O capital financeiro, ao subordinar o valor presente da
riqueza aos rendimentos, se conserva, se nega e se supera
A Economia Capitalista Monetária da Produção só pode ser
compreendida como um processo histórico, no qual produção, circulação e
valorização se articulam desde o início sob a mediação do dinheiro. Não se
trata, portanto, de uma teoria do valor tomada em sua forma pura ou abstrata,
mas de relações inerentes e socialmente fetichizadas, nas quais a valorização
do valor se impõe como princípio organizador da vida social.
Em O Capital, no Livro III, ao analisar o
processo de nivelamento da taxa de lucro “sobre o qual repousa toda a produção
capitalista”, Marx desloca o foco da concorrência entre capitais individuais
para a mobilidade do capital enquanto totalidade social. A centralização do
capital monetário e o desenvolvimento do sistema de crédito reduzem os custos
de circulação, diminuem a necessidade de retenção de fundos ociosos e aceleram
o processo de reprodução ampliada do capital. O crédito permite que a acumulação
avance muito além das possibilidades de cada capital industrial isolado, ao
mesmo tempo que generaliza a concorrência, intensifica a realização
contraditória do valor e torna imanentes as crises de superprodução.
Marx apreende a gênese dessas formas ao expor o capital já
constituído em suas determinações, ainda que sua exposição se inicie pela forma
elementar da mercadoria. No capital a juros, o capital aparece como se buscasse
a valorização a partir de sua própria circulação, parecendo negar seus
fundamentos produtivos, mas trata-se de uma forma necessária de manifestação de
relações reais transformadas. Essa forma suprema do capital expressa uma
contradição efetiva: a valorização parece autonomizar-se, mas o faz apenas
porque a socialização produtiva mediada pelo crédito amplia a escala do
desenvolvimento das forças produtivas e torna o capital funcionalmente
interdependente.
Concomitantemente, a separação entre capital enquanto
propriedade e capital enquanto função faz com que toda remuneração apareça sob
a forma de juro, que se impõe como critério geral de valorização do capital
total. Assim, todas as formas de renda, inclusive os salários, tendem a
aparecer como rendas capitalizadas, e a taxa de juros afirma-se como limite
inferior da aplicação de qualquer capital, funcionando como taxa interna de
retorno que orienta a avaliação de ativos e investimentos.
O capital financeiro assume, assim, importância teórica
central. Ele redefine o cálculo capitalista ao subordinar o valor presente de
toda riqueza aos rendimentos esperados descontados pela taxa de juros de
mercado. Não se desloca o fundamento sistêmico da acumulação, mas o eixo de sua
manifestação histórica, performando a taxa de juros como referência
autorreferenciada da dinâmica contemporânea de valorização. Trata-se de um
movimento que só pode ser compreendido com uma análise sistêmica, no sentido hegeliano
da Aufhebung, no qual o capital se conserva, se nega e se supera a si mesmo.
O capital financeiro subordina toda riqueza aos
rendimentos futuros descontados pela taxa de juros
Nesse movimento de financeirização da economia capitalista
monetária da produção, o capital financeiro organiza o espaço global de
acumulação, determinando fluxos, preços de ativos e hierarquias monetárias. A
moeda e a dívida como ativo primordial não são neutras nem exógenas. A criação
monetária ocorre como produção de liquidez mediada pelo crédito e por arranjos
institucionais, não como simples “impressão de dinheiro”. A narrativa que reduz
a política econômica à obsessão fiscal obscurece esse funcionamento real e
subordina a ação do Estado às exigências de valorização financeira, comprimindo
o espaço fiscal enquanto instrumento político.
O investimento não é função da poupança, mas das
expectativas de lucro e da confiança quanto à realização futura do excedente.
Essa lógica se projeta sobre a circulação internacional de capitais, movida por
expectativas de rentabilidade financeira e segurança cambial. Em contextos de
incerteza, o flight to quality provoca fuga de capitais das economias
periféricas, e esse deslocamento repercute imediatamente sobre a curva de juros
doméstica. A pressão cambial leva o Banco Central a elevar a Selic Over para conter
a depreciação e ancorar expectativas. Eleva-se a curva curta, distorce-se a
estrutura a termo e, com a marcação a mercado diante da fuga de capitais,
empina também a ponta longa. O custo de rolagem da dívida pública aumenta e o
espaço fiscal se comprime, afetando o investimento.
Como advertia o velho Mohr de Tréveris:
“A dívida pública torna-se uma das alavancas mais poderosas
da acumulação primitiva, como um toque de varinha mágica, ela infunde força
criadora no dinheiro improdutivo e o transforma, assim, em capital, sem que,
para isso, tenha necessidade de se expor aos esforços e riscos inseparáveis da
aplicação industrial e mesmo usurária. Na realidade, os credores do Estado não
dão nada, pois a soma emprestada se converte em títulos da dívida, facilmente
transferíveis, que, em suas mãos, continuam a funcionar como se fossem a mesma
soma de dinheiro vivo (…) a dívida pública impulsionou as sociedades por ações,
o comércio com papéis negociáveis de todos os tipos, a agiotagem, numa palavra:
o jogo da Bolsa e a moderna bancocracia”. (Marx, 2013, p. 824)
Tratar política monetária e política fiscal como
indissociáveis é um equívoco teórico e político. Essa separação repousa em
modelos herdados da física newtoniana, da tradição walrasiana e dos equilíbrios
gerais, incapazes de apreender o capitalismo como processo histórico e
contraditório. No capitalismo monetário da produção, decisões monetárias e
produtivas se determinam conjuntamente no espaço-tempo. A economia é um
movimento social mediado pela moeda, pelo crédito e pela expectativa.
O risco de cooptação da acumulação social pela riqueza
abstrata, que consome a vida e reduz as possibilidades econômicas para nossos
netos, é evidente. Não por acaso, em 1930, um homem público ousou sonhar com o
fim dessa lógica, chamavam-no de Maynard, assim tratado por respeito entre
aqueles que ainda carregam valores humanistas. Cultivemos a humanidade dos
primitivos que carregam consigo o maxilar inferior de seus mortos, como dizia
Drummond. Ou, como diria Caetano Veloso: “Gente é pra brilhar, não pra morrer
de fome”.
Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25
de março de 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário