O procurador-geral da República, Paulo Gonet, está correndo
o risco de rasgar sua biografia e se transformar no novo Augusto Aras, que
comandava o órgão na época do início do interminável inquérito das fake news.
Até por seu papel institucional, é de Gonet a principal omissão hoje entre
todos os entes da República que tentam abafar o caso Master.
A blindagem a Daniel Vorcaro está escapando pelos dedos
graças ao trabalho de investigadores da PF, com apoio do ministro do STF André
Mendonça. Com a prisão do banqueiro e o envio do seu sigilo à CPI do INSS, está
vindo a público a natureza de sua organização criminosa e seu envolvimento com
políticos. Vorcaro não é apenas o responsável pela maior fraude bancária do
País, ou um criminoso do colarinho-branco. Ele se assemelha a chefe de uma
quadrilha capaz de invadir sistemas do governo e ameaçar adversários, inclusive
jornalistas.
Já são três as ocasiões em que Gonet se
omitiu no caso. Não viu nada relevante para apurar no contrato de R$ 139
milhões da esposa do ministro Alexandre de Moraes com o Master. Com o apoio de
manobra jurídica do STF, que afastou o ministro Dias Toffoli da relatoria do
caso, Gonet também não precisou investigar a venda por R$ 35 milhões de fatia
da empresa Maridt, que pertence a Toffoli e seus irmãos, em resort de luxo ao
sistema que ronda Vorcaro.
Agora, Gonet foi contra a prisão preventiva de Vorcaro, por
falta de tempo para analisar as novas evidências recolhidas pela PF. Destaco
dois pontos: uma ordem para “quebrar os dentes de um jornalista” e a ocultação
de R$ 2,2 bilhões pelo banqueiro na conta do pai. Independentemente do momento
em que ocorreu, a intenção de planejar um assalto a Lauro Jardim, colunista de
O Globo, mostra intenção violenta contra adversários.
E o dinheiro escondido da Justiça colabora para o risco de
fuga.
Aras ficou conhecido por engavetar os ataques de Jair
Bolsonaro à democracia. Colocou em risco o sistema de pesos e contrapesos da
Justiça. Ao se omitir, Gonet faz o mesmo.
Só que devemos ter cuidado com as comparações históricas.
Mendonça não está no mesmo papel de Toffoli, que abriu o inquérito das fake
news, ou de Moraes, que o conduz até hoje. O ministro não começou o inquérito
do Master de ofício, mas o recebeu por sorteio.
Não é, ao mesmo tempo, julgador e vítima e, até agora, não
há sinais de envolvimento dele e de pessoas diretamente relacionadas no caso. O
que Mendonça fez foi proteger os delegados da PF da pressão que vinham sofrendo
Toffoli, que tentava brecar as investigações.
Gonet e Aras têm em comum a defesa de seus padrinhos
políticos. Aras foi indicado por Bolsonaro, que fugiu da lista tríplice. Gonet
teve forte apoio de ministros do STF, com destaque para Moraes e Gilmar Mendes,
que levaram seu nome a Lula. Ao contrário de Aras, porém, Gonet tem uma
carreira irretocável até aqui. Ainda há tempo para uma mudança de rumo.

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