domingo, 10 de dezembro de 2023

RECUO APARENTE DE MADURO TRAZ CHANCE DE DIÁLOGO COM GUIANA

Editorial O Globo

Movimento resultante da intervenção de Lula abre a esperança de uma solução pacífica para investida venezuelana

Depois de conversar ao telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ditador venezuelano Nicolás Maduro esboçou seu primeiro recuo na pretensão de invadir a Guiana. “A Guiana e a ExxonMobil [petrolífera americana que explora a costa guianesa] terão que sentar e conversar conosco, o Governo da República Bolivariana da Venezuela. De coração e alma, queremos paz e compreensão”, escreveu numa rede social. Em resposta, o presidente da Guiana, Irfaan Ali, afirmou “não se opor” a dialogar sobre Essequibo, área de seu país reivindicada pela Venezuela. Ficou marcado para a semana que vem um encontro entre os dois.

É essencial que Maduro dê provas de que suas intenções são mesmo pacíficas, mas seu aparente recuo afasta por ora o cenário de conflito e traz a esperança de resolução diplomática para a tensão decorrente dos movimentos do ditador nas últimas semanas. Em plebiscito, 95% dos eleitores venezuelanos apoiaram a anexação do Essequibo, região correspondente a mais de dois terços da Guiana, rica em petróleo e recursos minerais. Na terça-feira, Maduro nomeou um general como “autoridade única” do território reclamado e apresentou um novo mapa da Venezuela, desafiando decisão da Corte Internacional de Justiça, em Haia.

Vários movimentos diplomáticos tentaram dissuadir Maduro. Antes do plebiscito, o Brasil enviou a Caracas o assessor internacional de Lula, Celso Amorim, para manifestar a necessidade de resolver pelo diálogo a disputa que data do século XIX. Mesmo sem citar Maduro, Lula afirmou na quinta-feira, no discurso de abertura da cúpula do Mercosul no Rio, acompanhar com “crescente preocupação o desdobramento relacionado à questão do Essequibo”. Ao final do encontro, os líderes do Mercosul pediram, em nota conjunta, que a América do Sul continue um “território de paz”. Em seguida, Lula convocou a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para promover o diálogo entre Venezuela e Guiana. O Conselho de Segurança da ONU deu prioridade ao debate sobre a questão.

Diante da escalada na tensão, Ali pediu também ajuda aos Estados Unidos. Aviões da Força Aérea americana sobrevoaram a Guiana, de acordo com o governo americano em sinal da cooperação “econômica e de segurança” entre os dois países. Como o caminho menos custoso para tropas venezuelanas invadirem Essequibo passa por Roraima, o Exército brasileiro anunciou ter reforçado a presença na região da fronteira com os dois países com soldados e blindados.

O governo brasileiro tem razão em insistir na solução diplomática do conflito e, ao mesmo tempo, fez bem em se preparar para o pior cenário. O Brasil não pode aceitar sob nenhuma circunstância o uso de seu território, por isso precisa continuar a lançar mão de todo o seu arsenal diplomático para demonstrar a Maduro o custo de uma aventura militar. O conflito poderia ser descartado se prevalecesse a racionalidade. Infelizmente, nem sempre é assim. Como todo autocrata, Maduro explora o nacionalismo como arma política e não se furtaria a levar seu país à guerra, mesmo sabendo da catástrofe que causaria ao próprio povo. Não é preciso buscar referências históricas longínquas para ilustrar o risco. Basta lembrar a invasão da Ucrânia pelas tropas do russo Vladimir Putin — justamente aquele a quem Maduro foi recorrer em busca de apoio.

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