O brutal assassinato de um ciclista no Parque do Povo
indica que, ao que parece, o único procedimento de segurança relativamente
eficaz em São Paulo é ficar trancado em casa
A cidade de São Paulo amanheceu sob o choque de um crime
brutal na quinta-feira passada. Por volta das 6 horas, o ciclista Vitor
Medrado, de 46 anos, foi abordado por dois homens em uma moto na área externa
do Parque do Povo, no Itaim Bibi, zona sul da capital paulista, e morto
friamente com um tiro no pescoço. A rigor, nem se pode dizer que a vítima foi
abordada. Como se vê em imagens de câmeras de segurança da região, um dos
assaltantes, ao avistar Vitor usando o celular, já desceu da moto atirando. Com
Vitor caído no chão, o criminoso roubou o aparelho, voltou para a moto e fugiu
com o comparsa.
Esse caso é particularmente revoltante por várias razões. Em
primeiro lugar, pelo baixíssimo valor da vida humana na cidade mais
desenvolvida do País, a que deveria ser, em tese, a mais bem preparada para
garantir a segurança de seus cidadãos. Quando um paulistano é assassinado não
porque foi imprudente ao resistir a um assalto, e sim pelo simples fato de ter
tirado o celular do bolso na rua, tem-se a certeza de que São Paulo se tornou
uma cidade hostil à vida. A morte de Vitor está longe de ser um caso isolado.
Em 2024, como revelou o Radar da Criminalidade do Estadão,
o número de latrocínios cresceu 23,2% na capital paulista em relação a 2023.
A certeza da impunidade como impulso anímico para os
criminosos é outro fator de causar perplexidade a este jornal e decerto revolta
a muitos paulistanos. A polícia suspeita que os mesmos criminosos cometeram uma
tentativa de latrocínio de dinâmica idêntica no mesmo dia do assassinato de
Vitor Medrado. Cinco horas depois da morte do ciclista, um homem foi baleado
por uma dupla de motociclistas na Rua Ribeiro do Vale, no Brooklin, a três
quilômetros do Parque do Povo. Pelas características da moto usada nesse crime,
não se descarta que possa se tratar dos algozes de Vitor. Por sorte, por assim
dizer, a segunda vítima da dupla foi socorrida e está em recuperação num
hospital particular de São Paulo.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos), e o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), decerto
têm na ponta da língua números que garantem que São Paulo, sob a administração
da dupla, nunca foi uma cidade tão segura. O governo paulista, em particular,
prometeu fazer do policiamento eficiente uma de suas principais realizações.
Contudo, nenhuma estatística ou discurso é capaz de reduzir a sensação de
extrema insegurança e impotência que a morte de Vitor Medrado e de tantos outros
produz.
Há muito os paulistas, e os paulistanos em particular,
deixaram de viver a ilusão de que a violência é algo distante. O medo é parte
do dia a dia de quem vive em São Paulo. A ineficácia da política de segurança
tem gerado uma sensação generalizada de abandono e desamparo.
Delitos de oportunidade, como o latrocínio, são evitados com
patrulhamento verdadeiramente ostensivo nas ruas. Se o governador e o prefeito
espalhassem PMs e guardas municipais pela cidade, sobretudo nas áreas de alta
incidência de crimes, sobejamente conhecidas, decerto os indicadores de
violência seriam menos terríveis no que concerne aos crimes de sangue. Em
geral, criminosos temem ser presos ou mortos, como quaisquer outros cidadãos, e
pensam dez vezes antes de cometer um crime caso avistem policiais em patrulha.
É tão simples quanto isso. Por que o governo do Estado mais rico da Federação
não é capaz de colocar nas ruas de sua capital um contingente policial apto a
conter a criminalidade é a pergunta que muitos cidadãos estão fazendo neste
momento.
Até em zonas de guerra os cidadãos sabem que, se seguirem
determinados procedimentos de segurança, não vão morrer. Em São Paulo, essas
regras não valem. Ao que parece, o único procedimento de segurança
razoavelmente eficaz é permanecer em casa, o que é, no mínimo, uma humilhação
para uma metrópole que deveria ser exemplo de progresso e segurança.
Hoje, o paulistano está com medo, e é dever das autoridades
trabalhar incansavelmente para restabelecer a confiança dos cidadãos na
capacidade do Estado de lhes prover segurança.

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