Mortalidade um ano após pneumonia aspirativa chega a 49%
Domiciliar se justifica, mas teria de valer para todos os
presos com doença grave
Se você se frustrou (ou ficou feliz) com a recuperação de Jair
Bolsonaro, saiba que a situação
ainda está longe de resolvida. Os números falam por si. Um estudo
sul-coreano de 2019 com 550 pacientes de pneumonia aspirativa, a moléstia que
levou o ex-presidente à UTI, mostra que a mortalidade um ano após o evento
atinge 49% e vai a 76,9% após cinco anos.
O problema aqui é menos as bactérias, que,
afinal, parecem estar sendo controladas pelos antibióticos, e mais o que a
doença revela sobre o estado geral do paciente. A pneumonia
aspirativa é hoje vista pelos médicos como um marcador inequívoco de
vulnerabilidade, especialmente para idosos. Numa daquelas ironias da história,
o sujeito com histórico de atleta que nada sofreria com a Covid-19 é agora
oficialmente um idoso frágil. O fato de a infecção de Bolsonaro ter atingido os
dois pulmões e as notícias de que ele não tem conseguido se alimentar direito
tornam seu quadro ainda mais delicado.
A causa principal dos males que acometem Bolsonaro é
conhecida: as várias cirurgias a que ele teve de ser submetido após a facada de
2018 provocaram complicações digestivas, como esofagite e refluxo, que têm se
mostrado refratárias a controle. Ele pode voltar a aspirar conteúdo gástrico e
desenvolver novas pneumonias.
Como já disse aqui, não é Bolsonaro quem vai me fazer
desistir do humanismo penal que sempre defendi. Sua situação de saúde é
compatível com a conversão
da prisão em regime fechado em domiciliar. Mas, se o STF for por
esse caminho, aí, em nome do princípio republicano, o ex-presidente precisaria
se tornar "benchmark", isto é, idêntico tratamento teria de ser
estendido a todos os enfermos graves que se encontrem no sistema. E não basta
dizer que eles fariam jus aos mesmos benefícios. É preciso um esforço do
Judiciário para identificar esses presos, que nem sempre contam com bons
advogados e médicos que produzam laudos sombrios, e mandá-los para casa.
Seria até uma forma de o STF começar a resgatar a
credibilidade perdida.

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