"Trump e Musk não estão apenas desmantelando o Estado americano. Estão
construindo um modelo. Um protótipo. Um experimento de laboratório que a
direita internacional poderá replicar onde for conveniente. O que acontece hoje
nos EUA não é uma exceção: é um ensaio. E a intenção é clara – transformar a
destruição do serviço público em um espetáculo bem-sucedido, pronto para ser
exportado.
Essa estratégia não é só ideológica, é performática. O que importa não é apenas
cortar gastos, fechar órgãos ou precarizar o funcionalismo. Isso, aliás, a
direita tradicional já fazia. O diferencial de Trump e Musk é o método. O show.
O simbolismo da destruição sendo celebrada como um triunfo. O governo não está
sendo esvaziado em silêncio, mas diante das câmeras, com aplausos e memes.
Transformaram o desmonte do Estado em um reality show neoliberal.
O Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), liderado por Elon Musk sob a
administração Trump, é o epicentro desse laboratório neoliberal. Financiado
secretamente com quase 40 milhões de dólares, o DOGE opera como uma agência
federal blindada de leis de transparência, transformando o desmantelamento do
serviço público em um espetáculo midiático. Musk, que se apresenta como o
visionário de tudo, é o rosto desse novo tipo de ataque ao setor público.
A ordem não é apenas cortar gastos, mas também humilhar, expondo funcionários
como descartáveis e moldando o imaginário social contra o Estado. Esse modelo
performático não apenas precariza o funcionalismo, mas também legitima a destruição
estatal como narrativa política global, consolidando a cultura política
neoliberal. Utilizando a manipulação de narrativas e o engajamento massivo, o
DOGE não só corta gastos, mas transforma a precarização estatal em um protótipo
exportável de desmonte do Estado, ancorado na humilhação pública e na retórica
da eficiência privada.
David Harvey já alertava: o neoliberalismo não é só um modelo econômico, é um
projeto político de reconfiguração do poder. Ele não apenas transfere riqueza
do público para o privado, mas redefine a relação entre governantes e
governados, enfraquecendo qualquer possibilidade de contestação. Trump e Musk
aplicam essa lógica na sua forma mais brutal: esvaziam o Estado, depois dizem
que ele não funciona. E assim justificam mais cortes, mais privatizações, mais
concentração de poder.
Naomi Klein descreveu esse fenômeno como a “Doutrina do Choque”. O truque é
sempre o mesmo: criar ou explorar uma crise para impor mudanças radicais que,
em circunstâncias normais, seriam inaceitáveis. A administração Trump não
esperou desastres naturais ou recessões para agir – fabricou sua própria crise
ao transformar o funcionalismo público em um bode expiatório. Quanto mais o
governo parece disfuncional, mais justificativa há para privatizá-lo. E esse
mesmo roteiro, em breve, será copiado mundo afora.
Gramsci chamaria isso de guerra de posição. A batalha contra o Estado não
acontece só no nível econômico, mas no campo cultural, na disputa de
imaginários. Se o serviço público passa a ser visto como ineficiente e
corrupto, se a ideia de que “tudo que é público é um peso” se torna dominante,
a destruição do Estado vira consenso. E o consenso é a arma mais poderosa do
neoliberalismo.
O sucesso desse modelo depende de duas coisas: da inércia e do aplauso. Se não
há resistência, o jogo avança sem oposição. Se há aplauso, ele se espalha e
vira demanda pública. No final, esse não é apenas um projeto político – é uma
reconfiguração da cultura política. A ideia de Estado como bem público sendo
trocada pelo fetiche da eficiência privada, sem mediações, sem debate, sem a
farsa da gestão eficiente.
Mas sejamos realistas: o Estado não é um ente puro ou neutro. Ele sempre foi um
espaço de disputa – entre controle e emancipação, entre dominação e direito.
Pode ser uma ferramenta de opressão e burocracia, mas também pode ser a última
trincheira contra o avanço de um mercado que não reconhece nada além do que
interesses privados. O problema nunca foi apenas seu tamanho, mas quem o
controla e a serviço de quais interesses ele opera. Abandoná-lo à sanha
privatista de Trump e Musk é aceitar a falácia de que a destruição do público
tornará tudo mais eficiente. Não tornará. Apenas reforçará o controle daqueles
que já detêm o poder e transferirá a engrenagem do Estado para as mãos de quem
monopoliza o capital.
É simples e fatal.
quarta-feira, 5 de março de 2025
SIMPLES E FATAL
Ricardo Queiroz, Política Total
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