Celso Ming, O Estado de S. Paulo
O Brasil se aproxima do pleno emprego; qual impacto a
redução de jornada teria nesse quadro?
Em São Paulo, empreiteiras e construtoras vêm montando
esquemas de caça à mão de obra, de maneira a garantir pessoal necessário para
cumprir cronogramas de serviço
A economia brasileira vive um momento que pode ser
considerado muito próximo do pleno emprego, situação que tem lá suas
consequências, positivas e negativas.
Os levantamentos da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por
Amostras de Domicílio – Contínua) apontou, no trimestre terminado em janeiro,
um índice de desemprego que atingiu 5,4% da população ativa, alguma coisa mais
alto do que em dezembro, temporada de mais contratação de mão de obra em
consequência do aumento do comércio de Natal, quando estava nos 5,1%.
Doze meses antes: em janeiro de 2025, o
índice de desemprego estava em 6,5%. Ou seja, no período, o mercado de trabalho
ficou bem mais aquecido, o que vai empurrando a renda média para níveis acima
da inflação, da ordem de 5,4%.
Enquanto isso, o trabalho informal, não garantido por
contrato com o empregador nem por meio de mecanismos de microempreendimento,
continua alto no Brasil, da ordem de 37,5%, situação que agrava a condição
financeira da Previdência Social, porque achata a arrecadação.
A situação de quase pleno emprego pode ser caracterizada
quando importantes setores da economia enfrentam escassez de mão de obra. É,
por exemplo, o que acontece na construção civil. Em São Paulo, empreiteiras e
construtoras vêm montando esquemas de caça à mão de obra, até mesmo às de baixa
qualificação, em canteiros de empresas concorrentes, de maneira a garantir
pessoal necessário para o cumprimento de cronogramas de serviço.
Essa relativa diluição da oferta de mão de obra pode ser
explicada por fatores recorrentes. O primeiro deles é a mais generosa
transferência de recursos do Tesouro para as populações de baixa renda. Vem
sendo feita não só por meio do Bolsa Família mas, também, por meio do Benefício
de Prestação Continuada (BPC), que proporciona um salário mínimo por mês para
idosos pobres e pessoas com deficiência física. É um meio de sustento que tende
a reduzir a procura de emprego por familiares desses beneficiários.
Outro fator de redução do desemprego é a maior utilização
dos aplicativos que vêm facilitando a ocupação por conta própria e a abertura
de MEIs (Microempreendedores Individuais) por parte de profissionais autônomos.
O mercado de trabalho aquecido, acompanhado de aumento real
da renda, é uma das condições que têm levado o Banco Central a manter os juros
básicos (Selic) nas alturas dos 15% ao ano, de maneira a atacar focos de
inflação de demanda por meio do encarecimento do crédito.
Se, por motivações preponderantemente eleitorais, conseguir
arrancar do Congresso a aprovação de Projeto de Emenda à Constituição que reduz
a jornada de trabalho, o governo federal estará contribuindo para aquecer ainda
mais o mercado de trabalho.

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