quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

FELIZ 2026 !

Caros leitores, mais um ano termina. 2025 foi um ano de muitas conquistas e recordes para o blog Sou Chocolate e Não Desisto, resultado de muito trabalho nestes 20 anos de existência. 

A cada ano, ganhamos mais repercussão na internet, entre blogs e sites que reproduzem nossas postagens. Nas redes sociais como Facebook, X (Twitter) e Instagram, Blueskay, o blog tem se destacado.

A todos leitores, muito obrigado! Desejo um Ano Novo de realizações, saúde, muito amor, paz e esperança. Feliz 2026 ! Abraço, Valerio Sobral.

Em 2026 vem novidades aí nos 21 anos do Sou Chocolate e Não Desisto.

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O FUNERAL DA BARDOT

Elio Gaspari, O Globo

Brigitte, Marilyn e Greta Garbo, três mulheres do século XX

O ano de 2026 começará com o funeral de Brigitte Bardot, símbolo de uma libertação feminina. Bonita e irreverente, colecionou namorados (dez mais ou menos duradouros), transformou duas aldeias de pescadores (Saint-Tropez e Búzios) em pontos turísticos.

Ao chegar ao Rio, linda, depois de 12 horas de voo, deu uma entrevista coletiva e ouviu uma pergunta do repórter Orion Neves:

— A senhora pretende ter um filho brasileiro?

Resposta rápida:

— Com quem, com você?

Bardot morreu aos 91 anos, claustrofóbica e conservadora. Com ela, foi-se mais um pedaço do século XX. Nele, viveram mais duas mulheres lindas e fantásticas: Greta Garbo (1905-1990) e Marilyn Monroe (1926-1962).

Bardot e Garbo superaram as armadilhas da celebridade. Garbo avisou: “Quero ficar sozinha” — e conseguiu. Viveu seus últimos anos em Nova York e fazia longas caminhadas, de chapéu, vestindo suas enormes pernas em calças compridas; às vezes passava pela Park Avenue. La Garbo sofreu para ficar sozinha.

La Bardot viveu o suficiente para não ser aporrinhada. Da Garbo à Bardot, o século XX aprendeu a conviver com mulheres famosas. No meio do caminho, Marilyn Monroe chegou ao triunfo das cocottes. Namorou o homem mais poderoso do mundo, o presidente John Kennedy, e o irmão dele, Robert. As pressões, e talvez suas ambições, levaram-na ao suicídio.

La Bardot conseguiu ficar sozinha e esteve, à sua maneira, na Pasárgada de Manuel Bandeira. Teve os homens que quis, nas camas que escolheu.

Essas três mulheres seguiram roteiros diversos, e hoje o mundo é outro. Outro na França, nos Estados Unidos e sabe-se lá onde mais. Menos na Inglaterra, ou, com mais precisão, na casa reinante dos Windsors.

Lá o rei Charles III conseguiu fazer de Camilla Shand, ex-Parker Bowles, rainha consorte. Ela conseguiu o título que não passou pela cabeça de sua bisavó, Alice Keppel, namorada de fé do rei Eduardo VII.

Conta a lenda que Camilla Shand, ao ser apresentada ao príncipe Charles, disparou:

— Minha bisavó foi amante do seu bisavô, o que você acha disso?

Não se sabe exatamente quando, mas Charles achou a ideia boa. Seguindo a tradição inglesa, namorou-a enquanto ela estava casada. A infidelidade de Charles envenenou seu casamento, e ele foi o primeiro príncipe de Gales a se divorciar. Seu tio-avô foi forçado a abdicar para se casar com uma divorciada.

Quando Lady Di morreu, em 1997, nove em dez pessoas eram capazes de apostar que Camilla nunca conseguiria ser rainha. Ela conseguiu, a Inglaterra mudou, mas nem tanto.

Em tempo: a infidelidade de Charles corroeu sua popularidade. Tudo bem, e é falta de educação lembrar que, na crônica da embaixada do Brasil em Londres, uma cama do palacete tem fama porque nela teria sido gerado o príncipe Harry. (Charles, ao ver o bebê, estranhou seu cabelo ruivo.)

Bardot transgrediu num tempo de transgressões. Retraiu-se quando a fama começou a incomodá-la e blindou-se defendendo os animais e seguindo uma linha conservadora. De certa maneira, acompanhou o século XX.

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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A JORNALISTA E O MINISTRO

Pedro Doria, O Globo

É um erro achar que a imprensa está de um lado na briga política

Democracias precisam de jornalismo

Uma das perguntas que mais tenho ouvido de amigos e familiares, nestes dias de Festas, é: "Qual o objetivo?".

Querem entender o que deseja a imprensa quando traz notícias de que o ministro Alexandre de Moraes pode ter pressionado o Banco Central em favor do Banco Master. A resposta não é complicada. O que a imprensa quer é trazer ao público aquilo que circula nos corredores do poder.

Embutida nessa pergunta — “qual o objetivo?” — existe a presunção de que estamos a serviço de um lado na briga política. Não é isso que nos dá gana um dia após o outro. Francamente, o tesão no trabalho está em ser o primeiro a trazer algo a público. Ao público. O barato está em conseguir explicar com mais clareza como o Brasil funciona, ou o mundo. Em ser útil — e ser lido por ser útil. Pelo ângulo pessoal, essa é a motivação de cada um de nós. Mas, na engrenagem da democracia, a imprensa cumpre um papel fundamental. Ela não julga, não condena. Alerta. Revela à sociedade aquilo que quem tem poder deseja manter em segredo. O jornalismo existe para ligar a sirene e apontar: tem problema ali. É preciso investigar formalmente.

O jornalismo não tem as ferramentas necessárias à investigação pelo Estado — quebra de sigilos, mandados de busca e tudo o mais. As ferramentas que cada jornalista tem à disposição são aquelas dadas pelas Constituições democráticas a cada cidadão. O direito de perguntar e ouvir respostas. De circular nos palácios dos três Poderes e ver o que acontece. Aí contar para todo mundo. Cidadãos têm de trabalhar, não podem gastar manhãs, tardes, noites ou mesmo madrugadas dentro de palácios, prestando testemunho do que faz o poder. Tentando entender as relações, os acordos. As trapaças. É por isso que democracias precisam de jornalismo. Democracias não se sustentam sem que alguém faça esse serviço. É o papel da imprensa.

É da natureza do poder que poderosos se sintam tentados a ganhar algo com as possibilidades abertas pelo próprio nome ou assinatura. A imprensa é um instrumento da sociedade para revelar quando ocorre. Às vezes, a imprensa levanta provas. Outras, não — as provas vêm após o alerta, com a investigação de procuradores ou policiais.

A imprensa noticiou, ativamente, a Operação Lava-Jato. Os desvios bilionários da Petrobras não foram ilusão. Roubou-se. Muito. A mesma imprensa voltou seu olhar ao juiz Sergio Moro quando conversas vazadas tornaram claro que ele mantivera relações promíscuas com os procuradores. Juiz não tem de ajudar parte num processo. Os mesmos jornalistas levantaram a corrupção da família Bolsonaro. Denunciaram o ataque de Bolsonaro à sociedade na pandemia. Demonstraram como foi a tentativa de golpe militar. E, agora, revelam que dois ministros do STF, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, estão promiscuamente próximos do caso do Banco Master. Isso é um problema. Um problema gigante. Precisam, no mínimo, ser afastados de qualquer julgamento envolvendo a dissolução do banco.

A máquina de ataque à imprensa de parte da militância da esquerda estava dormente desde a eleição de Jair Bolsonaro. Foi religada contra Malu Gaspar, colunista do GLOBO. Não tinha como falar algo perante a revelação de que a mulher de Moraes assinou um contrato sem objetivo específico que lhe valeria ao redor de R$ 130 milhões com o Master. Então resolveu dar o bote quando ela revelou que pessoas próximas viram o ministro pressionar o BC.

A informação que ela trouxe foi confirmada por Eliane Cantanhêde e David Friedlander, no Estado de S. Paulo, e por Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. De certa forma, foi confirmada também por Daniela Lima, do UOL. Daniela, porém, diz que, de acordo com suas fontes, não houve pressão. Apenas menção. Jogo jogado. Fontes distintas podem ter percepções diferentes. Pois cinco dos jornalistas mais experientes da cobertura de política e economia no Brasil ouviram versões quase iguais da mesma história. Dos cinco, quatro ouviram que Moraes cruzou a linha. E muito. Segundo Mônica, a pressão não foi apenas contra o BC, mas também contra a Polícia Federal.

