Neste 14 de janeiro faz exatos 30 dias do atentado
antissemita ocorrido em Bondi, praia ícone de Sydney, na Austrália. O mundo
ficou chocado com esse massacre que é tido como o maior “atentado terrorista”
já acontecido neste país.
Uma semana
depois, em 21 de dezembro, a mesma praia e os gramados adjacentes foram o
cenário de uma manifestação vibrante de unidade, de reflexão e de respeito
mútuo. Nesse dia, cerca de 16.000 pessoas ali se reuniram numa celebração de
luto, o “National Day of Reflexion”. Dela participaram o primeiro-ministro,
senadores, deputados federais e estaduais e diversas autoridades entre elas
rabinos, imãs, padres, pastores e líderes muçulmanos.
Como amplamente noticiado, em 14 de dezembro passado um pai (50 anos) e seu
filho (24 anos) usando várias armas de combate, atiraram em um grupo de judeus
que participavam da Hanukkah, uma cerimônia que dura 7 dias e é
celebrada ali todo ano. Os 150 tiros, disparados em 6 minutos e 11 segundos,
mataram 15 pessoas e feriram 40. Bondi Beach e adjacências é a área onde reside
a maioria dos judeus que vivem em Sydney. Eles se reúnem ali para esta
celebração de fim de ano. Na semana que se seguiu, outras manifestações foram
feitas não só em Bondi mas em dezenas de outras cidades na Austrália e no
exterior. Essas manifestações foram não só de condolências e de ofertas de
flores e velas, mas de repúdio ao massacre.
Dois aspectos
dessa tragédia me levaram a refletir durante esses 30 dias. O primeiro é o
termo “terrorismo” usado pelas mídias local e internacional. Resumidamente, nos
termos do Código Criminal australiano, um ato terrorista “é uma ação usada para
propagar uma causa religiosa, política ou ideológica através da ameaça ou
intimidação a um governo ou ao público”. E como temos observado em fatos desde
aquele 11 de setembro das torres em New York, essas ações configuram sempre a
postura de algum grupo ou entidade identificável e que em seguida assume a
autoria ou se responsabiliza pelo ato. Embora aterrorizante, a meu ver, atentado terrorista não se aplica ao que aconteceu aqui.
Os dois
atiradores foram Sajid Akram, o pai, e Naveed Akram. Sajid nasceu na Índia e
mudou-se para a Austrália em 1998. Nunca optou por cidadania australiana e
conforme dezenas de declarações de líderes religiosos islâmicos à imprensa, não
era afiliado a nenhum desses locais de culto. Seu filho nasceu aqui. No dia da
matança, pouco depois das 6 da tarde, Sajid desce do carro e estica no seu
vidro dianteiro uma bandeira do Islamic State. Estava pronto para
começar o maior ataque “terrorista” já registrado na Austrália — e o maior já
feito contra judeus desde o 7 de outubro de 2023. Entendo, assim, que esse
massacre foi uma ação individual, sem vínculo com qualquer forma de entidade.
Meu segundo ponto
de reflexão introduz o clichê “caldeirão cultural”. De acordo com o senso de
2024 cerca de 31% da população da Austrália nasceu fora deste país. Trocando em
miúdos, podemos dizer: de cada 3 habitantes 1 não nasceu aqui. O número de imigrantes
alcança a casa de 8.6 milhões. Em documento de 2025, a World Population
Review coloca a Austrália bem no final da sua lista de homicídios:
países como Jamaica (49,3), México (24,9), Costa Rica (17,8) etc. encabeçam uma
lista de 48 países. Lá no final a Austrália aparece com 0,85 homicídios por 100
mil habitantes.
Esse trágico 14
de dezembro me leva de novo aos dados do censo de 2024: nos dias seguintes à
tragédia, noticiários nas TVs foram revelando a identidade dos 15 assassinados:
2 eram imigrantes da antiga União Soviética e os outros 4 vieram da
Tchecoslováquia, França, Inglaterra e Ucrânia. Relendo os números, 6 dos 15
mortos não nasceram neste país. E um dos dois atiradores também não.
Heroismo,
política e reflexão.
Atos heroicos
também foram registrados ali. Durante o tiroteio, uma moça de 17 anos ao ver um
bebê de poucos meses, deitado no gramado e chorando, deitou-se sobre ele, para
protegê-lo, até que o pai e a mãe chegassem para pegá-lo. Os salva-vidas também
ajudaram muito na movimentação de feridos para as ambulâncias.
