Quebra da confiança nos EUA obriga não só a Europa a
buscar um caminho próprio para sua segurança
Em 2023 o senador Carlos Portinho (PL-RJ) apresentou no
Congresso o texto de uma PEC que previa vincular o orçamento da Defesa a uma
parcela do PIB, que começaria em 1,2% até chegar a 2%. Em meio a críticas e à
necessidade de se controlar os gastos públicos, a proposta dormiu um ano nas
gavetas do Senado até o novo mandato de Donald Trump bagunçar a geopolítica
mundial, rompendo a confiança que nações aliadas tinham desde os anos 1940 de
poder contar com os EUA para a sua defesa.
Com esse novo cenário, senadores têm
procurado Portinho para apoiar sua proposta, uma pauta que agrada ao ministro
José Múcio (Defesa), mas enfrenta a oposição do Ministério da Fazenda. Entre os
interlocutores de Portinho estão Jaques Wagner, Sergio Moro e Otto Alencar. “É
preciso garantir o mínimo de previsibilidade para os investimentos da Defesa.
Sem ela não há território, nação, educação ou saúde.” O ex-líder do governo
Bolsonaro no Senado diz que a PEC é um projeto de Estado, suprapartidário.
José Genoino, ex-presidente do PT, considera que o Brasil
não pode perder a oportunidade para discutir sua Defesa, modernizá-la e buscar
um caminho autônomo, que reduza a dependência externa. Para ele, é preciso
definir uma nova Estratégia Nacional de Defesa.
O mundo parece estar mais distante do soft power de Joseph
Nye Jr. e próximo de relações internacionais pautadas pelo realismo ofensivo de
John J. Mearsheimer, para quem nenhum Estado pode ter certeza de que os outros
vão se abster de usar suas capacidades militares ofensivas. Daí a necessidade
de cuidar da sobrevivência acima de todos os objetivos.
Portinho diz que a previsibilidade de gastos significaria
garantir recursos para pesquisas e projetos estratégicos, como o submarino
nuclear e o míssil tático de cruzeiro. Mas isso está longe do projeto de lei
orçamentária de 2025. Ele prevê que as despesas discricionárias do Exército
embutidas no Novo PAC devem chegar a R$ 1,43 bilhão, 36% abaixo do R$ 1,95
bilhão necessário à Força Terrestre. O mesmo vale para as demais despesas
discricionárias: dos R$ 3,9 bilhões necessários, o Congresso quer destinar R$
2,2 bilhões.
Na Marinha, a situação não é diferente. Embora o Novo PAC
preveja R$ 3,67 bilhões para os novos navios-patrulha, os recursos dependem da
estabilidade fiscal. O submarino nuclear enfrenta cortes e a construção das
novas fragatas requer previsibilidade de recursos de R$ 3 bilhões até 2030,
para evitar a interrupção. Assim, enquanto nações da Europa e da Ásia decidiram
investir trilhões em carros de combate, aviões e munições, muitos no Brasil se
comportam como se isso não fosse da sua conta.

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