Donald Trump frequenta a categoria dos homens corajosos
porque desconhecem os problemas que o cercam. São os destemidos ignorantes
Donald Trump não é um político tradicional. Ele frequenta a
categoria dos homens corajosos porque desconhecem os problemas que o cercam.
São os destemidos ignorantes. Ele avançou e chegou a preocupar o mundo das
finanças quando as letras do Tesouro dos Estados Unidos começaram a ser
vendidas em grandes quantidades e os compradores começaram a exigir juros mais
elevados. Isso significa, na linguagem de quem lida com o assunto, que a
confiança tinha acabado. Ao mesmo tempo, verificou-se grande quantidade de ordens
de compra de títulos do governo alemão. As bolsas despencaram, e o previsível
caos se anunciava no final da jornada. Diante da catástrofe iminente, Trump
recuou. Limitou sua guerra a um alvo: a China.
Seu recuo de 90 dias, três meses, concede
um prazo razoável para o mundo entender melhor aonde o presidente dos Estados
Unidos quer chegar. A sua proposta de substituição de importações, velha
política latino-americana sugerida pela Comissão Econômica para a América
Latina e o Caribe (Cepal), parece fora do tempo. As indústrias norte-americanas
que migraram para a China também se modernizaram no país que as recebeu. Os
trabalhadores foram substituídos por robôs. Se a política de Trump tiver algum
resultado positivo, nos próximos anos será representada por nova geração de
robôs que vão trabalhar em fábricas norte-americanas. Mas nada disso acontecerá
no curto prazo, nem dentro de um mandato presidencial de quatro anos.
O mundo conseguiu um prazo para respirar. Os europeus, que
já tinham decidido retaliar na mesma proporção do agravo, resolveram aguardar
90 dias. A maioria dos países se contentou com esse novo prazo e passou a
assistir de arquibancada à luta entre os dois gigantes do comércio mundial. Os
chineses jogam xadrez. Responderam vendendo 50 bilhões de dólares em títulos do
Tesouro norte-americano, o que provocou a desvalorização do papel e quebrou a
confiança internacional naquele investimento. Os americanos acusaram o golpe e
recuaram imediatamente. Mas taxaram os produtos chineses em absurdos
145%.
Guerras tarifárias não costumam consagrar vencedores ou
vencidos. Costumam dar motivos para guerras de verdade, tiros e bombas para
todos os lados. As últimas duas guerras mundiais estão repletas de exemplos de
tributação excessiva que degenerou em conflito bélico. A condenação da Alemanha
a pagar vultosas multas após a primeira guerra resultou na indignação do país,
na consequente preparação bélica que desaguou no conflito que produziu mais de
50 milhões de mortos.
A irracionalidade dos dirigentes políticos não é recente,
nem original. As pessoas suspeitavam que os novos e mais eficientes meios de
comunicação produziriam melhores líderes, mais bem informados. Não é verdade.
Trump é um legítimo representante do pensamento dos anos 30 do século passado.
Além disso, ele é contra a educação nos Estados Unidos — persegue estudantes
que façam crítica ao governo norte-americano e a Israel —, expulsa migrantes
sem qualquer critério, nem julgamento. Coloca gente de outro país em prisão em
El Salvador, a troco de um generoso pagamento. Ataca o Judiciário, não respeita
as leis, além de ter traído a confiança de grandes eleitores, que contribuíram
com milhões de dólares para sua campanha. Destruiu a aliança ocidental e
quebrou o cristal da confiança que o governo de Washington inspirava no mundo.
Demitiu milhares de funcionários públicos.
Um espanto. Trump é uma espécie de Nero moderno, com sua
pinta de galã dos anos 30, sem qualquer verniz intelectual. O Brasil, com
exceção de umas poucas empresas grandes estabelecidas em várias partes do
mundo, está protegido das loucuras do homem forte do Norte por ser pequeno e
não pertencer a nenhum bloco que possa ser severamente penalizado. Talvez haja
algum embaraço na reunião do Brics, quando deverá ser realizado algum tipo de
desagravo em relação à China. Mas, o histórico subdesenvolvimento nos protege,
porque não há muito o que discutir com o Brasil, que mantém a balança comercial
deficitária com os Estados Unidos. Recebeu uma taxa recíproca básica de 10%,
mas poderá se beneficiar no eventual aumento de comércio com a China e outros
países asiáticos. Até os europeus já admitem a possibilidade de ratificar o
acordo Mercosul-União Europeia.
Mas ninguém duvida de que Trump é um personagem da mídia.
Ele adora frequentar as manchetes de jornal, estar diante dos holofotes de
televisão. Faz qualquer negócio para aparecer sempre. Ele prometeu acabar com a
guerra da Ucrânia e com o conflito entre Israel e palestinos. Tudo em uma
semana. Não acabou nem com uma nem com outra guerra. Mas apareceu nos jornais
do mundo inteiro.

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