Menor taxa de aprovação de Lula no Datafolha poderá, no
pior cenário, incentivar gastança que elevou dólar e inflação
O tombo inaudito no índice de aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva
não é só má notícia para o petista, já que enseja temores no mercado de que o
Planalto abrace de vez a irresponsabilidade fiscal daqui em diante, gerando
impactos severos sobre a inflação que
afeta sobretudo os mais pobres.
Segundo pesquisa do Datafolha,
entre dezembro e janeiro, a taxa de entrevistados que
consideram seu governo ótimo ou bom despencou de 35% para 24%. Na mão
inversa, a reprovação subiu de 34% para 41%.
Ambas as marcas são inéditas para o mandatário, considerando
seus governos de 2003 a 2010 e o atual. A desaprovação se espraia até mesmo em
segmentos tradicionalmente lulistas.
A crise decorre de problemas pontuais e estruturais. No
primeiro grupo, encontra-se o desastre de gestão e comunicação em janeiro,
quando a edição de uma medida para vigiar transações acima de R$ 5.000 no Pix foi
criticada e chegou a ser alvo de uma campanha de fake news.
Já as questões subjacentes à queda são mais complexas.
Apesar de ter na Fazenda um ministro que se diz comprometido com o rigor
fiscal, Fernando
Haddad, na prática Lula tem minado qualquer ideia de austeridade.
De
tal irresponsabilidade decorreu a disparada do dólar ao final de 2024,
pressionando a inflação de alimentos e outros itens básicos, que afeta
principalmente a renda dos mais pobres —nesse grupo, a aprovação do presidente
caiu de 44% para 29%.
A recente alta do preço dos ovos é uma provável nova
trincheira a ser explorada pela oposição, que na crise do Pix foi eficaz em
maximizar danos. Manifestações contra o presidente, marcadas para 16 de março,
poderão dar uma medida do desafio a ser enfrentado por Lula.
Em favor do petista, há divisão nas hostes rivais, cortesia
da insistência de Jair
Bolsonaro (PL)
em dizer que será candidato em 2026, mesmo impedido.
Políticos mais óbvios que poderiam se colocar na disputa,
como o governador Tarcísio
de Freitas (Republicanos-SP), não o fazem e perdem exposição. Com
isso, mutações do bolsonarismo —o cantor Gusttavo Lima é
um exemplo— ocupam o noticiário.
Dadas as incertezas sobre a guerra tarifária proposta pelo
americano Donald Trump,
que pode impactar câmbio e
inflação aqui, o horizonte visível é tenso e agravado por pressões políticas
domésticas, como a expansão do apetite por cargos do centrão.
As medidas sugeridas para tentar melhorar a popularidade de
Lula enfrentam obstáculos, como a ampliação dos programas Pé-de-Meia e
Auxílio-Gás, além da isenção do Imposto de
Renda para quem ganha até R$ 5.000.
Embora o pior cenário seja o da elevação dos gastos, é
bastante provável que tudo siga como está, sem
o aumento na gastança, pois o presidente já deve ter percebido, pelos
números da pesquisa, que a irresponsabilidade fiscal não está funcionando.

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