Controvérsia sobre os valores da família brasileira
despertada pela escola de samba que homenageou o presidente Lula é
politicamente relevante e eleitoralmente potente
A controvérsia sobre os valores da família brasileira
despertada pela escola de samba que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, e que em uma das alas criticou os “Neoconservadores em conserva”,
é politicamente relevante e eleitoralmente potente. Contudo, desperta uma
sensação de déjà vu, que nos transporta ao século 19.
Quem não se recorda da antológica frase de abertura de “Anna
Kariênina”? “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é
infeliz à sua maneira”. Quando Tolstói escreveu o romance - um clássico da
literatura universal - entre 1873 e 1877, lançou o debate sobre modelos de
convívio familiar e a noção de progresso, associada a valores econômicos e
sociais. Puniu a heroína infiel com o famoso desfecho trágico. Perto dos 45
anos, era um autor consagrado por “Guerra e paz”, casado e tinha quatro filhos:
era a personificação do homem de família feliz.
Quase 150 anos depois, a oposição pode se
refestelar com a polêmica levantada pela escola que na intenção de afagar o
presidente da Republica, se não o prejudicou eleitoralmente, causou danos à sua
imagem que os petistas terão de rebolar para contornar. As cúpulas do governo e
do PT ainda avaliam internamente a dimensão do estrago gerado pelo desfile da
Acadêmicos de Niterói.
O rebaixamento da escola é um constrangimento residual, a
futura batalha jurídica sobre eventual campanha antecipada incomoda, porém, a
real preocupação volta-se à ala que retratou famílias dentro de latas de
ervilha, algumas com referências religiosas. A percepção é de um inevitável
desgaste com o eleitor conservador, em especial, o evangélico - que representa
quase 30% da população.
Uma fonte governista salientou que não é racional tentar
reduzir a relação de Lula com as famílias brasileiras à alegoria de uma escola
de samba, e ressalvou que o “samba é criativo e crítico” por definição.
O problema foi a falta de senso de oportunidade em uma
conjuntura politicamente desfavorável, em que a polarização que divide a
sociedade entre bolsonarismo e lulismo desde
2018 parece cristalizada, indicando uma eleição acirrada como a de 2022. Sempre
bom lembrar: naquele pleito, Lula obteve 50,9% dos votos
válidos, vencendo Jair Bolsonaro (PL) por uma margem apertada
de 2,1 milhões de votos (1,8% do total).
Foi um banquete para a oposição. Em alusão ao desfile
da escola que homenageou Lula, em publicação em seus perfis nas redes sociais,
o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ)
dirige-se a quem “não é de esquerda nem de direita”, mas que não ficou feliz
“com o dinheiro dos impostos sendo utilizado para campanha antecipada”, ou com
sua fé e o pastor de sua igreja sendo “alvos de chacota”, colocados dentro de
“latas de conserva”. A provocação havia alcançado mais de 26,2 milhões de
visualizações até essa quinta-feira.
Uma liderança do PT costuma afirmar que a esquerda detém a
arma de comunicação mais poderosa que é o presidente da República: “Lula tem um
canhão na boca”, observa, em alusão ao potencial de alcance das falas
presidenciais. Contudo, como a acusação de suposta campanha antecipada
intimidou o governo e o PT, os ataques da oposição, a pecha de que a esquerda
seria contrária aos valores familiares, ficaram sem resposta até agora.
Na direita, o “canhão na boca” continua com o deputado Nikolas
Ferreira (PL-MG), que em postagem em seus perfis, acusou Lula e o PT
de odiarem “famílias estruturadas” e pais que amam seus filhos. Segundo ele, um
jovem distante dos pais é facilmente “tragado pela esquerda”. “Eu sou ou feliz
na minha família em conserva, nunca foi tão fácil escolher um lado”, arremata
no vídeo que já obteve mais de 32 milhões de visualizações.
“O vídeo não explodiu como o do Pix”, destacou uma fonte
governista, comparando com o post de Nikolas do ano passado, em que ele
sugeriu, falsamente, que o governo taxaria a ferramenta, o que causou queda
abrupta da aprovação de Lula. O “vídeo do Pix” já conseguiu mais de 347 milhões
de visualizações. Petistas alegam que houve impulsionamento e favorecimento do
algoritmo. Ainda assim, a distância nas redes entre a oposição e a esquerda
continua sendo abissal.
A mesma fonte governista reconheceu, entretanto, que nessa
conjuntura, é urgente responder à acusação de que Lula, o PT e a esquerda de
forma geral seriam contrários aos valores das famílias brasileiras, quaisquer
que sejam seus formatos, do conservador ao progressista.
Segundo a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada no começo do mês, a desaprovação de Lula entre os evangélicos “despiorou”, isto é, caiu de 64% em janeiro para 61% em fevereiro, acima da margem de erro, de 2 pontos percentuais. Evangélicos representam hoje 26,9% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vale destacar, contudo, que católicos reforçam o eleitorado conservador - maior fatia dos brasileiros.
Para um dirigente petista, a oposição cumpre seu papel. “Eles estão sem referencial, pois Bolsonaro está preso”, enquanto Lula compareceu às principais praças de Carnaval, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, pontuou. “O que restava a eles? Produzir confusão, tentar sangrar o governo”. Este petista acha que a onda de ataques será pontual. “Todos conhecem as qualidades e defeitos de Lula”, desafiou.

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