Não se fala de outra coisa. Donald Trump é o assunto diário
do momento. Nada mais gratificante para um líder famoso dos “engenheiros do
caos”. Não importam verdade e mentira, consequências e danos, resistências e
críticas. Desde que a imagem que se deseja construir seja fortalecida e a
voracidade da bolha de seus seguidores devidamente abastecida e mobilizada,
tudo se justifica. Valem bravatas estapafúrdias de péssimo gosto como a de
transformar a Faixa de Gaza em resort ou ameaçar tomar a Groelândia e o Canal
do Panamá. As tarifas de importação viraram ferramenta de chantagem.
A ideia de democracia é substituída por um governo movido a
decretos, o que parece não incomodar a maioria republicana na Câmara dos
Representantes e no Senado. E pela criação da imagem de um presidente
plenipotenciário, onipresente e superpoderoso. Um verdadeiro xerife do mundo
contemporâneo. Na mesa só duas opções: aderir ou receber a ira do
neoimperialismo americano.
É ainda uma fase de acomodações. Na análise
de líderes populistas iliberais que abusam de factoides exóticos e até de fake
news, a atenção tem que estar concentrada nas ações concretas e não na
retórica. Afinal, tarifas foram impostas e canceladas em 24 horas. Medidas
sabidamente (inclusive por Trump) inconstitucionais foram revertidas na Justiça
ou contraditadas por iniciativa de governadores de estados
americanos.
Por outro lado, os EUA, apesar de serem a maior economia do
mundo, não têm mais hegemonia absoluta e capacidade unilateral de dar as
cartas. E ainda, determinadas medidas podem transformar-se em tremendo tiro no
pé com a volta do cipó da aroeira da inflação, dos juros altos, da perda de
competitividade e da queda do valor dos ativos americanos no lombo de quem
mandou dar.
Ao final do século XX, encaramos uma realidade configurada
pelo desmoronamento do socialismo real e pelo estrangulamento fiscal do Estado
do Bem-Estar socialdemocrata. A globalização avançava, a hegemonia do
liberalismo econômico e político parecia definitiva e a história teria
encontrado o seu “fim”. O multilateralismo e a necessidade de uma governança
global pareciam imperativos. Se bem que, no mundo da globalização avançada, o
trânsito era livre para mercadorias e capitais, não para a força de trabalho.
A imigração em massa de populações pobres africanas,
asiáticas e latino-americanas geraram resistências enormes, caldo de cultura
propício para o surgimento de uma extrema-direita selvagem. A sociedade assiste
à fragmentação de interesses e a polarização ideológica crescentes. Os partidos
políticos perdem força e enfrentam a substituição parcial de seu papel pela
participação direta individual ou em grupos nas crescentemente poderosas redes
sociais.
Donald Trump, nestes dois meses, acionou sua metralhadora
giratória contra tudo e todos. Não escaparam Canadá, México, Colômbia, Ucrânia,
Brasil, China, Irã, Palestina. Tudo em nome do “América First”. As instituições
multilaterais simbólicas do mundo pós-guerra foram confrontadas: OMS, OMC,
Acordo de Paris, OTAN etc. Aonde chegaremos? Será o fim do liberalismo?
Muitos que apoiaram Trump já revelam seus temores e puseram
as barbas de molho. Só o tempo poderá dizer até onde irão as estripulias e
ousadia trumpistas. Só o tempo revelará completamente suas
consequências.

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