É difícil sustentar que governo e oposição estejam
igualmente envolvidos na falcatrua
A opinião pública crê que todos são responsáveis
"Assim é, se lhe parece", peça de Luigi Pirandello
(1867-1936), foi encenada pela primeira vez em 1917. Nela, a misteriosa senhora
Ponza, forçada pela população de uma pequena cidade a enfim revelar sua
controversa identidade, declara ser " aquela que se crê que eu seja".
Dessa forma, o dramaturgo italiano sustentava que não há uma verdade única e
acessível, mas perspectivas diferentes e irreconciliáveis e que a tentativa de
chegar a uma verdade absoluta sobre a realidade é sempre infrutífera.
A peça, que vi no Teatro Brasileiro de
Comédia, quando mal entrava na adolescência, me veio à cabeça, trazida pela
discussão das consequências políticas do escândalo do Banco Master.
Trata-se de um problema que afeta dois juízes de nossa corte suprema e, tudo
leva a crer, um número razoável de políticos de direita. Ou seja, envolve a
oposição, mas passa longe do governo Lula.
Dos 18 governadores sobre os quais pesam acusações de
negócios com o banco de Daniel
Vorcaro, 17 pertencem a partidos de direita; os mais implicados —Cláudio de
Castro (PL-RJ)
e Ibaneis
Rocha (MDB-DF)—
se elegeram com o apoio do bolsonarismo. A exceção fica por conta da Bahia,
governada há muitos mandatos pelo PT.
Todos os parlamentares que tiveram seus nomes citados nas
investigações também pertencem a partidos de direita, a começar pelo
senador Ciro Nogueira (PP-PI), que tentou
levar adiante um projeto de emenda constitucional que viria em socorro do banco
falido.
E não se conhecem políticos de esquerda que tenham
participado das orgias organizadas pelo ex-cantor da Rede Super, emissora
vinculada à Igreja da Lagoinha, transformado em banqueiro bem-relacionado em
Brasília e adjacências. Nos bons tempos, o então dono do Master fez gordas
doações às campanhas eleitorais de Bolsonaro e de deputados do seu grupo. O
banco disparou feito foguete quando o ex-capitão estava no Palácio de Planalto
e Roberto Campos Neto no Banco Central.
É fato que Guido Mantega, ministro de Dilma Rousseff, atuou
como lobista para aproximar Vorcaro do presidente Lula, assim como que Ricardo
Lewandovski foi consultor do banco no curto período entre sua aposentadoria
do STF e
a nomeação para o posto de ministro da Justiça. Mas é difícil sustentar que
governo e oposição estejam envolvidos na mesma medida na gigantesca falcatrua.
Também são dois os ministros do Supremo sobre os quais pairam suspeitas, não
toda a corte.
Não é assim, porém, que a população parece ver as coisas.
Segundo a pesquisa Meio/Ideia feita há pouco, ampla maioria de brasileiros tem
algum conhecimento do caso Master, mas se divide quanto à atribuição de
responsabilidades. Um quarto associa o episódio a todos os Poderes da
República, —a mesma porcentagem dos que o ligam apenas ao STF. Oito em cada dez
entrevistados acreditam que o escândalo abalou a credibilidade da corte.
Já a mais recente enquete da Genial/Quaest constata que a
corrupção é hoje a segunda preocupação dos brasileiros, logo após violência e
pouco acima dos problemas sociais. Para parcela significativa da população, a
crise é sistêmica e a desconfiança nas instituições políticas, generalizada.
Assim é, se lhes parece.

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