Parece ser um sinal de como será a cobertura da eleição de 2026. Aqui, nas redações, estaremos sob ataque contínuo da máquina bolsonarista e da parte mais agressiva da esquerda. A esquerda não gosta de ser comparada. Mas os métodos são iguais. A falta de compreensão de que uma imprensa livre estará sempre na cola de quem tem poder, e de que isso é desejável, idem.

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OS DEUSES ESTÃO LOUCOS

Merval Pereira, O Globo

Os “deuses” do Olimpo jurídico manobram para que ninguém, ou nenhuma instituição, possa limitar seus poderes.

A maior prova de que a acareação marcada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli sobre o caso Master estava tecnicamente errada e era injustificada foi o presidente do banco, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco Regional de Brasília Paulo Henrique Costa, o pretenso comprador, terem sido convocados para um interrogatório que não estava previsto. Continuamos assistindo a um simulacro processual, pois, antes mesmo dos depoimentos oficiais dos envolvidos, pressupõe-se que haverá contradições, justificando a acareação.

Todo o atropelo do processo, desde o momento em que foi transferido ao STF sem razão de ser, dá a impressão à sociedade de que querem acobertar alguma coisa. Não é a primeira vez que o dono de um banco liquidado pelo Banco Central (BC) reclama, alegando prejuízos provocados pela ação saneadora da instituição fiscalizadora do sistema financeiro nacional. A diferença hoje é que o Supremo entrou na briga, aparentemente a favor de Vorcaro, embora o BC tenha se livrado da subordinação aos demais Poderes e seja autônomo legalmente.

Mesmo tendo sido indicado pelo presidente Lula, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, vem sendo criticado pela esquerda devido à manutenção dos juros altos e, agora, pela liquidação do Banco Master. Para os amigos de Vorcaro, o envolvimento dos ministros Alexandre Moraes e Dias Toffoli em denúncias envolvendo o Master deve-se a uma manobra da direita para desacreditar os dois, considerados os principais líderes do STF na defesa da democracia por ocasião da tentativa de golpe bolsonarista.

A polarização política impede que os fatos se sobreponham à fantasia ideológica. É um estranho caso de esquerdistas defendendo um banqueiro ladrão, enquanto os direitistas querem vê-lo atrás das grades. Criticar Moraes, apesar do contrato exorbitante de sua mulher com o Master, por pressões a favor de Vorcaro; ou Dias Toffoli, pela ingerência no processo de liquidação sem que o STF tenha a ver com a questão, de exclusiva responsabilidade do BC, é automaticamente apoiar a direita em sua tentativa de desmoralizar o Supremo. As atitudes no mínimo estranhas dos ministros, que dão as costas aos mais comezinhos cuidados com potenciais conflitos de interesses, como se estivessem acima do comum dos mortais, não entram nas análises dos simpatizantes.

O mesmo sentimento de invulnerabilidade parece tomar conta de alguns ministros, que se consideram responsáveis pela salvação da democracia brasileira e, portanto, merecedores de ser reverenciados por todos, mesmo quando exorbitam seus poderes. O mesmo sentimento que a História registra em líderes políticos ou militares que consideram saber o que é certo para suas populações e tornam-se ditadores.

Há um ditado atribuído a Sófocles: os deuses, quando querem punir os humanos, primeiro os enlouquecem com o poder. Oscar Wilde parafraseou a ideia dizendo que, quando os deuses desejam punir os humanos, atendem a seus desejos — e isso geralmente os leva à ruína. Um bom exemplo no caso atual é a Operação Lava-Jato. Os procuradores e o então juiz Sergio Moro ganharam tanto poder e apoio popular que atravessaram a divisória entre o lícito e o ilegal. Os ministros do Supremo, depois de anos os apoiando, passaram a demonizá-los, e a sorte virou. Foi a vez de os deuses enlouquecerem os ministros do STF, que se dedicam hoje a anular todos os processos da Lava-Jato, mesmo os crimes confessados, com dinheiro devolvido e tudo.

O empenho pessoal de alguns ministros, entre eles Gilmar Mendes e Toffoli, em fazer terra arrasada das investigações leva seus adversários a considerar que o objetivo não era conter os eventuais excessos de Curitiba, mas livrar os criminosos de colarinho branco. O problema com os nossos “deuses” do Olimpo jurídico é que eles manobram para que ninguém, ou nenhuma instituição, possa limitar seus poderes. Foi assim na criação do Conselho Nacional de Justiça, que não tem jurisdição sobre o Supremo, e é assim hoje com o código de conduta que o presidente Edson Fachin tenta criar contra a maioria silenciosa do Supremo.

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BEM MAIS DO QUE CONSTRANGEDOR

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Risco do STF é repetir trajetória de Moro e Lava Jato, do céu ao inferno

Sensação de que Supremo vive numa bolha do ‘vale tudo’, como se salvar a democracia justificasse qualquer coisa e contrariando a máxima de ‘ninguém está acima da lei’

Do céu ao inferno em um ano, o Supremo Tribunal Federal atravessou 2025 como o salvador da Pátria e das instituições ao condenar um ex-presidente e oficiais de quatro estrelas por tentativa de golpe de Estado, mas morreu na praia, antes do Ano Novo, afogado em suspeitas éticas graves e relações nada republicanas envolvendo o Banco Master.

O vagalhão atingiu em cheio o ícone da defesa da democracia, ministro Alexandre de Moraes, que frequentava jantares na mansão de Daniel Vorcaro e fazia gestões insistentes e não bem explicadas junto a Gabriel Galípolo, do Banco Central, enquanto o escritório de advocacia de sua mulher mantinha um contrato milionário com o Master.

Dias Toffoli também não passa ileso e determinou uma acareação, nesta terça-feira, 30, entre representantes do Master, do BRB, usado para tentar salvar o banco de Vorcaro, e do BC, que teme cair numa armadilha para dar o que a defesa de Vorcaro mais quer: reverter a liquidação do seu banco.

Se a decisão de Toffoli já seria naturalmente controvertida, ela fica mais chocante diante das circunstâncias: a atração do processo do Master para o STF e a decretação de sigilo total logo após a viagem do ministro com um advogado do Master num jatinho e a revelação de que sua ex-mulher foi sócia de outro advogado do banco num escritório de Brasília.

Embalado pela própria personalidade e pelo combate ao golpe, Moraes se sentia inatingível e dava de ombros para um velho ditado: “quanto mais alto o pulo, maior o tombo”. A admiração pode se tornar decepção, de um lado, e a perseguição, comemoração, do outro. Nem uma coisa nem outra faz bem à democracia, à política, à crença nas instituições – a um ano das eleições.

Quanto a Toffoli: alheio a regras e críticas, ele estarreceu gregos e troianos ao defender a revisão para lá de camarada do acordo de leniência da JBS e agora se sabe que sua ex-mulher atua para a J&F, holding da gigante de carnes.

A teia entre ministros do STF, seus familiares, grandes escritórios de advocacia e donos de fortunas formidáveis (e de origem duvidosa) é muito mais do que constrangedora. O que está em jogo não é só a credibilidade de um ministro ou outro, mas a importância do Supremo, e do próprio Moraes, para o Brasil e os brasileiros.

As histórias se acumulam, com a triste sensação de que o STF vive numa bolha do “vale tudo”, como se salvar a democracia justificasse qualquer coisa e contrariando a máxima de “ninguém está acima da lei”. Aliás, os mesmos erros de Sérgio Moro e a Lava Jato, em sua trajetória do céu ao inferno.

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CONFUSÕES MASTER DE DIAS TOFFOLLI

Míriam Leitão, O Globo

Ministro começa a recuar da acareação, anunciando que convocados darão depoimento. Mas continua tratando da mesma forma investigados e fiscalizador

A acareação marcada para esta terça no STF sobre o Banco Master é tão imprópria que o próprio ministro Dias Toffoli começou ontem a mudar o formato e decidiu colher depoimentos prévios dos convocados. Toffoli disse, em nota no sábado, que nem o Banco Centralnem o diretor de fiscalização são investigados. Era só mesmo o que faltava. Mas se não o são, por que o diretor do Banco Central Ailton de Aquino será ouvido por uma autoridade policial, segundo a nota do ministro? A polícia só tem autoridade sobre aquilo que é criminal. O rito do devido processo legal está sendo flagrantemente ferido.

O diretor Ailton de Aquino e sua equipe identificaram a fraude. Foi ele quem assinou a comunicação ao Ministério Público. Também foi quem subiu o voto da liquidação. E tudo isso fez porque comanda a diretoria de fiscalização, cujo papel institucional é exatamente fazer o que foi feito. Não faz sentido algum que ele e o Banco Central estejam na kafkiana posição de ir ao Supremo sem saber em que condições estão indo. Uma pessoa só pode ser ouvida num processo como investigado ou como testemunha. Se não é investigado, testemunha também não é, porque não foi convocado nessa condição. Na nota de Toffoli em que negou o embargo do Banco Central, o ministro disse “determino a realização dos atos como já explicitados em despachos anteriores, sob a condução da autoridade policial competente, com organização do juiz auxiliar deste gabinete”.

O Banco Master está sendo investigado pela Polícia Federal em outros estados, mas com o juízo de primeira instância. Esta investigação que o ministro Toffoli se deu por competente — mesmo sem estar envolvida, até o momento, qualquer autoridade com prerrogativa de foro — é a que trata da fraude financeira, e da tentativa de passar esse rombo de R$ 12 bi para o BRB. Esse é o crime mais flagrante. Não é o único.

Há inquéritos em andamento no Rio de Janeiro, no Amapá e em São Paulo. No Rio e no Amapá, por negócios lesivos com os fundos de pensão de servidores. Em São Paulo investiga-se gestão fraudulenta. O inquérito de São Paulo e o do Distrito Federal, aliás, estavam inicialmente juntos, mas a investigação no DF foi mais veloz e permitiu a Operação Compliance Zero. Houve a prisão de alguns investigados, entre eles, Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. Em seguida começou todo esse tumulto no processo, após o ministro Dias Toffoli avocar a si a ação, colocar tudo em sigilo absoluto e começar a tomar decisões de ofício, como a de convocar o diretor do Banco Central e potenciais criminosos para uma acareação, que agora pode não ser acareação.

Durante a prisão de Vorcaro foram apreendidos documentos, celulares e outros materiais. Já houve a extração do conteúdo do telefone de Vorcaro, o que pode levar a novos elementos de prova e a mais celeridade no inquérito principal.

Tanto no TCU, com o pedido de explicações do ministro Jhonatan de Jesus, quanto no STF, com a atuação do ministro Dias Toffoli, tem havido críticas duplas ao Banco Central. Primeiro que o regulador teria demorado a agir, depois que teria se precipitado. Ora, há de ser uma coisa ou outra, as duas ao mesmo tempo não tem sentido. Foi preciso percorrer um longo caminho para identificar o que houve no Master. Quando o caso foi levado ao Ministério Público já havia evidências de crime financeiro.

Quais são os motivos que levam, ou podem levar, a uma liquidação? Primeiro, uma grave crise de liquidez. O banco enfrentava essa crise, tanto que recorreu às linhas de apoio e suporte do Fundo Garantidor de Crédito. Segundo, ter o balanço negativo. O balanço do Master tinha um enorme rombo e é isso que o leva a querer jogar essa batata quente para o BRB. Terceiro, desobediência às normas, regras e leis. Isso foi identificado pela fiscalização do Banco Central e levado às autoridades do Ministério Público.

Em setembro, já com os elementos da fiscalização em mãos, o BC decidiu negar a autorização para que o BRB comprasse o controle do Banco Master. Antes de a decisão ser comunicada, a Câmara dos Deputados colocou em pauta a possibilidade de impeachment de dirigentes do BC. Se foi uma tentativa de intimidação não funcionou. A negativa foi anunciada como havia sido planejado. Com a investigação da Polícia Federal bem adiantada foi deflagrada a operação que levou à prisão de Vorcaro. No mesmo dia o banco foi liquidado.

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CASO: BANCO MASTER

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Poucos ministros do STF, numa República, passariam por isentos para julgar sobre o Banco Master

Temos um surto de suspeição no Supremo, cujos juízes são frequentadores do empresariado com interesses no tribunal e protagonistas em investigações sobre esse empresariado

Deveria ser agente perturbador nacional a percepção de que poucos ministros do Supremo estão hoje aptos – como juízes, sob a República, se houvesse uma – a tratar de qualquer questão relativa ao Master. Não me refiro à aptidão formal, decidida por eles mesmos. Podem tudo, como se mede pelas licenças que se dão, palestrantes em eventos patrocinados pelo banco, dublês de juízes e empreendedores, cujos parentes advogam livremente no tribunal em que tomam decisões monocráticas.

Falo do que lhes dá credibilidade. Credibilidade impossível, se um, futuro relator, voa em jatinho com advogado de sujeito implicado na fraude; se o outro, salvador da pátria, frequenta a mansão do banqueiro fraudador; e se a esposa do salvador da pátria tem contrato milionário com o banco do banqueiro fraudador.

Esse contrato existiria, não fosse a senhora esposa do poderoso? Existiria, não fosse fluente no STF a advocacia de relacionamentos?

O contrato existe. Alexandre de Moraes o confirma quando, em uma das notas sobre as conversas com o presidente do BC, “esclarece que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco

Central”. A ver em que terá atuado, ou se seria necessário atuar. O contrato tinha como um dos objetos a defesa dos interesses do Master no BC. Não faltou, de todos os lados, quem defendesse os interesses do Master no BC.

Faltaram registros. Nem Moraes nem Gabriel Galípolo inscreveram em suas agendas oficiais as reuniões que tiveram. Ainda que o tema das conversas tivesse sido apenas a aplicação da Lei Magnitsky, espanta que se normalize ministro do Supremo falando informalmente com o presidente da autoridade monetária, pedindo-lhe assessoramento jurídico, à margem da mais mínima institucionalidade, como se fossem compadres.

Entre as várias lições da tão lembrada Lava Jato, um aprendizado parece seletivamente esquecido: o perigo da constituição de juiz-herói. Valia tudo pelo combate à corrupção. A causa atual – a defesa da democracia – tem autorizado as vistas grossas. Xandão só está em todo lugar porque opera o 8 de janeiro permanente; porque conseguiu fazer prosperar a crença de que o golpe está à espreita, de que toda a crítica contra si terá por intenção beneficiar o capeta.

Estamos aqui também, sob esse ambiente de intimidação escancarada, porque o PGR Alexandre de Moraes não quis investigar a denúncia de Eduardo Tagliaferro, alguém que Alexandre de Moraes, presidente do TSE, escolhera para trabalhar consigo. Denúncia de que o ministro, delegado-geral da República, teria encampado o poder de polícia do tribunal eleitoral e o instrumentalizado para, desde seu gabinete no STF, encomendar acusações e esquentar decisões já tomadas nos inquéritos xandônicos. Imputação gravíssima. Investigado, afinal, somente o denunciante, como se os grandes escândalos de Brasil não fossem disparados por tipos delatores como Pedro Collor, Roberto Jefferson etc. •

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LIVRAR VORCARO DO RISCO DE PRISÃO E DA DELAÇÃO É O SONHO DE POLÍTICOS E PODE SER OBJETIVO DA DEFESA

Alvaro Gribel, O Estado de S. Paulo

Estratégia pode ser questionar acusação de fraude pelo BC e alegar que houve apenas gestão temerária no Master

Muito mais do que tentar reverter a liquidação do Banco Master, o grande objetivo da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro pode ser livrá-lo do risco de prisão. Esse cenário também agradaria ao mundo político, porque implicaria reduzir a praticamente zero o risco de o banqueiro fazer uma delação premiada que exponha figuras autoridades do primeiro escalão de Brasília.

Por isso, o depoimento e a provável acareação marcada para esta terça-feira devem ser usados pela defesa de Vorcaro para contestar a alegação do Banco Central de que houve fraude no banco. É a constatação pelo BC de que houve gestão fraudulenta por parte de Vorcaro no Master que o levou à prisão. Esse crime é mais grave do que seria a gestão “temerária”, que também ocorre em casos de liquidação bancária, - ou seja, quando um gestor comete erros, mas não crimes, na condução do negócio.

Sem o risco de prisão, desaparece o risco de delação - e isso interessa a muita gente em Brasília. Assim, a estratégia será desqualificar o trabalho técnico do Banco Central, que apontou que houve R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado fraudadas pelo Master.

Quem acompanha supervisão bancária, por sua vez, entende como impossível que o BC tenha errado na avaliação da fraude e, por isso, a autoridade monetária deve levar para o depoimento uma série de documentos e dados que deixem tanto o STF quanto a defesa do banqueiro sem capacidade de questionamentos.

O receio do BC, por outro lado, é de que a condução do processo não seja técnico por parte do ministro Dias Toffoli que, até aqui, adotou uma série de medidas heterodoxas: decretou sigilo nas investigações, depois chamou para acareação um diretor do BC, o colocando em pé de igualdade com os seus investigados, e negou pedido da PGR para que recuasse. Toffoli, contudo, fez um leve recuo ao permitir, na última segunda-feira, que a decisão da acareação fique com uma delegada da PF.

A velocidade com que Toffoli tem tomado decisões também desperta atenção, com despachos durante o recesso judiciário. Chamou atenção o uso da expressão “sessão” de títulos, em resposta da uma petição do Banco Central, quando ele queria dizer “cessão” (ato de ceder). O deslize foi entendido como pressa por parte do magistrado, de um lado, e falta de familiaridade com o assunto supervisão bancária, de outro.

A defesa de Vorcaro queria que o ministro Nunes Marques fosse o relator do caso, mas o ministro Edson Fachin, presidente da Corte, negou o pedido e determinou o sorteio, que acabou com Toffoli. Até aqui, o banqueiro não tem do que reclamar sobre a condução do processo pelo magistrado. O BC, por seu turno, já teve seu caráter de guardião do sistema financeiro posto em xeque nesse episódio.

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VULGARIDADE COM DINHEIRO PÚBLICO

Jorge J. Okubaro, O Estado de S. Paulo

O que se espera é que, em 2026, a livre escolha dos brasileiros resulte numa representação parlamentar mais preocupada com o País

A gestão do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) na presidência da Câmara dos Deputados está sendo tão desastrosa que o principal responsável por sua eleição para o cargo (e seu antecessor), deputado Arthur Lira (PP-AL), registrou há dias: “Tem que reorganizar a Casa. Está uma esculhambação”. Ambos merecem a vulgaridade da expressão. Agem na política do modo vulgar com que usam o idioma. Aos dois deveria ser acrescentado o nome de Eduardo Cunha, atualmente filiado ao mesmo partido de Motta.

Algo mais os une. O período em que os três ocuparam a presidência da Câmara dos Deputados – Cunha (2015-2016), Lira (2021-2025) e Motta (atualmente) – foi marcado por sistemática redução da racionalidade do processo orçamentário, com a expansão das emendas parlamentares. Normalizada nas práticas do Legislativo, a vulgaridade das decisões do Congresso sobre o Orçamento da União assumiu proporções que ameaçam comprometer programas de governo. As emendas tornaram-se instrumento de pressão e chantagem política.

Há pouco, a maioria da Câmara e do Senado aprovou, com grande rapidez, o Orçamento da União para 2026, nele incluindo o valor de R$ 61,4 bilhões para as emendas parlamentares. Do total, o governo terá obrigatoriamente de liberar R$ 49,9 bilhões; os restantes R$ 11,5 bilhões serão pagos de acordo com a disposição do Executivo. Nunca as emendas ocuparam tanto espaço no Orçamento. Na proposta original, o governo havia reservado R$ 44 bilhões.

A festa das emendas parlamentares começou em 2015, quando o deputado Eduardo Cunha, à frente do Centrão e em disputa contra a enfraquecida presidente Dilma Rousseff (que sofreria o impeachment no ano seguinte), conseguiu que o Congresso aprovasse uma emenda constitucional tornando as emendas parlamentares impositivas. Emenda constitucional aprovada em 2019 (o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia, não foi o autor da iniciativa) criou as chamadas emendas Pix, uma modalidade de emenda individual por meio da qual parlamentares podem destinar recursos diretamente a Estados e municípios sem finalidade previamente definida (em 2024, o Supremo Tribunal Federal determinou a necessidade de um plano de trabalho para justificar o uso desse dinheiro).

Entre 2020 e 2022, boa parte do período com Lira na presidência da Câmara, o Congresso operou o chamado orçamento secreto, ou emendas do relator, mecanismo por meio do qual o relator do projeto de lei orçamentária tinha o direito de incluir emendas de caráter impositivo. No período em que foi utilizado, esse mecanismo consumiu R$ 54 bilhões. Por causa da pouca transparência sobre a destinação dos recursos, em dezembro de 2022 o STF proibiu o uso desse tipo de emenda. Cresceram, desde então, as chamadas emendas de comissão, mecanismo pelo qual as comissões temáticas permanentes do Congresso podem apresentar emendas. Recente tentativa de restabelecer as emendas secretas foi vetada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Se havia alguma razão nas queixas dos parlamentares de que a liberação das emendas era burocrática e dependia de longas negociações com o governo, a não obrigatoriedade da aplicação dos recursos permitia ao Executivo preservar um mínimo de coordenação na destinação dos recursos federais.

A proliferação das emendas parlamentares, além de ferir o artigo 165 da Constituição, que diz ser privativa do Executivo a iniciativa da lei orçamentária, agrava um defeito do processo orçamentário. Como as despesas obrigatórias crescem mais do que a arrecadação, a fatia dos recursos sobre os quais o governo tem controle, os chamados recursos discricionários, vai ficando cada vez mais fina. Para o Orçamento de 2026, a fatia livre soma R$ 190,2 bilhões, de um Orçamento de R$ 2.318,8 bilhões, ou apenas 8,2% do total (em 2025, representava 9,25%). É com essa fatia que o governo executa seus planos. As emendas vão tomar cerca de 33% dela no próximo exercício. Como emendas são distribuídas com base no interesse pessoal de seus autores, a pulverização compromete planos de interesse regional ou nacional.

Não por coincidência, o período de declínio do prestígio da Câmara coincide com o avanço das emendas parlamentares. Começa em 2015, na presidência de Eduardo Cunha. Responsável pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, Cunha teve seu mandato cassado por quebra de decoro parlamentar em setembro de 2016, por 450 votos a 10. Atualmente, articula seu retorno à política. Seus sucessores na presidência persistiram com competência no trabalho de corrosão da respeitabilidade da Casa.

Não são poucos os que dizem ser este talvez o pior Congresso desde o fim da ditadura militar. O fato é que o Congresso é escolhido pelos eleitores. O que se espera é que, em 2026, a livre escolha dos brasileiros resulte numa representação parlamentar mais preocupada com o País do que com interesses pessoais dos eleitos.

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OS DEUSES QUE NIETZSCHE NÃO MATOU

Cláudio Carraly*, Democracia Política

"Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar"

— Caetano Veloso, Milagres do Povo

Há coisas que, à primeira vista, não deveriam coexistir. Marxista e crente. Materialista histórico e pessoa de fé. Militante comunista desde os 14 anos e alguém que sempre acreditou que o mundo guarda mistérios que escapam ao olhar. O mundo esperava, às vezes exigia que eu escolhesse um lado. Ateu, agnóstico, no mínimo um antirreligioso. Era o roteiro esperado de quem carregava Marx no peito desde tão cedo. Mas a vida não lê roteiros.

Cresci em uma família kardecista, uma das mais antigas a professar essa fé em Pernambuco. Fui criado também pela mão firme e doce de uma incrível mulher da umbanda. Essas presenças não eram ornamentos da infância, eram universos. Eram modos de sentir, de intuir, de perceber que existe algo além do que as estruturas materiais conseguem me explicar. Não contra elas. Mas além. Um pouco além. Muito mais além.

"Quem é ateu e viu milagres como eu sabe que os deuses sem Deus não cessam de brotar". Eles brotavam na mesa de passes, nos pontos cantados, nas histórias que formaram meu imaginário. Inúmeros deuses que Nietzsche não matou, que o materialismo não apagou. Divindades que insistiam em existir porque eram do povo, nascidos da necessidade humana de beleza, sentido e transcendência, porque a vida não basta em si mesma.

Marx tinha razão sobre muita coisa. Sobre como as condições materiais moldam a consciência, sobre como a religião pode funcionar como ópio e funciona, em inúmeros contextos históricos, sobre a necessidade urgente de transformar o mundo em vez de apenas interpretá-lo ou consolá-lo.

Mas Marx operava com uma antropologia incompleta. Ele partiu da premissa de que as contradições da humanidade eram causadas apenas pelas questões materiais, sociais e de classe. Seu prognóstico era claro: com a transformação das condições materiais, a necessidade da religião desapareceria. A consciência religiosa era, na sua visão, superestrutura, reflexo ideológico de misérias concretas. Resolvidas essas misérias, a religião definharia naturalmente.

O que Marx não viu, ou não quis ver, é que a necessidade de transcendência não é privilégio dos oprimidos nem compensação exclusiva dos miseráveis. Ela atravessa todas as classes. O direito, a capacidade, a necessidade de crer ou não crer é uma negociação interna de cada ser humano no planeta. É algo interno, não externo. Não se dissolve com a redistribuição dos meios de produção.

A angústia metafísica não é falsa consciência. O espanto diante do mistério da existência por que há algo em vez de nada? Não é ideologia de classe. A experiência do sagrado não desaparece quando o estômago está cheio e a jornada de trabalho é justa.

Marx confundiu a forma histórica que a religião assume (e que pode, de fato, ser alienante, opressora, legitimadora da injustiça) com a dimensão antropológica da religiosidade, essa abertura humana ao que está além do calculável, do mensurável, do puramente material.

E aí reside minha divergência com o materialismo ortodoxo: posso aceitar toda a crítica estrutural marxista, toda a análise das relações de produção, toda a denúncia da exploração de classe, e ainda assim reconhecer que o ser humano não se esgota na dimensão histórico-econômica. Há algo no humano que continua perguntando "e agora? Para que tudo isso?" Mesmo quando as necessidades materiais estão atendidas. Essas perguntas não são alienação. São sinais de que somos mais complexos do que qualquer materialismo consegue capturar.

Veio então a curiosidade, aquela fome de quem quer compreender tudo, a busca pelo que passava pela alma da humanidade, o que tocava cada um que habitava esse plano como eu. Então li: hinduísmo, islamismo, confucionismo, budismo, zoroastrismo, xamanismo. Eu devorava religiões como quem tenta montar um quebra-cabeça impossível, procurando as bordas do mistério, os pontos de confluência e os de separação, buscava onde estava a centelha compartilhada em cada filosofia, o que animava nossa existência.

Mas havia um lugar para onde eu sempre voltava, um ponto de gravidade, podemos dizer que meu marco zero nos estudos: o judaísmo. De lá normalmente minhas jornadas partiam e para onde retornavam. E não estava sozinho nessa viagem.

Walter Benjamin entrelaçou materialismo histórico e messianismo judaico numa filosofia da história que via na redenção a interrupção revolucionária do tempo capitalista. Ernst Bloch escreveu sobre a esperança como princípio tanto da utopia marxista quanto da profecia religiosa. Erich Fromm mostrou que a ética judaica e o humanismo socialista bebem da mesma fonte: a dignidade radical de cada ser humano.

Não eram homens que abandonaram Marx para encontrar Deus, nem que traíram a fé para abraçar a revolução. Eram homens que perceberam que justiça social e profecia, luta de classes e reparação do mundo, crítica e transcendência podiam, talvez precisassem, caminhar juntas.

O judaísmo sempre denunciou a opressão, sempre gritou contra a injustiça, sempre exigiu cuidado com o estrangeiro, a viúva, o órfão. Não é coincidência que tantos revolucionários tenham vindo de famílias judaicas: há nessa tradição um imperativo ético de responsabilidade coletiva.

E é isso que respondo ao Marx ortodoxo que me acusaria de consolação burguesa: o judaísmo que pratico não é o que anestesia, não é o que promete céu em troca de resignação terrena. É o judaísmo profético, o que empurra para dentro da história, não para fora dela. É a fé que exige justiça agora, que não aceita exploração como vontade divina, que vê no tikun olam – reparação do mundo – não uma promessa para depois da morte, mas um imperativo para hoje.

Essa espiritualidade não compete com o marxismo. Ela o alimenta com combustível moral, com memória dos oprimidos, com recusa ética que vem de mais fundo que a análise econômica.

E então o destino me fez me reencontrar com ela, minha futura rabina, e hoje meu amor.

Foi como se todas as versões de mim, o militante, o buscador espiritual, o menino criado entre passes e guias, o homem que lia "O Estado e a Revolução", finalmente se encontrassem e reconhecessem que sempre foram partes de um mesmo ser. Complexo, sim. Contraditório, também. Mas pela primeira vez, inteiro.

Ela me ajudou a ver que eu podia ser tudo isso. Aliás, que eu sempre fui isso. Que a contradição não era um problema a ser resolvido, mas um território a ser ainda mais explorado. Minha visão multilateral também a ajudou a melhor compreender a maravilha da diversidade humana.

Me ensina que pertencer não significa fechar portas. Que encontrar novas moradas não exige negar o que nos moldou, seja os orixás que me encantam ou Gramsci que ajudou a libertar minha alma.

Construímos juntos uma forma de viver onde marxismo e judaísmo não competem, mas dialogam. Onde ela, como rabina, traz a profundidade da tradição que carrega milênios de sabedoria sobre justiça e compaixão. E onde eu trago a urgência revolucionária, a análise das estruturas, a recusa em aceitar que pobreza e opressão sejam naturais ou inevitáveis.

Nossas conversas são tessituras. Ela me lembra que transformação social sem dignidade humana vira autoritarismo. Eu a lembro que dignidade sem justiça material é privilégio de quem pode pagar por ela. Juntos, tentamos construir um pensamento que não mutile nenhuma dimensão do humano.

"E o coração — soberano e senhor — não cabe na escravidão, não cabe no seu não."

Não cabe em nenhuma ortodoxia que me obrigue a ser menos do que sou. O coração soberano insiste em ser inteiro. Acende velas no Shabat sem rasgar minha carteirinha do partido. Estuda Torá sem esquecer a mais-valia. Frequenta a sinagoga sabendo que religião pode ser ópio, mas também pode ser profecia, resistência, memória subversiva de quem nunca aceitou a escravidão e opressão.

Não abandonei nada. Integrei tudo. Corpo, mente e alma reunidos em uma só pessoa.

Posso ser comunista sem perder o assombro diante do mistério. Posso ser religioso sem ignorar as estruturas materiais de dominação. Justiça social e vida espiritual não são inimigas, são aliadas na caminhada rumo a um mundo reparado.

Somos felizes. Plenos. Nossa vida tem espaço para tudo: para a crítica social e para as bênçãos, para a análise materialista e para o transcendente. Tem espaço para a complexidade, para a contradição criativa, para a tensão que não precisa virar síntese muito menos uma antítese forçada.

Há uma sabedoria que só vem de quem já tentou caber em caixas estreitas e desistiu. De quem viveu o suficiente para saber que a realidade é mais vasta que qualquer ortodoxia. De quem amou o suficiente para entender que a verdade não é propriedade privada, é algo que se compartilha, que circula, que se revela de modos diferentes em tradições diversas.

O kardecismo me ensinou continuidade. A umbanda me mostrou força ancestral e que os orixás são reais para quem deles precisa. O marxismo me deu ferramentas para enxergar dominação e combatê-la. O judaísmo me ofereceu comunidade, memória, esperança.

E minha trajetória me ensinou que eu não precisava escolher entre esses tesouros. Que eu podia, que eu devia carregá-los todos comigo.

"Os deuses sem Deus não cessam de brotar, nem cansam de esperar."

Esperam que entendamos que não é preciso matar a transcendência para fazer a revolução. Que não é preciso negar a matéria para acessar o espírito. Que podemos ser inteiros, complexos, contraditórios e, por isso mesmo, mais sábios.

Estamos em casa, minha rabina e eu. Uma casa com lugar para todas as minhas contradições, para todos os meus mundos, para todas minhas fés. Uma casa onde um militante comunista e uma judia acendem velas no Chanucá em perfeita comunhão. Onde o materialismo dialético e a crença no sagrado conversam, discutem, dançam, bebem, celebram. Uma casa onde não peço desculpas por ter visto milagres. Onde não nego que os deuses brotam, teimosos e necessários, do coração de cada um de nós.

Onde a luta de classes e a reparação do mundo são faces da mesma esperança e lados da mesma moeda.

Somos matéria e espírito. Estrutura e desejo. História e transcendência. Marx e Moisés. A crítica que desmascara ilusões e a fé que insiste que o mundo pode ser mais mágico, mais justo, e muito mais humano.

Sim somos muito complexos, bastante complicados, mas enfim agora, só um pouquinho mais sábios. E estamos em casa!

*Cláudio Carraly, advogado, ex-Secretário Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

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PROFECIAS ELEITORAIS NÃO RESISTEM À REALIDADE

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Os anos de eleição começam cheios de previsões, quase sempre desmentidas pelo inesperado dos fatos

As surpresas acompanham nossas disputas presidenciais desde a primeira delas na nova era democrática

Ano eleitoral é sempre cheio de prognósticos, assim como será o de 2026 prestes a começar. Previsões quase sempre desmentidas pelos fatos, carrascos da reputação de adivinhos.

Alguns desses desmentidos acompanham as eleições presidenciais desde a primeira da nova era democrática.

Quem, em janeiro de 1989, cravaria que em dezembro a batalha final seria travada entre dois novatos no meio de duas dezenas de candidatos experientes tanto nas lides da ditadura quanto na trincheira de oposição ao regime?

Fernando Collor (PRN) bateu Luiz Inácio Lula da Silva (PT), deixando no ora veja gente como Ulysses Guimarães (PMDB), Mário Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS), Leonel Brizola (PDT) e mais 16 outros concorrentes.

Cinco anos e um impeachment depois, em 1994 seria eleito o ministro da Fazenda que no início daquele ano tinha dúvida se conseguiria se eleger deputado federal. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) começou a campanha com ínfimos índices de intenção de votos nas pesquisas e ganhou de Lula no primeiro turno.

