Proposta prevê barrar processos contra parlamentares ao
exigir aval do Legislativo com votação secreta
Objetivo é limitar ações sobre desvios em emendas;
Senado deveria rejeitar a PEC para recuperar um mínimo de probidade para o
Congresso
Segundo o Datafolha, 8 em cada 10 brasileiros avaliam que
o Congresso
Nacional atua mais em prol de seus interesses do que em favor da
sociedade. Corroborando de forma inequívoca essa percepção, deputados federais
aprovaram integralmente na quarta-feira (17) a chamada PEC da Blindagem.
A nova proposta de emenda constitucional é uma ofensa aos
eleitores e contribuintes, cada vez mais sequiosos de transparência no trato da
coisa pública. Sobretudo quando se trata de uma estrutura parlamentar que
consome R$ 15 bilhões por ano e que figura entre as mais dispendiosas do mundo.
A
PEC da Blindagem amplia o foro especial a deputados e senadores e os
protegerá não apenas em relação a investigações criminais, mas abre brecha nas
ações cíveis, algo inédito.
Em decisão esdrúxula, os deputados ainda estenderam o foro
especial no Supremo Tribunal Federal a presidentes de partidos políticos com
representação no Congresso, mesmo que não tenham mandato parlamentar.
O texto tem como principal objetivo dar ao Congresso o poder
de barrar processos criminais no STF contra
deputados e senadores ao exigir licença prévia do Legislativo. Essa autorização
será deliberada pela respectiva Casa em até 90 dias, a contar do recebimento da
ordem do Supremo.
O que é pior, isso será feito em votação secreta, escondendo
da sociedade quais parlamentares votarão para impedir que colegas sejam
investigados.
Esse ponto crucial da PEC havia sido derrubado por partidos
de esquerda em consulta na terça (16), mas acabou
voltando depois com uma manobra do centrão apoiada pelo presidente da
Câmara, Hugo
Motta (Republicanos),
por meio de uma emenda aglutinativa que recuperou o termo "votação
secreta".
O expediente recebeu 314 votos favoráveis e 168 contrários.
O texto principal, aprovado em dois turnos um dia antes, também passou por
ampla maioria, inclusive com votos de petistas.
O propósito primordial do centrão, grupo de direita e
centro-direita com maioria na Câmara, é blindar parlamentares em mais de 80
investigações no Supremo envolvendo suspeita de corrupção com verbas de
emendas, que
movimentam cerca de R$ 50 bilhões todos os anos.
A PEC também prevê votação secreta para autorizar prisão em
flagrante de deputados e senadores e ampliou o quórum exigido para que isso
ocorra.
A proposta agora segue para o Senado, onde
precisa ser aprovada também em dois turnos para ser promulgada e entrar em
vigor, não cabendo sanção ou veto do presidente da República.
A PEC tem apoio mais envergonhado dos senadores, que avaliam
desacelerar a tramitação após avalanche de críticas em redes sociais. Se
tiverem decência, eles deveriam enterrar de vez o projeto para tentar recuperar
um mínimo de probidade que tanto falta ao Congresso Nacional.

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