No mundo marcado pela lei do mais forte, não seria melhor
ter Forças Armadas mais poderosas?
É um privilégio voltar à estrada e percorrer o país. Aqui em
Igarapé-Miri, no interior do Pará, capital do açaí, encontramos a cidade em
festa. Intensa queima de fogos e uma motociata com mais de duzentos
participantes comemoravam o êxito dos estudantes locais no Enem. Agora, vão
todos para as faculdades em Belém. É uma pausa nas atribulações de um mundo
confuso, marcado por agressividade interna e externa da política de Trump,
escândalos como os do banco Master e assassinato do cão Orelha numa praia de
Santa Catarina.
Consultando as redes, ouvi um discurso de Lula que me
interessou. Ele fala do grande poderio militar dos Estados Unidos e lembrava
que, além de tudo, Trump anunciou armas secretas de grande potencial
destrutivo. Aqui, disse ele, temos o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, e às
vezes até falta bala para seus exercícios.
Não se trata de criticar Lula por dizer uma
verdade inconveniente, mesmo porque não há registro do final de seu discurso.
Simplesmente comecei a refletir sobre isso e a perguntar se, no mundo marcado
pela lei do mais forte, não seria melhor ter as Forças Armadas mais poderosas
que nossos recursos possam obter.
Não penso em bomba atômica ou algo desse tipo. Há países
como Vietnã que não têm bomba, e, no entanto, os agressores pensariam duas
vezes antes de ocupá-lo. Minha ideia de defesa não se limita às melhores Forças
Armadas, mas se estende também a um esforço nacional. Na Suécia, as empresas se
preparam para circunstâncias difíceis, desastres naturais e mesmo uma guerra.
Elas se perguntam, em seus planos, como funcionar nas mais difíceis situações.
Somos um povo pacífico, alegre e solidário. Mas o mundo
mudou muito, e estamos num ano eleitoral. Precisamos continuar pacíficos,
alegres e solidários, mas um pouco mais preparados para a dura realidade
internacional. Teríamos de dar uma sacudida e um upgrade nas Forças Armadas e
perguntar aos colégios, sindicatos e a todas as associações o que poderiam
fazer se houver necessidade de defender o país. Há tantos grupos nas redes,
eles poderiam colocar a questão: o que poderíamos fazer juntos? E depois desdobrá-la
em reuniões presenciais.
Pensarão que fiquei paranoico. Nem o Congresso discute a questão da defesa, porque a considera muito secundária. Há quem ache também que as potências mundiais são tão fortes que o melhor é nem pensar nisso. Esses rirão de mim. Outros, com razão, acham que as instituições estão desgastadas e inspiram desânimo geral. Mais um argumento para resolvermos o desgaste, pois ele enfraquece até a soberania nacional.
Mesmo quem não concorde ou ache que estou exagerando daria
grande contribuição pedindo aos candidatos que falem sobre o tema da defesa,
uma novidade na eleição presidencial. Como diz Mark Carney, primeiro-ministro
do Canadá, a novidade é um mundo em que ou se senta à mesa ou se é incluído no
menu. Isso depende muito de habilidade em abrir novos mercados, mas também de
ampliar a capacidade de se defender.
Artigo publicado no jornal O Globo em 03 / 02 / 2026

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