Assim como o tetra de 1994 favoreceu FH, cinema pode
melhorar o humor nacional em 2026 para Lula
O petista conta com o favoritismo nas pesquisas, sua
decantada sorte e as comparações com Bolsonaro, mas ele está cercado de
interrogações
O cinema nacional está lavando a nossa alma, tão machucada
pela tentativa de golpe e por escândalos, privilégios, insegurança e
desigualdade social, e não se pode desconsiderar o efeito político, e
particularmente eleitoral, que o sucesso internacional de Ainda Estou Aqui e O
Agente Secreto pode ter no Brasil. O “País do Futebol” é também o país do
cinema.
Em seu livro O Improvável Presidente do Brasil, de 2013,
Fernando Henrique admitiu que nunca deu a menor bola para futebol, mas virou
torcedor obsessivo na campanha presidencial de 1994 e colheu os gols, ou
louros, do tetracampeonato brasileiro do mesmo ano. Segundo ele, a Copa trouxe
otimismo ao País e ajudou a impulsionar o Plano Real e, depois, sua eleição à
Presidência.
“Num País havia tempo deprimido, todos se
agarraram a essa prova de que o Brasil ainda era capaz de grandeza”, escreveu
FH, como sociólogo e expresidente, sobre como sucessos fazem a alegria da massa
e impactam em eleições. Igor Maciel, da Rádio Jornal (PE), me lembrou do livro,
quando falávamos da euforia com os dois filmes, Fernanda Torres, Wagner Moura,
Walter Salles e Kléber Mendonça Filho.
Se Copas do Mundo, Olimpíada, vôlei, skate, surf... e o
cinema têm efeito político, tendem, por óbvio, a favorecer os presidentes de
plantão. Que o diga o general-ditador Médici, que usou a vitória do Brasil na
Copa de 1970, no México, como propaganda a seu favor.
Assim, o presidente Lula deve capitalizar o sucesso do
cinema nacional, inclusive em fotos com os vitoriosos – que são, aliás, seus
apoiadores. E tudo isso se torna mais forte pelo confronto entre ditadura e
democracia e entre os governos de Jair Bolsonaro e Lula. São fatos.
Ainda Estou Aqui e Agente Secreto trazem de volta o drama
individual de um ex-deputado dedicado a Direitos Humanos e um professor
universitário envolvido em projetos científicos, como sínteses da tragédia
coletiva, num País que nunca virou a página da ditadura e acaba de condenar e
prender um ex-presidente e oficiais generais por tentativa de resgatar o
arbítrio, o autoritarismo.
Outra comparação é que Lula-3 não é uma maravilha na área da
Cultura, mas nada poderia ser pior do que na era Bolsonaro, com Roberto Alvim,
capaz de fazer apologia ao nazismo, Hitler e Goebbels, e depois Mário Frias,
que posava para fotos, não com textos, partituras, pinturas, só com fuzis.
E o Oscar vem aí, com Lula na torcida. Não custa lembrar,
porém, que a Copa criou o clima, mas quem elegeu FH em 1994 foi o Plano Real e
Lula não tem nada perto de um Plano Real, além de estar cercado de
interrogações.

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