FHC repetiria o feito em 1998, mas não conseguiria emplacar o sucessor. O ano de 2002 se iniciou com apostas em Roseana Sarney (PFL), cuja candidatura derreteu junto com a exibição de fotos de dinheiro apreendido no escritório do marido.

José Serra (PSDB) seria, então, o favorito, mas o petista virou o jogo sob os auspícios da Carta ao Povo Brasileiro e da repaginada "Lulinha paz e amor", obras de Antonio Palocci e Duda Mendonça.

No rebuliço político do mensalão, a reeleição de Lula parecia impossível, mas ele não apenas conseguiu (2006) como elegeu (2010) e reelegeu Dilma Rousseff (PT). Nada, em 2014, indicava que ela seria impedida em 2016.

E a virada da direita em 2018, a bordo de um deputado do baixo clero? No início do ano, Jair Bolsonaro (PSL) era piada, o centro ainda apostava em Aécio Neves (PSDB) e ninguém sonhava que Lula seria preso para em 2022 voltar ao poder.

Como se vê, vaticínios na política são produtos perecíveis.

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COM ACENOS A EVANGÉLICOS, EDUARDO PAES JOGA PARADO PARA GANHAR A PARTIDA

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Apostas eleitorais da direita e da extrema direita não conseguem se firmar

Escândalos de corrupção e favorecimento ao crime organizado sepultam candidaturas

"Cai o rei de espadas/ Cai o rei de ouros/ Cai o rei de paus/ Cai, não fica nada". Os versos da canção "Cartomante", de Vitor Martins e Ivan Lins, sucesso na voz de Elis Regina, descrevem a crise política em que o Rio de Janeiro está mergulhado, com a elite do Executivo e do Legislativo envolvida em escândalos de corrupção e favorecimento ao crime organizado.

Direita e extrema direita andam perdidas no lamaçal, sem saber como se posicionar para as eleições de 2026. Os possíveis candidatos ao governo e ao Senado estão caindo como moscas, com risco de não ficar ninguém com expressão na disputa.

A prisão do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar implodiu o esquema armado para que ele fosse o sucessor de Cláudio Castro. Nome preferido da família Bolsonaro, já encrencado com a Lei da Ficha Limpa, Washington Reis surgiu como opção, mas, na semana passada, ele foi condenado a três anos de prisão por fraude imobiliária em Duque de Caxias. A indecisão abre uma brecha para missioneiros, influencers e outsiders, entre os quais o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, que inspirou o personagem capitão Nascimento, do filme "Tropa de Elite".

Eduardo Paes joga parado, fazendo acenos nas redes sociais ao eleitor evangélico. Antes mesmo de iniciar a campanha, está em vantagem no jogo. Não será surpresa que grupos fisiológicos ligados ao governador e prefeitos de cidades do interior passem a apoiar Paes, havendo ou não uma aliança com Cláudio Castro. Este aguarda uma decisão do TSE sobre pedidos de cassação e inelegibilidade por abuso de poder político e econômico na campanha à reeleição, em 2022, para definir sua candidatura ao Senado.

Com o anúncio da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, os deputados federais Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy se animaram a concorrer ao Senado. O sonho, porém, durou poucos dias, desfeito com a operação da Polícia Federal que investiga os dois parlamentares por desvio de recursos públicos. A aposta agora é o deputado Hélio Lopes, bolsonarista núcleo duro.

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UMA QUESTÃO DE EGO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Com Trump, ego presidencial é tão decisivo quanto interesses do país para definir política externa dos EUA

Ações do novo inquilino da Casa Branca já fizeram ordem internacional regredir mais de um século

O problema de os EUA terem se tornado uma republiqueta é que ficou mais difícil prever como a principal potência econômica e militar do planeta se comportará no plano internacional.

Até não muito tempo atrás, presidentes americanos perseguiam aquilo que identificavam como interesses do país, que eram mais ou menos conhecidos. Com Trump 2, o jogo mudou. Hoje, um dos principais fatores a determinar a política externa dos EUA é o ego do presidente, que é volúvel e caprichoso.

Em algum grau, a personalidade de um líder sempre conforma suas ações. Dá até para afirmar que democracias têm um problema de seleção adversa, já que o próprio sistema eleitoral favorece a assunção de governantes de ego mais inflado enquanto a boa administração exigiria figuras menos cheias de si, capazes de reconhecer erros e abandonar ideias favoritas à medida que recebam novas informações.

Os níveis egoicos de Trump, porém, não estão no padrão dos de líderes democráticos mas sim no de ditadores. Talvez até no de tiranos ensandecidos, como Idi Amin Dada, que se fazia chamar "senhor de todos os animais da terra e peixes dos mares".

Multiplicam-se os sinais de que Trump entrou com tudo no ramo do culto à personalidade. Ele acaba de incorporar seu nome ao Kennedy Center for the Performing Arts, que passou a chamar-se Trump Kennedy Center, e anunciou que a Marinha vai desenvolver a classe Trump de belonaves. Um navio é pouco, ele quer uma classe inteira.

O personalismo não funciona sempre para o mal. Em sua campanha pelo Nobel da Paz, Trump forçou Israel a suspender a carnificina em Gaza e mediou alguns cessar-fogos mundo afora.

Os pontos positivos, porém, nem de longe compensam o estrago que ele causou à ordem internacional, que regrediu uns cem anos. A ideia de um mundo pautado por regras que valem para todos e no qual as diferenças são resolvidas pela diplomacia e não pela força, que nunca chegou a ser plenamente implementada, hoje parece menos do que um sonho distante.

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STF CORRE RISCO COM O CASO DO BANCO MASTER

Artigo de Fernando Gabeira

Essa história do Banco Master e do STF atravessará o ano. Posso deixar de lado os detalhes e me concentrar agora num tema mais abstrato. Olhando para trás, constato que a Operação Lava-Jato desmoralizou a política e contribuiu para a ascensão de uma proposta radical de direita. O que aconteceria se os fatos de agora levassem à desmoralização da Justiça, principalmente do Supremo?

Imagino que estejam preocupados com isso alguns dos milhares que pedem um código de conduta para o STF. A partir de um conjunto de regras claras ficaria mais difícil transgredir e estaria construída, mesmo independentemente delas, uma forte blindagem para um organismo que dá a última palavra em todas as nossas questões.

É uma boa ideia, que une o atual presidente do STF, juristas e uma esclarecida parcela da opinião pública. No entanto ela seria mais eficaz se criasse um órgão independente para fiscalizar e punir as transgressões ao Código de Conduta. Mais eficaz ainda seria recuperar o trecho do artigo 144 do Código de Processo Civil, derrubado pelo próprio Supremo, que dizia que o juiz ficaria impedido de julgar um processo quando a parte for cliente de escritório de advocacia em que atua o cônjuge, companheiro ou parente do magistrado — mesmo que esse advogado não esteja no processo principal. A julgar pela história recente, aí está o grande problema, bem maior que viagens ou festas no exterior bancadas por empresas interessadas em processos que correm na Corte.

O famoso inquérito das fake news, que produziu uma investigação interminável, nasceu do problema de parentes. A Receita investigava as contas da mulher de Gilmar Mendes e as da mulher de Dias Toffoli. Vazaram notícias sobre o tema. Toffoli, que era o presidente na época, designou Moraes para conduzir o inquérito. Lembro que na época censuraram a revista Crusoé e escrevi um artigo protestando.

O problema agora se repete não mais apenas com Toffoli, que perdeu completamente a noção, perdoando dívidas bilionárias e viajando de graça para toda parte, até com advogados do Banco Master para assistir à final da Libertadores. Agora o foco é Alexandre de Moraes, cuja mulher tinha um contrato ao redor de R$ 130 milhões com o Master. Ele é acusado de tentar intervir junto ao Banco Central para evitar a liquidação. Se, alguns anos atrás, Moraes assumiu um inquérito para salvar a mulher de Gilmar e a de Toffoli da fiscalização da Receita, agora é Toffoli que assume o inquérito do Banco Master e, certamente, fará muitas acrobacias, pois perdeu completamente o sentido do razoável.

Os políticos se perderam no Brasil não apenas porque precisavam de dinheiro para suas campanhas. Isso foi apenas o ponto de partida. Eles se perderam por causa da ganância. Curiosamente, o jornal alemão Handelsblatt afirma, numa reportagem sobre o Supremo brasileiro, que os juízes se perderam por causa da ganância. É difícil acreditar na tese de que a ganância arruinou a política e a Justiça em nosso país. Isso significaria que nossa história é medíocre, previsível e vulgar. Seria devastador para todos nós que passamos parte do tempo tentando entendê-la e analisá-la.

