Quem quer que esteja limitando-se a pesquisas eleitorais
precoces quer difundir o pressuposto de que só existe uma direita e de que só
existe uma esquerda
Há mais de um ano que pesquisas de opinião eleitoral sobre
preferências nas eleições de 2026 tentam nos convencer de que tudo já está
quase decidido. Mal escondem o possível intuito de despistar os eleitores,
fazendo-os supor que a lógica do pleito é uma só. O país não teria outra
alternativa senão a da polarização de esquerda e direita.
Foi Brizola quem viu no PT e no ideário petista uma variante
da social-democracia. Portanto, um partido social, de centro-esquerda, e não um
partido de esquerda como os partidos clássicos dessa orientação.
Um partido sob o risco eventual de perder
eleitorado para partidos de direita, de classe média. Menos por mudar de lado,
mas porque a realidade social sofreu na simbolicamente petista região do ABC
imensas mudanças. Ela deixou de ser região majoritariamente operária, passou
pela reestruturação produtiva e pelo início da desindustrialização.
Caracterizou-se, também, por uma mudança demográfica
significativa. A grande maioria dos trabalhadores das fábricas deixou de ser de
residentes do ABC para ser de moradores dos municípios vizinhos, inclusive da
capital paulista. E os eleitores regionais, residentes no ABC, são
trabalhadores em outros municípios. Situação de classe social e orientação
eleitoral desconectaram-se.
Quem quer que esteja limitando-se a pesquisas eleitorais
precoces, sabendo-o ou não, quer difundir o pressuposto de que só existe uma
direita e de que só existe uma esquerda. Essa prisão ideológica pressupõe, com
tais dados, o bloqueio da reflexão política. Os partidos, não só os da
polarização, não parecem interessados no desbloqueio.
Não querem que o eleitor se pergunte: qual direita? Qual
esquerda? No processo político, sobretudo no processo eleitoral, nem tudo é
visível e menos ainda já chegou de fato à consciência de quem vai votar. No
início de 1989, petistas já cantavam o “Lula-lá” com ânimo exaltado. Até
hostilizavam quem ousasse ter dúvidas quanto a se Lula seria o eleito. Apenas
os melhor informados intuíam que o estranho Fernando Collor, que não era
candidato, poderia sê-lo. E acabou sendo candidato e eleito.
É significativo que no ABC, onde o PT nasceu e foi
hegemônico por longo tempo, nas eleições dos últimos anos, o eleitorado começou
a dele se afastar para a direita. As novas gerações, de filhos dos
manifestantes de esquerda do Estádio de Vila Euclides, ganharam um perfil
diverso do dos pais. Tornaram-se direitistas no comportamento, com episódios de
racismo e de misoginia. O PT, que tem dado demonstrações de considerar-se
patrono da ascensão social do operariado, criou a categoria social dos que com
ele já não se identificam, a classe média.
E a direita, no caso de Fernando Henrique e de José Serra, e
do PSDB, que não são nem eram de direita, são originários de movimentos
políticos mais autenticamente de esquerda. Diferentemente do que ocorre com o
PT, cujos eleitores se identificam com Lula e não necessariamente com o
partido, o PSDB não conta com uma lealdade política de seus eleitores que
reconstitua os fatores de sua restauração, continuidade e representatividade. O
PSDB foi em boa parte fruto da pluralidade social e ideológica do povo brasileiro,
que os oportunistas do partido destruíram.
O núcleo decisivo do outro lado da polarização tem
demonstrado vitalidade causada por algo que é bem diferente do que acontece com
o PT. Sabendo ou não sabendo, a família Bolsonaro atua como uma dinastia,
embora falsa. Usa o nome de família, como se fosse marca de massa de tomate,
uma anomalia política. O pai pode estar na cadeia, mas o nome não está.
Enquanto houver um varão que procrie alguém com esse sobrenome, ainda que em
declínio, a visibilidade da marca estará assegurada.
Os Bolsonaros têm inimigos naturais. Os que se aproveitam da
deterioração política do nome, os factoides ansiosos por personificá-los e
usurpar-lhes o prestígio difuso e enganoso. Mas, em seu caso, o eleitor da
direita não parece vulnerável à deterioração da identidade e da consistência do
grupo. Até porque não são um partido. São uma aglomeração não unificada por
ideologia ou doutrina, mas por ambição de poder.
Os fatores da disputa não são os mesmos nos seus diferentes
grupos. Quando se observa o comportamento de deputados bolsonaristas na Câmara
dos Deputados, é fácil notar que eles se reproduzem nos gestos, no modo de
falar e de desqualificar os opositores. Tenho a impressão de que Olavo de
Carvalho foi o inventor do método pedagógico para reproduzir os atores desse
perfil.
Algo muito parecido com o que também acontece com as seitas religiosas fundamentalistas que aderiram ao bolsonarismo.
A direita industrializou a produção de adeptos.

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