quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

CARNAVAL APONTA CAMINHO PARA NEGÓCIOS NO BRASIL

Editorial O Globo

País tem vocação evidente e potencial enorme a explorar com as indústrias criativas

Oficialmente, o carnaval acabou na terça-feira, mas, para prefeituras e estados, o clima ainda é de comemoração. Com tempo ensolarado na maior parte do país, o evento foi um sucesso, traduzido em ruas apinhadas de foliões, atrações sedutoras, hotéis lotados, serviços a todo vapor e arrecadação garantida. A indústria criativa mostrou seu vigor e deixou claro que carnaval não é só diversão. É também um ótimo negócio.

Em 2021 e 2022, a festa sofreu o baque da pandemia. A recuperação iniciada em 2023 se consolidou na festa deste ano. Antes da folia, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimara que os festejos enfim superariam os níveis pré-pandemia, em especial nos estados que têm o carnaval como atração turística. Mas o carnaval tem o mérito de fazer girar várias rodas da economia. No Rio, o desfile da Portela, inspirado no livro “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, fez esgotar os volumes da obra após a apresentação. Mesmo aqueles que fogem da folia contribuem para movimentar o turismo em seus destinos mais pacatos.

São Paulo é provavelmente o estado que mais gerou negócios com a festa. A Secretaria de Turismo previu que a movimentação financeira alcançaria R$ 5,72 bilhões, a maior dos últimos cinco anos. As autoridades estimam que 4,4 milhões de turistas tenham prestigiado a festa nos municípios paulistas. A força da folia ficou patente na profusão de blocos e atrações musicais de peso. No Rio, a Prefeitura estimou uma injeção financeira de R$ 5 bilhões em serviços e 7 milhões de foliões durante todos os dias de festa. A Riotur falou em 1,2 milhão apenas no megabloco Fervo da Lud, recorde de público.

É verdade que há exagero nas estimativas de multidões — é frequente elas serem desmentidas por softwares que contam cabeças em fotografias aéreas. Mas isso em nada desmerece a animação daqueles que enfrentaram a temperatura de 41 °C para seguir o cortejo que Ludmilla se viu obrigada a interromper mais cedo em razão do calor. No Sambódromo lotado, a iluminação cênica — pela primeira vez usada em larga escala — proporcionou apresentações inovadoras e marcantes.

Salvador, com 12 dias de folia, abrigou uma sucessão de trios, blocos e shows. A Prefeitura estimou reforço de R$ 2 bilhões na economia do município. Segundo a Secretaria de Comunicação, o investimento neste carnaval superou em 30% os anteriores. A expectativa era atrair mais de 1 milhão de turistas. Os números superlativos ficavam evidentes nas multidões que tomaram os principais circuitos carnavalescos da capital baiana. Recife e Olinda também mantiveram a tradição do carnaval de rua e reuniram cortejos desde as primeiras horas da manhã.

O sucesso do carnaval sugere um caminho para o Brasil. Há vocação evidente para indústrias criativas e potencial enorme ainda a explorar em hotéis, transportes, bares, restaurantes, comércio etc. Tais negócios geram emprego e renda a um sem-número de profissionais que trabalham direta ou indiretamente com o carnaval — alguns o ano inteiro, como os artistas que confeccionam fantasias e alegorias das escolas de samba. Evidentemente, o poder público precisa prover segurança e infraestrutura. Mas, a despeito de problemas pontuais, as cidades passaram no teste. O carnaval de 2024 mostrou que é possível se divertir e lucrar com uma indústria que vende alegria.

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