Um muçulmano
sírio, Ahmed al Ahmed, de 42 anos, vendo Sajid atirando, avançou contra ele,
subjugou-o e tomou-lhe o rifle. Um rapaz israelita correu para ajudá-lo. Vendo
isso, o filho Naveed, a curta distância, atirou nos dois. Eles foram atingidos
e ficaram hospitalizados por duas semanas. Minutos depois Naveed foi ferido e
dominado pela polícia. Deixando o hospital na semana passada, Ahmed viajou para
os Estados Unidos, convidado a participar de um evento de judeus em sua
homenagem, em 7 de janeiro, durante a Colel Chabal Awards, em New
York.
Na semana
seguinte ao atentado — não é novidade — políticos de todas as facções
apareceram no local. E por paradoxal que pareça, no dia seguinte ao massacre,
para lá correu uma senadora, a líder do One Nation, um partido
abertamente anti-imigração…
O governo e a
população australiana receberam durante aquela primeira semana todo tipo de
condolências vindas de presidentes e primeiros-ministros de países do resto do
mundo. Com exceção de Israel. Tendo em vista que o governo australiano — como
umas dezenas de outros países mundo afora — é a favor da criação ou do
reconhecimento de um Estado Palestino, Benjamin Netanyahu atacou várias vezes o
primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, culpando-o pela chacina da
praia.
No ano passado, a
partir de março, dentre outras, a sinagoga da Congregação Hebraica de
Melbourne, capital do estado de Victoria, foi alvo de 5 pichações com termos
ofensivos antissemitas. Em 4 de julho a East Melbourne Hebrew
Congregation sofreu uma tentativa de incêndio o que fez 20 fiéis
abandonarem o prédio às pressas. O responsável por um dos desses atos foi preso
e identificado. Ele está sendo processado por conduta admitida de tentar causar
ferimentos graves ou morte.
Desde esse
trágico 14 de dezembro, a legislação do porte de armas tem sido reavaliada e
mudanças são esperadas para breve. Embora o porte de armas neste país seja
rigorosamente controlado, Sajid era registrado como atirador e possuía 6 rifles
— mesmo não sendo um cidadão australiano.
A oposição veio
fazendo enorme pressão sobre Anthony Albanese, acusando seu governo de não ter
tomado medidas eficazes de precaução antes do massacre, tendo em vista as
pichações e ameaças às sinagogas. Alguns parlamentares vinham exigindo do
governo federal a criação de uma Royal Commission — o
equivalente a uma CPI — para analisar todas as medidas preventivas — ou a
inexistência delas — anteriores ao massacre. Albanese havia recusado sua
criação quando o momento, segundo ele, “era de união e cooperação e não de
desagregação e distração”. Três dias atrás, as famílias das vítimas receberam a
visita do primeiro-ministro. E em seguida 14 de seus familiares escreveram uma
carta aberta pedindo a Albanese a criação dessa Royal Commission.
Enquanto escrevo,
acabo de saber pela ABC-TV que o primeiro-ministro “se coloca ao lado da
comunidade judaica nesse tempo de dor devastadora”, e acaba de nomear uma
ex-ministra da Justiça para liderar a Comissão, que acaba de ser criada por
ele.
Não posso deixar
de lado um fato que durou segundos, na cerimônia do dia 21. Esse fato, como
pude notar, não mereceu maior cobertura ou comentários por parte da grande
mídia. Ele veio, no meu entender, rememorar ou trazer à tona, que este é um
país onde diversas etnias, tradições, raças e mesmo culturas convivem intensa e
harmoniosamente. Naquela tarde, enquanto Ahmed se achava hospitalizado, seu pai
compareceu à cerimônia na praia de Bondi. A coragem de Ahmed salvou incontáveis
vidas. E ali aquele pai, um muçulmano, recebeu um abraço caloroso de
agradecimento justamente do mais alto rabino da hierarquia judaica de Sydney.
Há sempre espaço para a convivência respeitosa, ou civilizada, creio.
Já que tirei
esses 30 dias para reflexões concluo: “mais abraços, menos balas”. É como me
cabe interpretar, hoje, um slogan emblemático dos dias da minha juventude.
*Marcus
Cremonese reside em Rylstone, NSW, Austrália.

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