesmos argumentos do Fed para manter os juros em 4% na zona do euro. “Não devemos de forma nenhuma baixar a guarda”, disse, acrescentando que “há trabalho ainda a ser feito” e que a política monetária será restritiva “o quanto for necessário”. A inflação na zona do euro em novembro foi de 2,4%. As projeções do BCE são de que ela feche 2023 em 5,4%, e 2,7% em 2024, aproximando-se apenas em 2025 dos 2%. O aperto derrubou o crescimento com mais intensidade que nos EUA. O bloco do euro deve crescer 0,7% este ano e 0,8% no próximo. Segundo Lagarde, o banco “não discutiu de maneira nenhuma corte de juros”, mas os mercados aproveitaram o ímpeto da sinalização do Fed e já indicaram seis cortes de 0,5 ponto no ano que vem.
A aproximação do ciclo de corte das taxas nos EUA e zona do euro facilita o trabalho de afrouxamento monetário executado pelo BC brasileiro. No comunicado da reunião de ontem, o Copom afirma que o cenário externo está “menos adverso” e, pela primeira vez em muitos meses, que “as medidas de inflação subjacente se aproximam da meta para a inflação”. Ainda assim, no cenário de referência o IPCA ainda está descolado da meta de 3% no ano que vem (3,5% e 3,9% no boletim Focus) e por quase nada, 3,2%, em 2025. O BC cita a reancoragem apenas parcial das expectativas como um dos motivos para manter o ritmo atual de redução. Para que a ancoragem ocorra, porém, é importante a “firme persecução das metas fiscais”.
Esse parece ser o ponto de interrogação sobre o futuro, importante na equação que determinará o ritmo de queda e a taxa final dos juros no ciclo. O governo, porém, usa expedientes para flexibilizar o novo regime fiscal antes de sua estreia, o presidente Lula não vê problemas em déficits fiscais, e parte das receitas extras que o governo pretende obter está sendo diluída nas discussões tardias no Congresso. A situação fiscal, que não é crítica, piorou. O Prisma Fiscal de novembro elevou a projeção de déficit no ano de R$ 113,7 bilhões para R$ 147 bilhões. O cenário externo mais benigno abre espaço para maior ingresso de capitais, captações externas progressivamente mais baratas e aumento de investimentos à medida que os juros possam cair adequadamente. É importante sinalizar controle fiscal para aproveitar plenamente a distensão monetária global.

Nenhum comentário:
Postar um comentário