Banco Central e Polícia Federal foram atacados por
cumprir seu papel no caso Master. Agora os rumos da investigação foram
corrigidos
No final do ano passado, o Banco Central estava sob ataque
do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal de Contas da União. O ministro Dias
Toffoli, do STF, tinha convocado uma estranha “acareação” do diretor do BC com
os investigados. O ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, falava em desfazer a
liquidação do Banco Master. Em meados de janeiro, a Polícia Federal sofreu
tentativa de interferência na investigação por parte do ministro Dias Toffoli.
Neste fim de março, a situação é outra. O ministro relator no STF não é mais
Dias Toffoli e sim André Mendonça. No TCU, os técnicos mostraram que o ministro
Jhonatan estava errado. O fraudador Daniel Vorcaro está preso e negocia uma
colaboração premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da União.
Agora houve mais um lance nessa guinada.
Daniel Vorcaro chegou a dizer, para evitar a liquidação, que estava vendendo o
Master para o Fictor, instituição que logo depois pediu recuperação judicial,
ou seja, não tinha qualquer capacidade de compra do encrencado banco. Ontem, o
CEO e um ex-sócio do banco que supostamente compraria o Master estavam entre os
alvos de uma operação que investiga ligação entre o Fictor e o Comando
Vermelho, numa série de fraudes bancárias. Fica mais uma vez provado que o
Banco Central estava certo.
O caso está longe do fim, mas esses primeiros meses do ano
serviram para corrigir o rumo dos acontecimentos. Houve um momento — entre o
fim do ano passado e o começo deste ano — em que a rede de lobbies montada por
Vorcaro em Brasília parecia estar tendo sucesso no projeto de desfazer a
liquidação. Era como se o errado fosse o Banco Central que liquidou o banco e
denunciou os crimes ao Ministério Público, e a suspeita fosse a Polícia Federal
que investigou e pediu a prisão dos responsáveis.
Na investida do ministro do TCU Jhonatan de Jesus contra o
Banco Central estavam os interesses do governador Ibaneis Rocha, do Distrito
Federal, um dos maiores envolvidos no caso Master. O governador bolsonarista,
que teve um comportamento tão recalcitrante na época da tentativa de golpe de
Estado, foi o mesmo que quis que o BRB adquirisse o Master. Quando o BC vetou a
operação, o Banco de Brasília insistiu e realizou a desastrosa compra de uma
carteira fraudulenta de R$ 12 bilhões. Vorcaro disse em depoimento à PF que
tratou diretamente da compra do banco pelo BRB com o governador. O banco
público, aliás, está nesse momento em situação dificílima. Tem um rombo, que
não se sabe como será capitalizado, e precisa divulgar um balanço até a semana
que vem.
Os técnicos do TCU que fizeram uma auditoria sobre o
processo de liquidação do Master disseram que o governador foi três vezes ao
tribunal para convencer o órgão a presssionar o BC. Primeiro a aprovar a compra
do Master pelo BRB, depois a rever o veto à operação. Foi exatamente o que fez
Jhonatan de Jesus, tentou pressionar o Banco Central. Em seu extenso relatório,
os técnicos do TCU respaldaram a autoridade monetária em suas decisões.
Novos desdobramentos ocorrerão, principalmente se houver a
delação premiada de Vorcaro, do seu cunhado Fabiano Zettel, e do
ex-administrador dos fundos Reag, João Carlos Mansur. Os fundos Reag, também
liquidados, eram parte da operação fraudulenta do Master. Os três têm muitos
crimes a confessar e muito a esclarecer. Mas terão também que entregar novas
provas além das que a Polícia Federal já tem, pelas investigações que fez a
partir da denúncia do Banco Central.
O BC estava na berlinda no fim do ano passado, diante das
decisões do ministro Dias Toffoli, que chegou a determinar uma acareação entre
o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, com dois investigados, Vorcaro e o
ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. Criticado, Toffoli voltou atrás.
Contra a Polícia Federal, o então relator tomou sucessivas decisões para
limitar o processo investigatório. Em 12 de fevereiro, Toffoli, na parte mais
decisiva da guinada, deixou o caso, após admitir que uma empresa familiar, a
Maridt, na qual é sócio havia feito negócios com os fundos Reag.
O caso Master produzirá novos momentos de estresse, mas pelo
menos foi superado, neste primeiro trimestre, a situação esdrúxula de ter um
ministro do Supremo e um ministro do TCU ameaçando quem tentava punir os
criminosos.

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