Era muita gente pedindo pelo banco. Vorcaro criou uma
rede de contatos considerável
O salvador da pátria é figura valorizada no imaginário
brasileiro, mas, no caso envolvendo o Master, está difícil encontrar alguém que
se encaixe no papel. O avanço das investigações aponta para, na melhor das
hipóteses, um misto de omissão e incompetência, em meio a uma estrutura
normativa falha. Na pior, a atuação em defesa de interesses privados, os de
Vorcaro. Como o mundo é complexo, e não existem heróis na política (engana-se
quem acha que este é um caso só técnico), o final da novela deverá apontar para
uma combinação das duas hipóteses.
Sob as barbas das autoridades
fiscalizadoras, Vorcaro teceu negócios com base em, entre outras engenharias,
precatórios lançados com valores acima dos praticados no mercado e empréstimos
suspeitos que alimentavam fundos em looping. A partir de 2023, com o Banco
Central (BC) sob Campos Neto, as operações suspeitas passam a despertar
rejeição dos operadores mais prudentes — ou mais bem informados.
O BC, no entanto, tocou a bola de lado. Em outubro de 2023,
diante das reclamações de outros bancos, editou a resolução 346, que impunha
regras para diminuir a exposição a precatórios, uma das operações mais
suspeitas do Master. Mas havia um senão:
— O tratamento previsto neste artigo não se aplica aos
precatórios expedidos (...) até a data-base de 30 de junho de 2023.
A regra não valia para trás. Foi um baita fôlego para o
Master. A farra dos CDBs também correu solta até quase o Natal de 2023, quando
a resolução 5.114 do Conselho Monetário Nacional limitou ao patrimônio líquido
do banco emissões com garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Os olhares mais atentos já viam problemas de solvência — não
só de liquidez — desde 2024. Mas somente em novembro Vorcaro foi chamado no BC
para apresentar um plano de sobrevivência, segundo Alex Ribeiro, do Valor
Econômico. Àquela altura, o Master apresentava também falhas no recolhimento
dos compulsórios e, meses depois, já em 2025, os bilhões declarados em créditos
repassados ao BRB já exalavam cheiro ruim. Apesar da situação insustentável, o
BC ainda autorizou, em junho de 2025, a transferência do controle do Banco
Voiter, de Vorcaro, ao empresário baiano e ex-sócio Augusto Lima, também alvo
da Polícia Federal (PF). Com a decisão, na prática, um ativo do Master saiu
protegido de uma eventual liquidação. Em setembro, diante de todo esse cenário,
o BC vetou a venda do Master ao BRB, apesar da posição contrária do diretor de
fiscalização.
Se mercado, BC, FGC, Ministério Público e PF já sabiam, por
que o BC esperou até novembro, quando veio a operação da PF que prendeu
Vorcaro, para liquidar o banco? Os defensores da demora alegam que a liquidação
seria traumática, que se buscava uma solução de mercado e que havia preocupação
com o FGC.
A variável política pode explicar a demora do BC, que estava
sob pressão. Era muita gente pedindo pelo Master. Vorcaro criou uma rede de
contatos considerável. Do Congresso ao STF, passando pela Bahia e aportando no
Planalto. Lula o recebeu quando Galípolo era diretor do BC. A liquidação
ocorreu apenas depois de Vorcaro parar nas páginas policiais. Tanto que, a
partir daí, o presidente do BC pediu investigação interna para saber se houve
omissão na fiscalização. Não dava mais para o BC tocar a bola de lado.

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