As viradas de ano podem trazer surpresas e boas notícias. No campo político, a esteira de escândalos fechou melancolicamente 2025.

Artigo publicado no jornal O Globo em 30 / 12 / 2025

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

DEMOCRACIA BRASILEIRA MOSTRA RESILIÊNCIA EM MEIO À FICÇÃO ENTRE PODERES

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não prosperou porque não houve adesão do Congresso, chancela do Judiciário e apoio das Forças Armadas, apesar dos atritos entre Executivo, Legislativo e Judiciário

Sem grandes ilusões, o Brasil irá às urnas em 2026, provavelmente polarizado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com sua “economia do afeto”, como diria o historiador Alberto Aggio (A Construção da Democracia no Brasil 1985-2025, editora Annablume e Fundação Astrojildo Pereira-FAP), e o candidato apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que está convalescendo de uma cirurgia e deve voltar a cumprir pena em regime fechado.

Segundo as pesquisas, a maioria dos eleitores está com cansaço, desconfiança e tédio, mas não deixará de votar. Isso não é pouco: a democracia brasileira hoje não promete felicidade cívica, promete apenas evitar o pior pelo simples fato de que existe. Essa polarização parece inexorável, mesmo que as forças de centro-direita consigam remover a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e/ou lançar um candidato de direita que empolgue os eleitores.

Talvez seja pouco para entusiasmar; no mundo em que vivemos, porém, é muito para preservar. Diante desse cenário, nos resta compreender melhor como foi que chegamos até aqui. O ano de 2025 nos deixa em estado de perplexidade. De um lado, o regime democrático não colapsou, graças à Constituição de 1988, apesar de ter sido submetido a choques sucessivos que, em outros momentos de nossa história, teriam resultado em golpes de Estado. De outro, há evidente mal-estar social, fadiga eleitoral e descrença na política como espaço de participação da sociedade e solução dos problemas do país.

A resiliência

Esse paradoxo se explica, também, pelo funcionamento imperfeito, conflitivo e frequentemente disfuncional do sistema de freios e contrapesos entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Um sistema que não produziu harmonia neste ano, mas fricção renitente. Essa fricção é visível a olho nu, mas impediu a captura integral do Estado por um único ator, partido, facção ou liderança carismática. A democracia brasileira não se salvou apesar do conflito entre os Poderes; por ironia, salvou-se por causa dele. Os principais fatos ocorridos no decorrer deste ano mostram isso.

A tentativa de ruptura institucional associada ao 8 de Janeiro não prosperou porque as instituições não se alinharam. Não houve adesão do Congresso, não houve chancela do Judiciário, não houve apoio formal das Forças Armadas enquanto instituição. A democracia resistiu porque o sistema não funcionou em bloco, mas em desacordo, por todo o governo Bolsonaro. E graças a isso, depois, os envolvidos no golpe foram processados, condenados e já estão cumprindo pena.

Nesse aspecto, a condenação de oficiais de alta patente por crimes contra a ordem democrática é um marco histórico. Pela primeira vez desde a redemocratização, rompeu-se a lógica da tutela militar informal sobre a política. Sob supervisão do Supremo Tribunal Federal (STF), com amplo direito de defesa, o processo fortaleceu o Estado democrático.

O mal-estar

Agora, o maior problema é que essa fricção, que explica o equilíbrio desarmonioso entre os Poderes, pode ser tornar um fator de risco sistêmico da ordem democrática, que somente sobreviveu pela resiliência das suas instituições, principalmente o Supremo e o Congresso, que agora estão sob desgaste “desde dentro”. Vem daí o grande mal-estar da sociedade com a política brasileira. Se a resiliência explica a sobrevivência do regime, a fricção explica esse mal-estar. Alguma coisa está fora da ordem: presidentes recentes, sobretudo Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, tiveram quase metade de seus vetos derrubados, contra índices residuais em governos anteriores, como os de Fernando Henrique Cardoso.

Não se trata apenas de presidentes minoritários, houve uma mudança estrutural no equilíbrio de forças, com o Legislativo institucionalizando a ampliação momentânea de poder que obteve em momentos de crise. Há uma crise de liderança política, fratura do tecido social e falta de consenso político amplo sobre o caminho a seguir pelo país. O Executivo governa sem programa consistente, sustentado por alianças fragmentadas e negociações ad hoc. O presidente Lula é forte contra a extrema-direita e fraco como articulador de consensos estruturantes, o que aprofunda a dependência do Executivo ao fisiologismo parlamentar.

Outro fator de fricção permanente é o exagerado protagonismo do STF na cena política. A Corte salvaguardou a ordem constitucional, no entanto gerou um efeito colateral: a transferência recorrente de decisões políticas para o foro judicial. Isso enfraquece a representação, vicia o processo político e alimenta a narrativa antipolítica que corrói o sistema democrático a partir da descrença nas suas instituições.

As eleições

A verdade é que o bolsonarismo permanece como força política ativa, é um fenômeno do nosso tempo, que reflete um ciclo longo de fortalecimento da extrema-direita no mundo, sobretudo após a volta do presidente Donald Trump à Casa Branca. Mesmo com Jair Bolsonaro condenado e preso, o campo político que lidera segue mobilizado, cria fatos, tensiona instituições e mantém viva a lógica plebiscitária do “inimigo interno”. A democracia resiste, mas paga o preço da radicalização permanente do “nós contra eles”, retroalimentado pela “cultura de rechaço” do PT, que cresce nesses confrontos, como assinala Aggio em sua síntese sobre os 40 anos de redemocratização.

Entretanto, é inegável que a maioria do eleitorado derivou à direita nas questões ambiental, distributiva e ética. Mesmo com a leviandade com que se aprovam emendas constitucionais no Congresso, a Constituição de 1988 permanece progressista. Temos uma democracia de massas. Esse descompasso gera um desconforto constitucional. Por isso, estamos entrando num novo processo eleitoral, com uma ordem política exausta e simbolicamente empobrecida, apesar de sua estratégica resiliência como sistema.

Será difícil o eleitor entrar em 2026 com entusiasmo e convicção, pois é movido por um medo binário, de retorno do autoritarismo e do colapso institucional. Esse binarismo se retroalimenta e é paralisante. Cada movimento de um dos polos legitima o outro. Programas importam menos que narrativas. A política deixa de ser escolha e passa a ser defesa. Ainda assim, o sistema aguenta. “E la nave va!”.

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PESSOAS QUE RESPEITAM E QUE CORROMPEM INSTITUIÇÕES

Bruno Carazza, Valor Econômico

Caso do Banco Master confirma que instituições não são suficientes para preservar a democracia e evitar a corrupção

Muitos atribuem à força das nossas instituições a razão por que a democracia brasileira sobreviveu diante da tentativa de golpe bolsonarista. Segundo essa interpretação, a postura firme do Supremo Tribunal Federal na reação ao 8 de janeiro e a decisão das Forças Armadas de não embarcarem na aventura golpista foram fundamentais para o malogro da séria ameaça autocrática que sofremos.

Quem discorda dessa tese aponta que o desfecho da história seria completamente diferente se Alexandre de Moraes não estivesse na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, ou se o general Freire Gomes e o brigadeiro Baptista Júnior tivessem aderido aos planos de Bolsonaro tal qual seu colega, o almirante Almir Garnier Santos.

Instituições também podem atuar contra o interesse público quando conduzidas por pessoas a serviço de determinado projeto de poder - que o digam o Ministério Público sob o comando de Augusto Aras, a Polícia Federal com a chefia de Anderson Torres e a Polícia Rodoviária Federal tendo à frente o fujão Silvinei Vasques.

Pessoas, portanto, importam tanto quanto as instituições. É preciso cuidado, porém, com os salvadores da pátria. Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, no auge da Lava Jato, surgiram como a personificação da defesa da ética pública no país. Depois que colocaram seus projetos políticos à frente da atuação como juiz e procurador e a Vaza Jato revelou os abusos na condução dos processos, eles deram motivo para um retrocesso institucional de décadas no combate à corrupção no Brasil.

O caso do Banco Master é mais um exemplo de como instituições podem agir contra ou a favor do interesse público, a depender da postura de suas lideranças.

A despeito de algumas falhas na busca de uma solução de mercado para os problemas de solvência do banco de Daniel Vorcaro (como uma reunião com a nata dos banqueiros brasileiros num final de semana, sem registro na agenda oficial), a condução de Gabriel Galípolo e dos diretores Ailton de Aquino (fiscalização) e Renato Gomes (organização do sistema financeiro) seguiu o manual: analisaram a proposta de compra pelo BRB, identificaram graves indícios de fraude, reprovaram a operação e, após acionar a Polícia Federal, decretaram a liquidação do banco antes que ela contaminasse todo o sistema financeiro. E tudo isso debaixo de intensa pressão política, como se espera de um órgão que detém independência funcional.

