A sua proposição "parem de nos matar, porque nós não
vamos morrer" traduz de forma didática uma reflexão filosófica muito
profunda: a de que é impossível negar a liberdade de uma mulher ou de qualquer
ser humano
É difícil para uma mulher bem informada se manter confiante
e esperançosa nos tempos que vivemos. As razões são múltiplas, e cito algumas
só para ilustrar o quão grave é o nosso problema. Falo da evidência cotidiana
da violência generalizada que vitimiza tantas mulheres; da
deficiência do Estado em proteger e promover mudanças estruturais; do déficit
de representação política que dificulta uma transformação mais profunda da
sociedade; do empobrecimento econômico que atua como obstáculo substancial para
a autonomia e desenvolvimento feminino.
O cenário é de desigualdade
extrema entre homens e mulheres, alimentada por uma organização da
sociedade que atua para reproduzir as assimetrias, condenando as mulheres a um
ciclo vicioso de vulnerabilidade, pobreza e dependência. Um panorama tão
sombrio parece nos condenar ao pessimismo e à desistência de qualquer projeto
emancipatório mais ousado, e todas as pessoas que trabalham para a mudança
desse estado de coisas precisam, entre seus desafios, administrar a própria
fadiga e desmotivação. Há momentos em que a justiça parece mesmo uma quimera
impossível.
Nesses momentos da história, vozes capazes de levantar o
ânimo coletivo e renovar a esperança de cada indivíduo são muito valorosas. Foi
com esse espírito de fôlego renovado que o auditório da Faculdade de Direito da
UFC, lotado com centenas de pessoas, aplaudiu de pé o discurso da ministra
Carmen Lúcia, juíza do STF, na última segunda-feira.
A ministra preparou uma fala acessível, forte e muito bem
articulada, por meio da qual defendeu enfaticamente a dignidade
feminina e o nosso direito a dizer não, a viver e a prosperar. A sua
proposição "parem de nos matar, porque nós não vamos morrer" traduz
de forma didática uma reflexão filosófica muito profunda: a de que é impossível
negar a liberdade de uma mulher ou de qualquer ser humano.
Afinal, não é a imposição violenta da morte uma manifestação
da ideia de que as mulheres podem ser aniquiladas se quiserem exercer sua
autonomia? Não é o feminicídio um ato de negação da humanidade da
mulher? Uma forma de dizer que o "não" é, para nós, um luxo
impossível? Quando a ministra afirma, corajosamente, que não vamos morrer, que
temos o direito de escolher a vida de queremos e de traçar os nossos caminhos,
ela reconhece nossa aptidão inalienável à liberdade, mesmo quando toda a
realidade quer nos convencer do contrário.
Sobreviver e lutar pela sobrevivência das outras mulheres se
torna, assim, um exercício de resistência, uma afirmação política de nosso
potencial de autonomia. E, por mais repetitivo que pareça, é preciso reafirmar,
violência após violência: nós somos dignas, somos livres e temos direito a
viver sem medo.

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