Resolução para regulamentar acordo sobre transparência
embute truque para manter sigilo e deve suscitar nova sanção do STF
A relação entre Poderes da República não deveria comportar
molecagem, mas é difícil encontrar outro nome para classificar a resolução
costurada na surdina e aprovada a toque de caixa pelo Congresso que tenta, pela
terceira ou quarta vez, driblar as determinações do Supremo Tribunal Federal
quanto à necessidade de dar transparência e rastreabilidade às emendas
orçamentárias.
O grau de apego e a insistência bizarra de deputados e
senadores em manter algum grau de sigilo sobre a liberação de dinheiro público
só escancara quanto esta se tornou, antes de tudo, uma maneira de políticos se
perpetuarem em mandatos e expandirem seu poder sobre prefeitos, empresas e
eleitorado, num ciclo perverso que eles não querem ver quebrado.
Basta lembrar que a tentativa de moralizar as emendas
começou (já tarde) com a ministra Rosa Weber, lá atrás, em 2022. Desde então,
houve seguidas idas e vindas para algo que não é um capricho do Supremo
Tribunal Federal, mas apenas e tão somente o Judiciário cumprindo aquilo que
manda a Constituição em relação ao Orçamento da União.
O último lance, com a aprovação de uma
resolução que permite que apenas os líderes chancelem indicação das emendas de
comissão, permitindo que parlamentares permaneçam incógnitos, tem um teor de
afronta ainda maior que os anteriores, porque Hugo Motta e Davi Alcolumbre
acabaram de assumir o comando da Câmara e do Senado, foram até o ministro
Flávio Dino, se comprometeram com um acordo para, apenas poucas semanas depois,
orquestrarem a tentativa de driblá-lo.
É óbvio que, diante da já esperada manifestação do PSOL,
autor de uma das ações que questionam o trâmite das emendas, Dino voltará à
carga, provavelmente sustando novamente o pagamento das emendas até que a nova
diabrura dos senhores parlamentares seja desfeita.
Não adiantará de nada os deputados e senadores apontarem
intervenção indevida do ministro, conluio com o governo ou o que quer que seja.
O assunto já teve diversos rounds, todo mundo sabe o que está posto à mesa, e a
resolução com a brecha marota para o sigilo foi urdida propositalmente nos
últimos dias, diante da inação por parte do governo, que reconhece sua própria
tibieza na relação com o Legislativo e deu a batalha por perdida. É o que
explica a votação da proposta com apoio maciço de quase todos os partidos,
inclusive do PT.
Uma segunda manobra que passou relativamente despercebida na
votação da resolução prorrogou a atual composição da Comissão Mista de
Orçamento até que seja votada a proposta orçamentária deste ano, que segue
travada. Com isso, a cúpula do Parlamento mostra que a ideia é manter o
Orçamento deste ano como refém até que seja encerrada a novela em torno das
emendas — que, como se vê, terá mais um capítulo agora.
Caso a proposta não seja votada na semana que vem, estará
alcançado o recorde de atraso na aprovação do Orçamento, um indicativo
inquestionável da forma como a agenda de interesse do país está subordinada aos
interesses dos congressistas e de quanto o negócio das emendas é, hoje,
condição de vida e morte para eles, da esquerda à direita, com a exceção apenas
dos nanicos PSOL e Novo, cada um numa ponta do espectro político.
Lula disse na campanha que acabaria com o orçamento secreto,
mas rompeu a promessa já antes da posse, quando pactuou a votação da PEC da
Transição e o apoio à reeleição de Arthur Lira. Há dúvida razoável quanto ao
grau de afinação entre ele e Dino na tentativa de disciplinar aquilo de que
deputados e senadores se recusam a abrir mão.
Mas fica nítida a falta de voz e de pulso do Executivo em exigir que a destinação de recursos públicos por parte do Legislativo seja moralizada. A ousadia do Congresso em dobrar a aposta mostra que o negócio é tão lucrativo que a briga compensa.

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