Kassab rifa Eduardo Leite e indica Caiado candidato do
PSD à Presidência
Ao escolher Caiado, Kassab também abandona o projeto de
um centro autônomo e aposta em uma candidatura mais palatável aos eleitores do
governador de São Paulo
A decisão do PSD de lançar Ronaldo Caiado à Presidência,
rifando Eduardo Leite, é a afirmação de uma candidatura de centro-direita, com
ambição de unir liberais e conservadores, em reconhecimento pragmático dos
limites que as pesquisas vêm impondo ao centro político brasileiro. Embora
Gilberto Kassab tenha procurado vender a escolha como um “privilégio” diante de
três nomes competitivos, a verdade é que os levantamentos recentes —
especialmente Genial/Quaest, Datafolha e Atlas — indicam um cenário de crescente
cristalização da disputa entre Lula e o campo bolsonarista, hoje representado
por Flávio Bolsonaro. Nesse contexto, a margem para uma candidatura alternativa
não apenas é estreita; na sua avaliação, exige um perfil com maior capacidade
de polarização, ainda que sob o discurso de superá-la.
Eduardo Leite, nesse tabuleiro, encarnava a
tentativa de construção de um centro liberal moderado e moderno, com discurso
de gestão, responsabilidade fiscal e distanciamento dos extremos. Sua migração
para o PSD, em 2025, foi um movimento calculado para viabilizar essa
alternativa fora do esvaziado PSDB. No entanto, os dados das pesquisas não
acompanharam essa estratégia. Leite permaneceu com baixa densidade eleitoral
nacional, sem conseguir romper a barreira de um dígito nas simulações de
primeiro turno. Resta-lhe, ainda, até o dia 4, a possibilidade de uma
meia-volta, volver, para vir a ser candidato pela federação PSDB-Cidadania.
Caso permaneça no PSD, porém, deve disputar uma vaga ao Senado.
Lula mantém um piso robusto próximo de 30% e o bolsonarismo
demonstra capacidade de transferência de votos suficientes para colocar Flávio
na casa dos 40% no segundo turno. Diante disso, a escolha por Caiado revela uma
inflexão do PSD, sob forte influência de veteranos caciques do antigo PFL, como
Jorge Bornhausen e Heráclito Fortes, maior do que aquela representada pela ala
oriunda do PSDB, como Paulo Hartung e Márcio Fortes, que articulavam a
candidatura de Leite. Em vez de apostar em um nome capaz de “despolarizar”,
dialoga diretamente com o eleitorado conservador e com a agenda da direita. Sua
defesa de anistia ampla, geral e irrestrita – que beneficiaria Jair Bolsonaro e
os envolvidos nos atos de 8 de janeiro – é emblemática. Trata-se de uma
bandeira com forte apelo nesse campo político, mas que o afasta do centro
moderado e o aproxima do núcleo duro da oposição ao governo Lula.
As pesquisas ajudam a explicar esse movimento. Elas mostram
que o eleitorado está menos disposto a experimentar alternativas e mais
inclinado a escolher entre pólos já conhecidos. A tentativa de construir uma
candidatura “pura” de centro esbarrou na percepção da irrelevância eleitoral,
que Kassab já havia internalizado ao concluir, anteriormente, que “quem tem
três candidatos não tem nenhum”. Ao unificar o partido em torno de Caiado, o
PSD busca evitar a dispersão interna e ganhar densidade eleitoral a partir de
um nome que já demonstrou capacidade de mobilização em seu estado e que tem
discurso mais duro e propositivo, além de uma relação mais orgânica com a
direita tradicional. Caiado se coloca como mais experiente, competente e
confiável do que Flávio Bolsonaro.
Direita, volver
Caiado aposta que pode ocupar um espaço intermediário entre
Lula e o bolsonarismo, capturando parte do eleitorado conservador sem carregar
integralmente o desgaste do ex-presidente. Ao propor anistia e enfatizar
segurança pública, livre mercado e combate ao crime organizado, se posiciona
como uma alternativa “mais palatável” para setores conservadores que rejeitam o
PT, mas têm dúvidas quanto à viabilidade eleitoral de uma candidatura
diretamente ligada à família Bolsonaro. É uma aposta arriscada, porque depende
da fragmentação do campo da direita.
A reação de Eduardo Leite, ao afirmar estar “desencantado” e
criticar a manutenção da lógica polarizada, reforça essa leitura. Sua
frustração não é apenas pessoal, mas política: o projeto de reconstrução de um
centro democrático competitivo esbarra, mais uma vez, na dinâmica de um sistema
político que recompensa discursos mais contundentes e identidades mais
agressivas e nítidas.
Sem confrontar abertamente a decisão do partido, Leite
preserva capital político, mas também sinaliza que sua estratégia dependerá de
novos arranjos – possivelmente fora do PSD ou em uma composição futura. As
propostas de Caiado buscam mais densidade para sua candidatura não ficar apenas
no discurso: exploração de terras raras com agregação de valor, integração das
forças de segurança, revisão do marco regulatório da inteligência artificial e
foco em “emancipação” social (ou seja, desidratar o bolsa-família).
No entanto, a deriva aos eleitores de direita com a promessa
de pacificação via anistia e o enfrentamento direto ao PT, reforça a percepção
de que sua candidatura está mais inserida na lógica da polarização do que
voltada para superá-la. Ao escolher Caiado, Kassab também abandona o projeto de
um centro autônomo e aposta em uma candidatura mais palatável aos eleitores do
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), que disputa a reeleição.

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