Muito além do “risco fiscal”, países de moeda frágil,
como o Brasil, se dilaceram entre controlar a inflação e crescer
Nos idos de 1999, o nosso Brasil varonil adota o regime de
câmbio flutuante. Naquele momento, não por convicção, mas por necessidade. Após
uma crise aguda no balanço de pagamentos, vítima de uma fuga maciça de dólares
para o exterior, no segundo semestre de 1998, o País ficou praticamente sem
reservas internacionais.
Nosso Banco Central tenta
defender a banda cambial, intervindo nos contratos de dólar futuro. Em 1999, o
Banco Central tinha a prerrogativa de intervir no mercado futuro.
Hoje, não!
A forte desvalorização do real naquele momento promoveu a
adoção do Tripé Macroeconômico. A tríade (ou mantra) rezava: regime de meta de
inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Nosso tripé sempre foi manco:
os anos em que o Banco Central se aproximou da meta de inflação registram juro
alto, atração de capitais externos, arbitragem e câmbio valorizado.
As continuadas flutuações do real diante
das moedas “fortes” (dólar, euro) suscitaram uma avalanche de opiniões a
respeito do fenômeno monetário-financeiro internacional. Peço licença ao
eventual leitor para sublinhar monetário-financeiro e internacional.
O pedido ao leitor deita raízes na sobrecarga de opiniões
que se derramam em queixas que atribuem à irresponsabilidade fiscal os
sucessivos e intensos declínios de valor do nosso real diante do patrono do
sistema monetário internacional, Mister Dólar.
Incursões na história:
Começamos com a estagflação dos anos 70 do século passado.
Naqueles tempos, a continuada desvalorização do dólar foi enfrentada com a
elevação da policy rate deflagrada por Paul Volcker em 1979. A elevação dos
juros foi apresentada, então, como uma medida destinada a alcançar o objetivo
doméstico de controle da inflação, mas o efeito mais relevante para a economia
internacional foi a recuperação do papel do dólar como moeda-reserva.
A forma como ocorreu a recuperação do dólar, como
moeda-reserva e de denominação das transações comerciais e financeiras,
promoveu profundas alterações na estrutura e na dinâmica da economia
mundial. Nas três décadas seguintes, à sombra do fortalecimento do dólar,
os Estados Unidos promoveram as políticas de abertura comercial e impuseram a
liberalização financeira urbi et orbi.
O estudo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) – The
Transmission of Unconventional Monetary Policy to Emerging Markets – admite
que há consenso a respeito da predominância dos fatores “externos” sobre os
fatores internos na determinação dos fluxos de capitais.
Reza o relatório:
“Os Bancos Centrais das economias emergentes têm enfrentado
desafios políticos decorrentes tanto da apreciação da taxa de câmbio quanto da
depreciação nas últimas duas décadas. Durante a década anterior à crise de
2008, e desde 2009, os diferenciais de taxas de juro e crescimento resultaram
em entradas substanciais de capital e pressões de apreciação da taxa de câmbio.
Em contraste, grandes saídas de capital durante maio–setembro de 2013 e
início de 2014 foram acompanhadas por fortes depreciações cambiais.
Globalmente, na maioria das economias emergentes, as taxas de câmbio efetivas
nominais depreciaram-se significativamente e foram voláteis entre 2007 e 2013”.
O economista Claudio Borio, do Banco de Compensações
Internacionais, já desvelou a verdade que a maioria dos analistas se esforça
por esconder sob a rica tapeçaria de seus inefáveis saberes fiscalistas. A
morfologia dos movimentos de capitais é intrinsecamente pró-cíclica em sua
recorrência maníaca, que vai da abundância de grana estrangeira às paradas
súbitas e daí às crises financeiras e bancárias. Esse “eterno retorno do mesmo”
(Nietzsche, tenha piedade) está determinado pela interação entre a liberalização
das contas de capital, a emergência das economias “emergentes” como polos de
atração da movimentação financeira e o papel dos Estados Unidos como provedores
de ativos líquidos de “última instância”, os títulos do Tesouro americano.
A interpenetração financeira suscitou a diversificação dos
ativos à escala global, o inchaço dos mercados futuros de câmbio e juros e,
assim, impôs a “internacionalização” das carteiras dos administradores da
riqueza, o que coloca formidáveis desafios às políticas monetárias. Diante da
enxurrada de capitais empenhados na arbitragem com taxas de juro e na
especulação desaçaimada com suas moedas, os emergentes levam surras periódicas
dos agentes da finança dotados de expectativas racionais.
Num ambiente internacional de livre movimentação de
capitais, os Bancos Centrais dos países de “moeda fraca” encontram dificuldades
em manter, simultaneamente, boas condições de crédito doméstico e a
estabilidade de suas moedas.
Nas pegadas da globalização financeira, o Brasil manteve por
20 anos uma combinação câmbio-juro hostil ao crescimento da indústria
manufatureira e amigável à arbitragem sem risco.
Diante de frequentes episódios de aguçamento da
instabilidade cambial, as vozes de sempre descarregaram as culpas sobre os
ombros das “condições internas”. Proclamam – sempre e sempre – os danos do
“risco fiscal”, exibido como um pecado irremissível. Ignoram que os países de
moeda não conversível se dilaceram entre o objetivo de manter a inflação sob
controle e o propósito de não danar o crescimento ou colocar em risco a
estrutura industrial e, consequentemente, o “arcabouço” de geração de renda e
emprego. No Brasil, a derrocada exportadora da indústria faz parceria com a
invasão das importações de produtos manufaturados, prenhes de incentivos e
subsídios oferecidos generosamente pelos competidores espertos.
Seja como for, a sucessão de episódios
valorização/desvalorização demonstra que a almejada correção dos chamados
desequilíbrios globais vai exigir regras não compatíveis com o sistema
monetário internacional em sua forma atual. O movimento dos BRICS revela a
reação de um conjunto de países diante dos percalços a eles causados por uma
estrutura financeira global monetariamente hierarquizada, comandada pelo poder
do dólar.
Publicado na edição n° 1353 de CartaCapital, em 19
de março de 2025.

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