terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

INTEGRAÇÃO DE DADOS É ESSENCIAL PARA COMBATER FURTOS DE CELULAR

Editorial O Globo

Estados devem priorizar o crime, e governo federal deve unificar as informações de aparelhos roubados

Dois criminosos numa moto matam um ciclista em São Paulo e levam seu celular. A menos de cinco quilômetros, outros dois assassinam um jovem turista que reagiu ao roubo do aparelho. Em Curitiba, uma dupla rouba nove celulares no arrastão de um ônibus. No Rio, criminosos atuam em arrastões em universidades e eventos, como o Ensaios da Anitta, na Marina da Glória. Cada furto ou roubo registrado país afora desde o começo do ano dá a dimensão da inoperância das autoridades. O bandido que ataca o cidadão não é o mesmo que depois lucra com o produto. Aumentar o policiamento ostensivo nas ruas pode inibir o crime, mas só o combate às cadeias de receptadores surtirá efeito duradouro.

No último levantamento nacional, o volume de ocorrências caiu. Em 2023, o furto e o roubo de celulares sofreram queda de 4,7% no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Embora positiva, a queda está longe de representar resposta adequada das forças de repressão. Quase 1 milhão de aparelhos continuam indo parar nas mãos de criminosos todo ano. À medida que fabricantes e autoridades se defendem, os bandidos procuram novos caminhos. Com mais recursos de bloqueio, passou a ser vital subtrair o aparelho quando está em uso pelo dono ou exigir a revelação de senhas. Está nas abordagens violentas a explicação para vários latrocínios.

Celulares roubados costumam ter três usos. Quando os criminosos obtêm acesso aos aplicativos, usam o aparelho para dar golpes, transferir dinheiro ou fazer compras. Em seguida, o colocam no mercado de revenda de aparelhos ou peças usadas em estados e países menos vigilantes. Há uma cadeia dedicada a transformar o produto em lucro. Prender todos os criminosos em busca de celulares nas ruas seria inviável. Por isso o estado do Piauí mirou nos receptadores.

Os números do celular mudam, mas cada aparelho tem um identificador internacional único, conhecido como IMEI, semelhante ao chassi de um carro. Em cooperação com a Justiça, a polícia piauiense obteve junto às empresas de telefonia os IMEIs de milhares de aparelhos roubados. A partir daí, conta Matheus Zanatta, superintendente de Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública do Piauí, ficou fácil rastrear e chegar aos compradores e às revendas. Em 2024, o roubo de celular caiu 37%. Houve também redução de 15% nos furtos. De estado com alta incidência, o Piauí se transformou em modelo de reação.

Iniciativas para bloquear linha telefônica e operações financeiras, como o aplicativo Celular Seguro, do Ministério da Justiça, são positivas, mas resolvem apenas parte do problema. Zanatta defende a criação de um banco nacional de IMEIs. Bloquear esse código equivale a mandar o produto roubado ao mercado de peças, menos lucrativo. A polícia tem condição de combater roubos e furtos de celular, diz Renato Sérgio de Lima, presidente do FBSP. Para isso, os governadores precisam tornar o crime prioridade, e o governo federal deve integrar os IMEIs numa base de dados nacional.

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