Do outro lado, temos uma intensa operação de agentes públicos colocando instituições para trabalhar a serviço de interesses privados. O medo de que os vínculos entre Vorcaro e a elite política brasileira se tornassem públicos, num escândalo de proporções incalculáveis, tem mobilizado diversas ações nada republicanas.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), mobilizou seu banco estatal para salvar o Master, promovendo operações suspeitas de mais de R$ 12 bilhões - em termos comparativos, o Departamento de Justiça americano apurou na Lava Jato que a Odebrecht teria pagado US$ 1,137 bilhão em propinas no Brasil e em outros 12 países, o que dá R$ 6,3 bilhões na cotação atual.

Houve também a tentativa de líderes do Centrão, tendo à frente o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), que tentaram aprovar projeto que autorizava o Congresso a destituir diretores do Banco Central como forma de pressão pela aprovação da compra do Master pelo BRB. Vários políticos comandam fundos de pensão estatais que tiveram prejuízos bilionários com a falência do banco.

A remessa do processo do Master para o STF expôs conflitos éticos e comportamento antirrepublicanos que há muito contaminam essa corte.

A dúvida se Alexandre de Moraes pressionou ou não Gabriel Galípolo por uma solução para o caso muda totalmente de dimensão quando se descobre que o escritório de sua esposa e filhos possuía um contrato de R$ 129 milhões com o banco Master.

Já a condução de Dias Toffoli na relatoria do processo criminal, que já havia sido manchada pela notícia da carona num jatinho privado com o advogado de um dos sócios do banco, gera suspeita ainda maior com a decretação do sigilo total sobre o processo e a determinação de uma acareação totalmente ilegal entre Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de fiscalização do Bacen, Ailton de Aquino. Acareação a portas fechadas, sem ouvir previamente as partes e testemunhas não é procedimento criminal - é bullying contra o servidor do Banco Central. Há o receio, inclusive, que Toffoli cancele a liquidação extrajudicial do Master.

Como se não bastasse, o ministro Jhonatan de Jesus, ex-deputado indicado pelo Centrão para ser ministro do TCU, também se juntou à pressão institucional, abrindo outro processo sigiloso para investigar a conduta da diretoria do Bacen.

Meu desejo para 2026 é que saibamos colocar as nossas preferências ideológicas de lado e saibamos identificar e condenar esses agentes públicos que direcionam as instituições para defender interesses políticos, econômicos e até pessoais.

Feliz ano novo a todos os leitores.

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O BRASIL DA ESPERANÇA

Irapuã Santana, O Globo

Enquanto o poder se isola, pessoas comuns usam o brilho da inteligência para resolver o que o Estado ignora

Nos últimos anos, as notícias têm jogado na nossa frente um Brasil de privilégios, em que alguns são mais iguais que os outros. São casos que mostram a completa ausência de ética, moralidade e vergonha por parte de nossas autoridades, de todos os espectros políticos, revelando que a República, de fato, nunca existiu no país. Mas nossa nação não é feita apenas disso. Na verdade, nosso povo é feito de luta e solidariedade, e o dia a dia do Brasil profundo, aquele real, mostra isso.

É nesse Brasil real, longe dos gabinetes de Brasília e dos privilégios de castas, que a verdadeira inovação e a decência florescem. Enquanto o poder se isola, pessoas comuns usam o brilho da inteligência para resolver o que o Estado ignora.

Temos o exemplo de Lennon Medeiros, na Baixada Fluminense. Ele não esperou por verbas que nunca chegam ou por promessas de campanha para proteger seu povo e, usando inteligência artificial e dados, criou soluções de monitoramento para salvar vidas em áreas de risco de desabamento. É a tecnologia de ponta servindo à periferia, provando que a segurança não precisa de autoridade, precisa de compromisso com o próximo.

No Maranhão, encontramos a força de Karina Penha. Num país que muitas vezes vira as costas a suas raízes, ela levantou a voz das quebradeiras de coco-babaçu. Sua luta não se encerra no meio ambiente e segue em busca da dignidade econômica de quem vive da terra, transformando o saber ancestral em modelo de negócio justo e sustentável, mostrando que a verdadeira riqueza do Brasil não está no extrativismo predatório, mas na proteção das nossas comunidades.

Além disso, há o brilho de Anna Luísa Beserra, que, olhando para a sede secular do sertanejo, decidiu que a solução viria do céu. Com o Aqualuz, ela usa a luz do sol (maior recurso do nosso Nordeste) para purificar água e levar saúde a famílias esquecidas pelas políticas públicas. É a ciência brasileira, jovem e feminina, resolvendo com simplicidade o que décadas de burocracia não quiseram resolver.

Lennon, Karina e Anna Luísa são o Brasil que já deu certo. E, como eles, outros tantos fazem de sua energia um instrumento de mudança para seus pares e suas comunidades. São a prova de que, enquanto a “República” oficial falha, a Nação Brasileira resiste e cria.

Não somos um povo da letargia, somos um grupo que sorri, apesar das adversidades, acreditando sempre num futuro melhor. Não somos um algoritmo que repercute apenas coisas ruins, mas gente que levanta e arregaça as mangas, construindo escadas e desbravando caminhos para quem vem depois passar com mais calma e estabilidade.

Se olharmos para trás, apesar de tudo, seguimos avançando. Então, proponho que olhemos para o copo meio cheio. Todas as informações negativas, há alguns anos, jamais viriam à tona e tudo seguiria sendo feito no escuro. Interpretemos todos esses escândalos como luzes, sob as quais, para limpar a sujeira, primeiramente precisamos enxergar.

Tenhamos a certeza de que nossa esperança para 2026 não reside em quem ocupa o trono, mas em quem coloca a mão na massa. O Brasil real é nosso, e é por causa de todos nós que ainda vale a pena acreditar.

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RISCOS EXTREMOS EM 2026

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

Apostas arriscadas à esquerda e à direita vão definir a política em 2026

Grupos trabalham para próxima eleição repetir o clima de polarização extrema e, mais uma vez, sufocar o espaço do centro político

O ano que se aproxima promete ser decisivo para algumas apostas arriscadas na política. No Brasil, existe um esforço evidente, à esquerda e à direita, para recriar o clima de polarização extrema que definiu a eleição presidencial de 2022 e desaguou nos eventos de aspiração golpista após a vitória de Lula. O que se quer, para o pleito de 2026, é mais uma vez sufocar o espaço do centro político.

Para a esquerda lulista, que está no poder e pretende mantê-lo, isso pode parecer uma boa estratégia, mas carrega o risco de, em reação, dar novo fôlego a uma militância bolsonarista que vem murchando desde o início do périplo criminal do ex-presidente Jair Bolsonaro. A reação irracional da esquerda às denúncias contra a atuação para lá de suspeita de ministros do STF é outro exemplo de como a aposta na polarização é arriscada. Interessa mesmo ao governo do PT conviver por mais quatro anos, se reeleito, com um Supremo cada vez mais fora de controle?

A outra aposta de alto risco consiste em marchar teimosamente em direção ao abismo do desequilíbrio fiscal, de mãos dadas com um Congresso sedento por emendas bilionárias. Os efeitos da dívida pública galopante já se fazem sentir de diversas formas, inclusive na resistência do Banco Central em reduzir os juros. Em ano eleitoral, o crescimento mais lento da renda dos mais pobres pode acabar anulando o impacto de benefícios desenhados para atrair votos.

Já a direita bolsonarista caiu na armadilha do personalismo. Condenado e preso, Bolsonaro se deixou dominar pela paranoia e insiste em ter o seu sobrenome nas urnas, apostando no filho Flávio como sucessor. Este vangloriou-se de ser um Bolsonaro “moderado”, mas logo buscou os préstimos do influenciador Pablo Marçal, que incendiou e vulgarizou a eleição para a prefeitura de São Paulo em 2024. Por aí se vê o tipo de campanha que teremos em 2026.

Se Flávio for derrotado, arrisca-se a esvaziar ainda mais o capital político de seu pai — mesmo que seus aliados conquistem maioria no Senado. Fora o discurso e os métodos eleitorais (que consistem em explorar até propaganda de chinelo para reforçar a identidade de grupo), o bolsonarismo se parece cada vez mais com o Centrão, que não resiste a um governo disposto a distribuir cargos. Enquanto isso, as forças políticas que poderiam se apresentar como alternativa se amarram com as cordas do ceticismo excessivo, como se o duopólio dos extremos fosse um fato da vida.

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