Não estão sendo dias fáceis para Bolsonaro e sua grei,
após uma série de reveses políticos e judiciais. É possível que o bolsonarismo
se recupere, mas, enquanto isso, o País respira melhor
O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), seu fiel amigo
blogueiro, Paulo Figueiredo, e outros empedernidos soldados bolsonaristas até
que tentaram disfarçar o desconforto e entoar uma mensagem triunfante, mas os
últimos dias sacramentaram uma tendência inquestionável: a sucessão de derrotas
políticas deixou o bolsonarismo ainda mais enfraquecido e isolado. Pode-se
atribuir seus reveses a uma suposta perseguição política do Judiciário, a uma
eventual traição do Centrão, ao nono círculo do inferno de Dante, a uma maré de
azar ou aos efeitos tardios do Mercúrio retrógrado passado, mas nada disso
esconde o essencial, isto é, está-se diante de uma espiral descendente que
atormenta o bolsonarismo. E quando este perde, é o Brasil que ganha.
A malaise bolsonarista chegou ao ápice na
Assembleia-Geral da ONU, onde Donald Trump fez a inesperada declaração sobre a
“excelente química” que sentiu nos poucos segundos de conversa que teve com o
presidente Lula da Silva. Trump não só mencionou o demiurgo petista de forma
positiva, depois de jamais citá-lo em declarações anteriores, como anunciou um
encontro entre os dois e nem sequer citou o nome de Jair Bolsonaro. Pode não
dar em nada, mas o gesto já é o suficiente para promover algo impensável até
aqui – um canal de diálogo e negociação entre os dois mandatários. É tudo o que
os Bolsonaros mais abominam, já que, dispostos a tudo em nome dos interesses do
mito fundador do bolsonarismo, usaram seus contatos no governo americano para
chantagear o Brasil e suas instituições.
Mas houve mais. As mais recentes manifestações de rua, por
exemplo, mostraram o tamanho da insatisfação dos brasileiros contra a blindagem
de parlamentares ante investigações criminais e a concessão de anistia “ampla,
geral e irrestrita” a Jair Bolsonaro e outros golpistas condenados pelo Supremo
Tribunal Federal (STF). Se é um erro reduzir os protestos a um triunfo da
esquerda, também é um erro negar que o número de manifestantes em todas as
capitais no fundo mostrou que Bolsonaro não é mais senhor das ruas. A
eloquência da reação popular arrefeceu ainda mais o entusiasmo do Congresso
para a anistia – uma agenda que já deveria estar sepultada – e para proteger a
si mesmo.
Além disso, a Procuradoria-Geral da República denunciou o
deputado Eduardo Bolsonaro por “coação” na Ação Penal 2.668, que julga a trama
golpista; o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB),
rejeitou a tentativa do PL de blindar o filho “Zero Três” das ausências às
sessões da Casa, um dos caminhos possíveis para cassar-lhe o mandato; o
Conselho de Ética da Câmara instaurou processo que pede a sua cassação por agir
contra os interesses brasileiros, trabalhar a favor de sanções dos EUA a
autoridades brasileiras, atacar o STF e incitar a ruptura democrática; e
partidos do Centrão vêm fazendo acenos a uma candidatura à Presidência que não
leve o sobrenome Bolsonaro.
O infortúnio parece evidente e não é fruto apenas das
circunstâncias externas. É resultado sobretudo dos próprios erros e da fadiga
nacional com esses inconformados com a democracia. Recorde-se que Bolsonaro se
elegeu num tsunami conservador e antissistema. Entre outras bandeiras, propunha
o amor à Pátria contra a ordem globalista que violava a soberania nacional e a
rejeição à velha política, vista como corrupta. Acreditou quem quis. Em sua
cruzada, trabalhou para minar a Justiça Eleitoral, sucumbiu à velha política,
atacou a democracia, tentou dar o golpe e foi vencido, limitado pelos diques de
contenção das instituições democráticas. A partir daí, o bolsonarismo se
restringiu a uma pauta única: livrar o seu principal líder do julgamento e da
cadeia. Nada mais lhe importa – nem mesmo a Pátria.
Ainda é válida a velha máxima cunhada pelo ex-governador
mineiro Magalhães Pinto, segundo a qual política é como nuvem: você olha e ela
está de um jeito; olha de novo e ela já mudou. Não está escrito nas estrelas,
portanto, nem que o calvário bolsonarista prosseguirá nem que seus métodos
conseguirão seduzir alguém fora do mais restrito grupo de liberticidas
inconsequentes. Mas considerando a atual direção e ritmo dos ventos, o Brasil
pode começar a vislumbrar como real a chance de se ver livre dessa força política
reacionária e destrutiva que tanto mal vem fazendo ao País.

Nenhum comentário:
Postar um comentário