sexta-feira, 6 de março de 2026

GONET CORRE O RISCO DE SE TORNAR O NOVO ARAS

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, está correndo o risco de rasgar sua biografia e se transformar no novo Augusto Aras, que comandava o órgão na época do início do interminável inquérito das fake news. Até por seu papel institucional, é de Gonet a principal omissão hoje entre todos os entes da República que tentam abafar o caso Master.

A blindagem a Daniel Vorcaro está escapando pelos dedos graças ao trabalho de investigadores da PF, com apoio do ministro do STF André Mendonça. Com a prisão do banqueiro e o envio do seu sigilo à CPI do INSS, está vindo a público a natureza de sua organização criminosa e seu envolvimento com políticos. Vorcaro não é apenas o responsável pela maior fraude bancária do País, ou um criminoso do colarinho-branco. Ele se assemelha a chefe de uma quadrilha capaz de invadir sistemas do governo e ameaçar adversários, inclusive jornalistas.

Já são três as ocasiões em que Gonet se omitiu no caso. Não viu nada relevante para apurar no contrato de R$ 139 milhões da esposa do ministro Alexandre de Moraes com o Master. Com o apoio de manobra jurídica do STF, que afastou o ministro Dias Toffoli da relatoria do caso, Gonet também não precisou investigar a venda por R$ 35 milhões de fatia da empresa Maridt, que pertence a Toffoli e seus irmãos, em resort de luxo ao sistema que ronda Vorcaro.

Agora, Gonet foi contra a prisão preventiva de Vorcaro, por falta de tempo para analisar as novas evidências recolhidas pela PF. Destaco dois pontos: uma ordem para “quebrar os dentes de um jornalista” e a ocultação de R$ 2,2 bilhões pelo banqueiro na conta do pai. Independentemente do momento em que ocorreu, a intenção de planejar um assalto a Lauro Jardim, colunista de O Globo, mostra intenção violenta contra adversários.

E o dinheiro escondido da Justiça colabora para o risco de fuga.

Aras ficou conhecido por engavetar os ataques de Jair Bolsonaro à democracia. Colocou em risco o sistema de pesos e contrapesos da Justiça. Ao se omitir, Gonet faz o mesmo.

Só que devemos ter cuidado com as comparações históricas. Mendonça não está no mesmo papel de Toffoli, que abriu o inquérito das fake news, ou de Moraes, que o conduz até hoje. O ministro não começou o inquérito do Master de ofício, mas o recebeu por sorteio.

Não é, ao mesmo tempo, julgador e vítima e, até agora, não há sinais de envolvimento dele e de pessoas diretamente relacionadas no caso. O que Mendonça fez foi proteger os delegados da PF da pressão que vinham sofrendo Toffoli, que tentava brecar as investigações.

Gonet e Aras têm em comum a defesa de seus padrinhos políticos. Aras foi indicado por Bolsonaro, que fugiu da lista tríplice. Gonet teve forte apoio de ministros do STF, com destaque para Moraes e Gilmar Mendes, que levaram seu nome a Lula. Ao contrário de Aras, porém, Gonet tem uma carreira irretocável até aqui. Ainda há tempo para uma mudança de rumo.

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