A nova estratégia de defesa dos Estados Unidos pede
atualização da política externa brasileira
Ação na Venezuela não foi em defesa da democracia, mas
aos interesses das petroleiras americanas
Nos anos 1950, o cartunista americano Al Capp (1909-1979)
introduziu um novo personagem nas tirinhas que publicava em vários jornais: a
Águia Careca. O pássaro compelia quem fitasse seus grandes olhos inocentes a
dizer compulsivamente a verdade, revelando as piores intenções. Magnatas e
políticos eram assim levados ao sincericídio, reconhecendo suas maquinações e
falcatruas.
Mesmo septuagenária, a águia de Capp pode
ter voado, no último sábado, para Mar-a-Lago, na Flórida, quando o presidente
Donald Trump explicou aos jornalistas as razões da operação militar realizada
em território
venezuelano para sequestrar
Nicolás Maduro e esposa e encarcerá-los em Nova York. Não se tratou de
defender a democracia,
destruída pelo ditador chavista, nem de preservar os direitos fundamentais de
seus opositores perseguidos e encarcerados. Com desinibida crueza e típica
prepotência, o presidente explicou que, ao fim e ao cabo, os objetivos eram
defender os interesses
das petroleiras americanas e afirmar a primazia dos Estados Unidos no
Hemisfério Ocidental.
Tratou-se de uma demonstração prática dos princípios
delineados na nova Estratégia de Nacional de Defesa dos Estados Unidos, há
pouco anunciada pela Casa Branca. Não são raros os que nela veem a exumação
da Doutrina
Monroe, proclamada no século 19, e reafirmada na visão de um mundo dividido
em esferas de influência, garantidas antes pela força do que pelo Direito.
É precipitado dizer que se voltou a um período anterior à
densa tessitura de normas e organizações que deram vida à ordem internacional
liberal emersa dos escombros das duas guerras mundiais do século passado,
especialmente da segunda. Instituições deitam raízes nutridas por rotinas e
interesses; dão vida a organizações que nem sequer a vontade de uma nação
poderosa pode liquidar da noite para o dia.
De toda forma, parece claro que a estratégia americana
coloca desafios inéditos para países como o Brasil, os quais, não sendo
potências, contam no plano regional.
Diante das pretensões americanas no Ocidente, o cientista
político Feliciano de Sá Guimarães, professor da USP e editor da Cebri-Revista,
vê três possibilidades: enfrentar abertamente a potência dominante –como fez
Maduro–, correndo o risco de levar o troco; submeter-se a ela por inteiro,
condenando-se assim à irrelevância; ou enveredar pelo ignoto caminho de um
arranjo no qual certa autonomia de ação se combine com a colaboração negociada
com quem quer usar a força bruta para mandar na região.
A serena reação
do governo brasileiro ao tarifaço trumpista e, agora, a nota oficial,
contida e firme, de repúdio à agressão
à Venezuela, replicada no discurso
do embaixador brasileiro no Conselho de Segurança da ONU, indicam que o
país explora aquela terceira possibilidade. Tem como guia a melhor tradição da
política externa, assentada em pragmático realismo e no profissionalismo de sua
diplomacia. Mas, para proteger o país de um vizinho poderoso e truculento, precisará
de uma visão estratégica mais clara, que leve em conta os recursos de poder de
fato disponíveis, reveja a política de defesa nacional e calibre as
oportunidades de ação concertada dentro
e fora das Américas.

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